Uma polémica épica. Christopher Nolan desafia os deuses e as redes socias com "A Odisseia" - finalmente nos cinemas

16 jul, 08:00
Matt Demon em "A Odisseia" (DR)
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Estreia esta quinta-feira "A Odisseia" de Christopher Nolan, a partir do poema de Homero, com Matt Damon no papel principal. Custou 250 milhões de dólares e quase não tem efeitos digitais. Mas tem Zendaya, Lupita Nyong'o, Elliot Page e até o rapper Travis Scott

Quem diria que um poema de 12 mil versos escrito há cerca de 2.800 anos ia ser o tema mais discutido no verão de 2026. "A Odisseia", realizado por Christopher Nolan, chega esta quinta-feira aos cinemas em todo o mundo, mas há meses que a polémica estalou nas redes sociais, com muitos a acusarem o filme de falta de rigor histórico - quer na escolha dos atores quer na reconstituição da vida na Grécia Antiga.

Desta vez, o cineasta por trás de sucessos de bilheteira como "Oppenheimer" (2023) e "Inception - A Origem" (2010) aventura-se numa das obras literárias mais antigas: "A Odisseia" de Homero. Com um elenco de estrelas que inclui Matt Damon como protagonista, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson e Lupita Nyong’o, o filme acompanha Ulisses na sua árdua viagem de regresso a Ítaca, após a guerra de Tróia.

"Ilíada", também de Homero, contava a história da batalha pela cidade de Tróia tendo como personagem principal Aquiles, filho de um mortal e de uma deusa. Em "A Odisseia" a história centra-se em Ulisses, herói da guerra de Tróia, que, depois de dez anos de ausência, acaba por dar à costa em Ítaca, a sua terra natal, para se reecontrar com a esposa, Penélope, e o filho, Telémaco, e resgatar o seu lugar em casa. Pelo meio, Ulisses partilha histórias de quando foi cativo de Calipso, das aventuras que viveu durante a fuga, do encontro com Ciclope e com toda a ira do deus do mar, Poseidon.

"A Odisseia é uma extraordinária obra-prima literária, mas, na sua época, o poema era também entretenimento popular, recitado em voz alta por virtuosos conhecidos como rapsodos. (Um destes rappers originais pode ou não ter-se chamado Homero.) O que mantinha os seus ouvintes fascinados era a variedade: este épico está repleto de comédia, pathos, aventura e suspense", explicou A.O. Scott num ensaio publicado há dias no The New York Times.

Matt Demon e Zendaya no filme "A Odisseia" (DR)

A famosa frase de Ulisses - "Ninguém pode ficar entre mim e o meu lar. Nem mesmo os deuses" - resume bem o espírito da obra. Tantos séculos depois, a história de Ulisses, o homem que renuncia à promessa de vida eterna com uma deusa para tentar reunir-se com a sua família, continua a tocar os corações de leitores e espectadores. 

Rodado nos EUA, Grécia, Marrocos, Itália, Escócia e Islândia, "A Odisseia" foi um projecto que Christopher Nolan manteve sob um manto de secretismo durante bastante tempo, e tem um orçamento de 250 milhões de dólares (cerca de 220 milhões de euros), o que faz do filme o mais caro de toda a carreira do realizador. Nolan quis fazer um filme "à antiga", com película (é o primeiro filme filmando inteiramente em IMAX 70mm, um formato de grande resolução) e quase sem efeitos digitais. Não houve fundos verdes, mas cenários naturais ou construídos. Em Marrocos, onde foi filmada a sequência de abertura, da guerra de Tróia, foram usados cerca de cinco mil figurantes.

As imprecisões históricas

Para começo de conversa: o filme baseia-se no texto épico escrito por Homero no século VIII ou VII a.C., na Grécia Antiga, e cuja ação se passa no século XII a.C.  - ou seja, há cerca de 3.000 anos. Homero não tinha conhecimento em primeira mão de como era a vida na Grécia 500 anos antes, portanto, é legítimo dizer que, à partida, nada garante a acuidade histórica do poema. Além disso, estamos perante uma história de aventuras que envolve deuses e outras criaturas mitológicas, como um ciclope de seis metros de altura. É uma obra de ficção que poderíamos incluir dentro da literatura fantástica.

Tentar encontrar rigor histórico num texto de fantasia é uma tarefa impossível.

