No setor da saúde, qualquer que seja a especialidade, os números contam apenas uma parte da história sobre a realidade que profissionais e, sobretudo, doentes, enfrentam no seu dia a dia. Existem problemas e questões que teremos de resolver já, para salvaguardar o futuro e o bem-estar dos doentes, e o Orçamento do Estado para 2026 revelou-se um momento determinante para tal
A discussão do Orçamento do Estado é, ano após ano, um momento de ponderação sobre as opções políticas para os vários setores, nomeadamente a saúde, permitindo identificar as opções e preferências de cada Governo. Contudo, o Orçamento do Estado para 2026 (OE2026) apresenta-se como um documento no qual as opções não são explícitas e o foco está, unicamente, nos números, com destaque para a redução da despesa em saúde, sem uma justificação plausível que a acompanhe.
A Saúde, mais do que números e despesa, é sobre pessoas. Especialmente para quem vive, três vezes por semana, durante quatro a seis horas, este tratamento na primeira pessoa, os números contam apenas uma parte da história. É importante e premente, portanto, dar voz aos doentes que a APIR representa e esclarecer, com clareza, que o corte na despesa em saúde no Orçamento do Estado não espelha o contexto, real e atual, dos doentes hemodialisados em Portugal, não tendo em consideração as desigualdades no acesso à inovação terapêutica.
O OE2026 prevê, nas entrelinhas, um sistema que assegura o básico, mas que não consegue dar o passo seguinte, trazer novas terapias, novas tecnologias, novos medicamentos que poderiam aliviar sintomas, reduzir complicações e, principalmente, dar mais qualidade de vida.
A despesa não mostra, sobretudo, a experiência humana da hemodiálise, caracterizada pelo cansaço crónico e pela dependência constante de máquinas e calendários de sessões, com impactos psicológicos, profissionais e familiares.
Neste contexto, o preço compreensivo, o valor que o Estado paga por cada tratamento em hemodiálise e que inclui praticamente todos os custos do tratamento, surge como a razão central para muitas destas limitações. Quando foi criado, este modelo trouxe simplicidade e estabilidade, porém, ao longo dos anos, o seu valor real foi aumentando, e o valor pago pelo Estado não acompanhou a inflação, o aumento dos custos das unidades, nem os avanços tecnológicos.
O resultado é, portanto, um sistema que assegura o tratamento vital, mas que não prevê uma margem para investir no futuro. Um sistema que garante o tratamento básico, mas que não garante a inovação necessária a uma maior qualidade de vida.
A inovação terapêutica existe e conta com técnicas de Hemodiálise mais eficazes, equipamentos mais modernos, medicamentos que melhoram sintomas como a anemia, o prurido, as complicações ósseas e cardiovasculares. Mas se o modelo de financiamento não é atualizado, as unidades não podem, nem conseguem, introduzir qualquer inovação sem comprometer a sua própria sustentabilidade. E quem perde, no fim, somos nós, os doentes.
O Estado tem o mérito de garantir o acesso a cuidados de hemodiálise, no entanto, é tempo de garantir mais do que o simples acesso. É tempo de dar qualidade, inovação e dignidade. É tempo de perceber que um modelo financeiro que não evolui, vai condenar os doentes, mais tarde ou mais cedo, a uma medicina do passado.
O Orçamento do Estado para 2026 ficou, assim, marcado por uma resposta manifestamente insuficiente no que diz respeito à hemodiálise, falhando em tratar esta realidade com a urgência e a dimensão humana que impõe. Impõe-se, por isso, a revisão do preço compreensivo, a integração efetiva da inovação terapêutica e tecnológica e a adoção de um modelo de financiamento que assegure a sustentabilidade das unidades sem comprometer a qualidade de vida dos doentes.
O Orçamento do Estado para 2026 perdeu a oportunidade de ser o momento em que, finalmente, o país decide colocar a vida e a dignidade dos doentes renais no centro das prioridades da saúde pública. Porque viver é ter tempo, conforto, esperança e, sobretudo, acesso a um sistema de saúde que permita viver plenamente.