Quem já teve covid-19 pode ser reinfetado com a BA.2? E a vacina protege-nos? Perguntas e respostas sobre a subvariante que está a espalhar-se

CNN , Deblina Chakraborty
26 mar, 21:00
Teste covid-19. Eric Lee/Bloomberg/Getty Images

Uma subvariante da Omicron, a BA.2, está a originar uma nova vaga de infeções por Covid-19 em toda a Europa. Os casos no Reino Unido, Alemanha, Holanda e noutros países estão a aumentar, impulsionados por esta estirpe muito contagiosa de coronavírus.

A proporção de casos de Covid-19 devido à BA.2 também está a aumentar nos Estados Unidos. Os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA estimam que 35% dos novos casos de coronavírus se devam a esta subvariante. Ao mesmo tempo, as restrições estão a ser levantadas, e já não há um único estado americano a exigir o uso de máscara (embora as máscaras sejam ainda necessárias em alguns locais, incluindo aeroportos, transportes públicos, hospitais, lares de idosos e algumas escolas e locais de trabalho).

Deverá a população ficar preocupada com a variante BA.2? Irão as vacinas proteger-nos contra ela? E quem contraiu uma variante anterior? Poderá ser reinfectado? A variante BA.2 é mais fraca do que as anteriores e, se sim, deverão as pessoas tentar contraí-la? Poderá a BA.2 causar um novo surto nos EUA, e será altura das restrições voltarem a entrar em vigor?

Para nos ajudar com estas perguntas, conversei com a Analista Médica da CNN, Leana Wen, médica de serviço de urgência e professora de política e gestão de saúde na Escola de Saúde Pública do Instituto Milken da Universidade George Washington. É também autora de "Lifelines: A Doctor 's Journey in the Fight for Public Health".

CNN: Que sabemos da BA.2 e quão preocupados devemos estar com ela?

Leana Wen: Com qualquer nova variante ou subvariante, temos de fazer três perguntas: É mais contagiosa? Causa doença mais grave? E escapa à proteção das nossas vacinas?

A BA.2 está relacionada com a BA.1, que é a subvariante da Omicron original, que levou ao enorme aumento de casos durante o inverno aqui nos Estados Unidos e em toda a Europa. A BA.1 alastrou pelas comunidades devido ao seu grau de contágio. A BA.2 parece ser ainda mais contagiosa do que a BA.1. A Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido estima que a BA.2 esteja a crescer 80% mais rapidamente do que a BA.1. Também aqui nos EUA, a BA.2 parece estar a caminho de ultrapassar a BA.1 e passar a ser a variante dominante.

A boa notícia é que a BA.2 não parece causar mais doença grave do que a BA.1. Investigadores do Reino Unido e Dinamarca descobriram que a BA.2 leva a um nível de hospitalização comparável ao da BA.1, o que faz com que a doença grave seja menos provável do que com a variante Delta anteriormente dominante.

Para além disso, as vacinas que temos ainda são eficazes. Ainda que a vacinação possa não proteger de forma tão eficaz contra a infeção por BA.1 e BA.2, essa eficácia pode ser parcialmente restaurada com uma dose de reforço, e as vacinas continuam a fornecer uma proteção muito efetiva contra doença grave resultante de ambas as subvariantes da Omicron.

O que tudo isto me diz é que os especialistas em saúde pública devem acompanhar de perto o crescimento da BA.2 nos EUA, mas que a maioria das pessoas não se deve preocupar. É provável que os EUA assistam a um aumento nos casos de Covid-19 nas próximas semanas, dado ser este o padrão que temos observado antes, - temos algumas semanas de atraso em relação ao Reino Unido e à Europa, pelo que o aumento que se está a verificar lá poderá ser replicado aqui. No entanto, é improvável que a maioria das pessoas vacinadas, e em particular as que receberam doses de reforço, venha a contrair doença grave com a variante BA.2. As nossas autoridades governamentais devem preparar-se para o que pode vir aí e aumentar a disponibilidade de testes e tratamentos, e continuar a apelar à população para que se vacine ou receba uma dose de reforço. Mas não creio que isto seja algo com que o público em geral se deva preocupar muito neste momento.

CNN: Isso significa que as pessoas poderão avançar com os seus planos para as férias da Páscoa e outras viagens, ou terão de adiá-los?

Leana Wen: Não penso que os planos de viagem tenham de ser suspensos. Claro que existe incerteza, porque alguns locais podem ter atualmente baixas taxas de infeção por Covid-19 e essas virem a aumentar até à altura da viagem. No entanto, esse poderá ser o paradigma para um futuro próximo. Existem poucas atividades sem risco. Viajar certamente que implica risco, mas podemos reduzir esse risco se nos certificarmos que estamos vacinados ou com doses de reforço. Usar máscara em ambientes fechados lotados reduz ainda mais o risco. Nos Estados Unidos, devem ser seguidas as orientações do CDC e deve ser usada máscara em áreas com altos níveis de Covid-19 na comunidade. Se estiver a planear viagens internacionais, conheça as regras, incluindo se é necessário ter certificado de vacinação ou um teste negativo recente.