Ainda assim, quando o primeiro trailer e as primeiras imagens de "A Odisseia" foram divulgados, muitos questionaram a precisão histórica das roupas e dos cenários usados. O visual espartano de Ulisses, com um capacete com plumas e uma capa vermelha, foi criticado tanto por ser impreciso para o período histórico como infiel ao material original. Na "Ilíada", Homero descreve o capacete de Ulisses como sendo feito de couro com filas de presas de javali. Também a armadura e o capacete pretos usados por Agamémnon (interpretado Benny Safdie), o rei de Micenas, foram comparados ao volumoso fato do Batman da trilogia "O Cavaleiro das Trevas", também realizado por Nolan.

Filme "A Odisseia", de Christopher Nolan (DR)

Em declarações à revista Time, Nolan explicou que o nosso conhecimento da Idade do Bronze vem de "registos arqueológicos muito fragmentários" e defendeu a armadura preta de Agamenon. "Existem punhais micénicos que são de bronze enegrecido", justificou. "A teoria é que provavelmente já se conseguia enegrecer o bronze naquela época." Disse ainda que a figurinista Ellen Mirojnick tentou "transmitir o quão superior ele é em relação a todos os outros. Isso consegue-se através de materiais que seriam muito caros".

Já em relação ao grande navio em que Ulisses e os seus homens navegam, que muitos disseram assemelhar-se a um navio viking, Nolan admitiu que utilizou um autêntico navio viking, da Noruega. "Precisávamos de algo com casco de madeira, construído com tecnologia antiga, que pudesse estar em mar aberto, em ondas gigantes, e o Draken já atravessou o Atlântico", disse Nolan ao Los Angeles Times. "Filmámos como se fosse um documentário. Os atores aprenderam a navegar e a remar, e os 26 homens da tripulação verdadeira vestiram-se como figurantes e aparecem no filme."

Filme "A Odisseia", de Christopher Nolan (DR)

Linguagem demasiado informal e moderna

O uso da palavra "dad" por Telémaco (Tom Holland) para se referir ao seu pai, Ulisses, tem sido alvo de crítica por ser considerado demasiado informal e moderno para uma adaptação de um épico grego antigo.

Christopher Nolan, que é também o argumentista de "Odisseia", explicou que estava mais preocupado em utilizar "uma linguagem que tivesse um significado emocional, e não intelectual, para as pessoas". "Talvez tenha sido ingénuo", admitiu o cineasta, "pode vir a sair-me caro, mas queria uma narrativa mais coloquial. Para mim, foi uma escolha óbvia."

Quando questionado sobre o uso de linguagem moderna no filme e, em particular, sobre a palavra "dad", Holland comentou: "Eu nem sequer teria dito “dad” naquela época, pois não? Teria falado em grego".

A escolha dos atores

A reação negativa ao elenco de "A Odisseia" ganhou força nas redes sociais desde que os nomes foam anunciados: em papéis principais e secundários, encontramos, por exemplo, Zendaya, Elliot Page, Himesh Patel, Corey Hawkins, o rapper Travis Scott (no papel de bardo) e Lupita Nyong’o, que interpreta Helena de Tróia e a sua irmã, Clitemnestra.

A escolha de Page para o papel de um soldado e de Nyong’o para o de Helena, cujo rapto desencadeia a guerra de Tróia, foram as mais polémicas. Ser uma atriz negra a interpretar Helena de Tróia chocou as mentalidades mais conservadoras. "Ninguém neste planeta pensa realmente que Lupita Nyong’o é 'a mulher mais bonita do mundo'", escreveu o influencer Matt Walsh, em maio. "Mas Christopher Nolan sabe que seria considerado racista se atribuísse o papel de 'a mulher mais bonita' a uma mulher branca", criticou. O magnata Elon Musk, que tem sido uma das vozes mais ativas na campanha contra esta "Odisseia", concordou, dizendo, entre outras coisas, que Nolan é um "racista anti-brancos" que está a "mijar no túmulo de Homero".

(pequeno parêntesis só para explicar que, na mitologia grega, Helena era filha do deus Zeus e da rainha Leda, esposa do rei de Esparta, portanto, tal como a maioria das outras personagens de "Odisseia", não é uma figura histórica real, embora esse não seja de todo o ponto relevante nesta discussão.)

Anne Hathaway e Tom Holland no filme "A Odisseia" (DR)

"O nosso elenco é representativo do mundo. Não vou perder tempo a pensar numa defesa. As críticas vão existir, quer eu lhes dê atenção ou não", reagiu Nyong'o à revista Elle.

