Contributo de Portugal passa por garantir que Atlântico “continua a ser um lago da NATO”

Agência Lusa , PP
25 jun, 09:33
Almirante Henrique Gouveia e Melo

O chefe do Estado-Maior da Armada, o almirante Gouveia e Melo, recusa uma Marinha “fechada e autofágica” realçando o seu papel como “catalisadora da economia”

O chefe do Estado-Maior da Armada recusa uma Marinha “fechada e autofágica” realçando o seu papel como “catalisadora da economia” e destacando que na nova Lei de Programação Militar 70% do investimento do ramo terá aplicação na indústria nacional.

“A minha visão é precisamente não ter uma Marinha fechada e autofágica, que se preocupa com as suas coisinhas pequenas. Mas uma Marinha aberta, aberta à sociedade de forma a que seja um catalisador de diferentes fatores dessa própria sociedade”, afirmou o almirante Gouveia e Melo.

Em entrevista à agência Lusa, a propósito da Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre os oceanos, que se realiza em Lisboa, entre 27 de junho e 01 de julho, o almirante adiantou que na nova Lei de Programação Militar – cuja revisão teve início este ano – “todo o investimento dos próximos 20 anos da Marinha, cerca de 70% é para aplicação na indústria nacional”.

“Somos o ramo, de longe, que está mais virado para a indústria nacional, ou seja, nós queremos puxar pela nossa indústria nacional disponibilizando 70% de todo o investimento que vamos fazer nessa indústria, coisa que não acontecia no passado, era o inverso: apostávamos 20 ou 30% na indústria nacional e íamos adquirir 80 a 70% na indústria internacional”, apontou.

Na opinião de Gouveia e Melo, “a Marinha não é só um ramo das Forças Armadas, face à importância que o mar tem para a economia, é também um catalisador da economia e um catalisador da cultura marítima”.

Questionado sobre que expectativas tem quanto aos resultados práticos da Conferência da ONU sobre os oceanos - que trará a Lisboa chefes de Estado e delegações de vários países, incluindo da Rússia - Gouveia e Melo reconheceu que muitas vezes este tipo de reuniões gera muita atenção mediática mas depois “há quase um esvaziamento”, no entanto, acredita que “pode ser uma oportunidade para começar a fazer coisas de forma concreta”.

“É relevante que esta reunião se realize em Portugal, porque mostra que Portugal é um país virado para os oceanos e, portanto, uma potência marítima, a história de Portugal assim o indica”, sublinhou.

Na opinião do chefe militar da Armada “o mar é neste momento na retórica nacional um assunto que está em cima da mesa” mas há que “passar das palavras aos atos”.

“Um exemplo muito concreto é que está a ser criada uma Zona Livre Tecnológica em Tróia [Setúbal] sediada numa base da Marinha em que se vão fazer a partir dessa base todo o tipo de experiências relacionadas com o mar, quer sejam civis, quer sejam militares, usando tecnologias de duplo uso”, salientou.

Gouveia e Melo adiantou que esse centro já é “um acelerador tecnológico e experimental da própria NATO”, o que vai “atrair indústria, a academia, e é o primeiro passo, muito concreto, em que a Marinha, mais uma vez, de forma holística está a servir como um catalisador”.

“Nós virámo-nos de costas para o mar desde que entrámos para a Europa e temos que perceber que o nosso valor na Europa cresce quanto mais nós nos viramos para o mar e não quanto mais de costas estamos para o mar, porque senão somos uma província de um país maior ou de uma unidade maior e não temos nenhuma independência”, vincou.

Outro dos investimentos que será levado a cabo pela Marinha e pelo Governo através das verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) é uma plataforma naval cuja despesa - 94,5 milhões de euros - foi autorizada pelo executivo em maio.

“É um porta ‘drones’ de superfície e de ‘drones’ de subsuperfície, ou seja, debaixo de água. Pela primeira vez vamos ter uma plataforma que atua em todos os domínios. Também tem capacidade para proporcionar o desembarque e o auxílio a populações em terra”, especificou.

Consoante a função a desempenhar, podem ser colocadas nesta plataforma equipas especializadas para determinados períodos de tempo em missões específicas.

“Pode ser operada por 60 a 80 homens no máximo mas depois pode ir até 300 ou 400 homens embarcando, por exemplo, equipas de resgate, indo buscar pessoas ou equipas multidisciplinares de cientistas. Imagine o que é, eu quero mapear o fundo do mar e meto um navio grande, que é esta plataforma, a fazer fileiras para trás e para a frente, curtas, com uma data de gente para tentar mapear o mar durante meses seguidos. Se calhar é mais fácil a plataforma ir a um determinado sítio e largar 20 ‘drones’ que fazem essa fileiras 20 vezes mais rápido”, acrescentou.

Para além disto, realçou, “é um navio que pela sua tecnologia vai exigir e obrigar a que o tecido nacional encontre soluções da fileira tecnológica que mais tarde permitirão à indústria portuguesa e academia estar em projetos de elevado valor no mar”.

A Conferência das Nações Unidas sobre os oceanos vai realizar-se em Lisboa, com o apoio dos governos de Portugal e do Quénia, e contará com a presença de chefes de Estado e de governo de todos os continentes.

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