Antes de um encontro social, as pessoas imunodeprimidas devem solicitar que as outras pessoas sejam testadas à Covid-19, sugere ainda a Analista Médica da CNN.

CNN: Há algum tipo de pessoas que devam estar preocupadas com a BA.2?

Leana Wen: As pessoas que estão mais vulneráveis a contrair doença grave de Covid-19, apesar da vacinação, devem preocupar-se com o coronavírus em geral, tal como outros agentes patogénicos infeciosos. Para a maioria das pessoas, a infeção por Covid-19 resultará em doença leve, mas para algumas pessoas - aquelas em situação de imunodepressão moderada ou severa ou com várias doenças associadas - a infeção poderá ainda resultar em hospitalização. A BA.2 poderá não causar doença mais grave do que BA.1, mas por ser muito contagiosa, as pessoas particularmente vulneráveis terão de continuar a tomar precauções adicionais. Isto inclui o uso de máscaras de alta qualidade (N95, KN95 ou KF94) em todos os locais públicos fechados, evitar grandes multidões e viajar apenas por razões essenciais. Antes de se reunirem com outras pessoas, deverão solicitar que estas façam um teste à Covid-19.

CNN: Uma pessoa que já tenha contraído a variante Omicron, está protegido contra a BA.2?

Leana Wen: A Organização Mundial da Saúde disse que a infeção por BA.1 continua a proporcionar proteção contra a BA.2. A reinfeção por BA.2 após ter contraído BA.1 é rara.

A maioria das pessoas não sabe qual a variante que contraiu, ainda que tal possa ser calculado com base no período em que foram infetados. Se alguém souber que teve Covid-19 durante o surto inicial de Ómicron, é provável que tenha contraído BA.1. Nesse caso, especialmente se também estiverem vacinados, é muito improvável que venham a contrair BA.2.

No entanto, se uma pessoa tiver sido infetada anteriormente durante outra vaga, por exemplo, numa fase em que a Delta era predominante, poderá contrair BA.1 ou BA.2. Esta é outra razão para a vacinação ser tão crucial, porque a combinação da vacinação com uma infeção anterior oferece uma proteção mais consistente e mais duradoura do que apenas uma infeção anterior.

CNN: A Omicron é uma variante menos poderosa do que outras variantes anteriores. Nesse caso, deverão as pessoas tentar contrair a BA.2 para ficar com o assunto resolvido?

Leana Wen: Em geral, tentar contrair uma doença não é uma grande estratégia. É menos provável que a Omicron resulte em doença grave em comparação com a Delta, mas ainda causa doença grave em algumas pessoas. Além disso, mesmo a doença leve pode ser muito desagradável e resultar em mal-estar, necessidade de faltar ao trabalho e incapacidade de cuidar de familiares durante dias. Uma pessoa pode também infetar outras pessoas, e existe também a possibilidade de ter sintomas de longa duração. Uma estratégia mais eficaz passa por obter a vacina e o reforço para que, no caso de contrair a BA.2 (ou outra variante da Covid-19), uma pessoa esteja o mais bem protegida possível.

CNN: Poderá a BA.2 causar um novo surto nos EUA e, se sim, será altura das restrições voltarem a entrar em vigor?

Leana Wen: A BA.2 poderá certamente levar a outro aumento nas infeções por Covid-19 nos EUA. Já existem alguns sinais de que o declínio acentuado em novos casos está a estabilizar-se e, se os EUA seguirem a Europa, como aconteceu anteriormente, esse aumento de casos poderá estar a semanas de distância.

Dito isto, não creio que isso signifique que temos de reintroduzir restrições. O objetivo da vacinação é dissociar as infeções das hospitalizações e dos casos de doença grave. Se houver um aumento de infeções, mas as hospitalizações não aumentarem ao ponto do nosso sistema de saúde ficar sobrecarregado, então creio que não se justificam medidas restritivas impostas pelo governo. Aqui, as novas diretrizes do CDC são muito úteis, pois levam em conta o número de casos de doença grave - suficientemente grave para levar à hospitalização - como o método de medição para o uso da máscara, e não qualquer grau de infeção.

Só porque o governo não está a exigir máscaras não significa que as pessoas não devam usar máscara ou tomar outras precauções. Nesta altura da pandemia, as pessoas devem tomar decisões com base nas suas próprias circunstâncias médicas e tolerância ao risco.

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