O cineasta também desvalorizou as críticas. "Quando comecei a trabalhar em 'Batman - O Início', muitos escritores e artistas já tinham trabalhado com esta personagem tão querida durante quase 65 anos, e havia muitas ideias preconcebidas sobre o que ele representa. E o que aprendi ao longo dessa trilogia é que não nos podemos preocupar com nada disso", disse Nolan.

"Helena de Tróia está novamente a provocar guerras. Mas, desta vez, a rainha mitológica de beleza lendária e de origem semidivina, cuja fuga adúltera com o príncipe troiano Páris desencadeou a guerra de Tróia, que durou 10 anos, deu origem a mil tweets", escreve o classicista Daniel Mendelsohn, que publicou a sua própria tradução de "A Odisseia" e defendeu Nolan num ensaio recente no The New York Times, afirmando que o cineasta "está a utilizar Helena tal como os autores gregos o fizeram: para provocar, desafiar e perturbar a forma como pensamos sobre a beleza e a identidade, sobre quem somos e como nos relacionamos com o nosso mundo".

"Vale a pena referir que, na verdade, não fazemos ideia de como era Helena. Homero limita as suas descrições a banalidades genéricas - "parecia-se imenso com os deuses imortais" -, enquanto os dois atributos visuais que lhe atribui, "de cabelos belos" e "de braços brancos", são convencionais e também se aplicam a outras personagens femininas. Ela também é descrita como "capaz de provocar arrepios"; tentem encontrar alguém para interpretar isso", desafia Mendelsohn.

Christopher Nolan na rodagem de "A Odisseia" (DR)

"A Odisseia" já foi adaptada para o ecrã de inúmeras formas, desde o filme mudo de 1911 até ao musical satírico dos Irmãos Coen "Irmão, onde estás?", passando por um episódio dos "Simpsons". A verdade é que no que toca a imprecisões históricas esta "Odisseia" de 2026 não será muito pior do que o filme de 1954, protagonizado por Douglas Sirk, a mais famosa versão cinematográfica do poema, ou de qualquer outro filme dito "histórico" sobre qualquer outra época - seja o "Gladiador" na Roma Antiga ou o "Maria, Rainha dos Escoceses" no período isabelino.

"Tudo o que posso fazer é realizar o melhor filme possível da forma mais sincera", defendeu-se Christopher Nolan. "É muito diferente da forma como qualquer outra pessoa o faria, mas é isso que é uma adaptação." No fim de contas, trata-se de uma obra artística produzida a partir de uma outra obra artística. Pode-se gostar ou não do produto final, mas não se pode "cancelar" a liberdade criativa dos artistas.

"Valeu a pena"

Esta semana começaram a ser publicadas as primeiras críticas - escritas por pessoas que realmente viram o filme de três horas e não apenas o trailer - e, como é habitual, as opiniões são muito diversas. Alguns críticos dizem este poderá ser o maior falhanço de Nolan, outros ficaram deliciados com a monumentalidade do filme. Peter Bradshaw, do The Guardian, que dá a nota máxima, cinco estrelas, a "Odisseia, diz que Nolan reinventa a lenda de Homero transformando-a numa obra sobre o trauma pós-guerra vivido pelos soldados. A editora-geral da IndieWire, Anne Thompson, não hesita em dizer que "A Odisseia" é o principal candidato ao Óscar de Melhor Filme e acrescenta que Matt Damon "pode ganhar o prémio de Melhor Ator". "As minhas elevadas expectativas foram satisfeitas", disse.

Matt Damon afirmou em várias entrevistas que esta foi a experiência mais gratificante da sua carreira. O ator, de 55 anos, contou à revista People que a rodagem se assemelhou mais a "uma expedição do que a um filme" e que o elenco e a equipa estavam "expostos às intempéries, quer estivéssemos com frio, desconfortáveis ou a apanhar chuva": "Este filme foi, de longe, o mais difícil e o mais desafiante em que já participei".

Damon levou a família à ante-estreia e, no final, uma das suas filhas - ele tem quatro - virou-se para ele disse-lhe: "Pai, estou orgulhosa de ti", contou Damon. "Ela nunca tinha dito nada assim, e, naquele momento, pensei: Estou bem. Valeu a pena."

Filme "A Odisseia" de Christopher Nolan (DR)

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