A investigadora Sylvia Earle dedica-se há mais de sete décadas à exploração e defesa dos meios marinhos, desde a catalogação de plantas aquáticas ao pioneirismo no estudo das profundezas do mar
Sylvia Earle acumula distinções: oceanógrafa, bióloga marinha e "Sua Profundeza", entre tantas outras. Mas a designação mais genuína é talvez a de "Irmã do Oceano", alcunha atribuída pelo amigo e aliado na conservação marinha Titouan Bernicot.
Aos 90 anos, a investigadora dedica-se há mais de sete décadas à exploração e defesa dos meios marinhos, desde a catalogação de plantas aquáticas ao pioneirismo no estudo das profundezas do mar.
Pioneira no seu campo de estudo, estabeleceu em 1979 o recorde para a caminhada mais profunda no leito marinho com um fato de mergulho autónomo. Em 1990, tornou-se a primeira mulher a assumir o cargo de cientista-chefe da NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos).
Em 2009, fundou a organização sem fins lucrativos Mission Blue, vocacionada para a proteção dos oceanos através da criação dos Hope Spots — áreas marinhas reconhecidas pela relevância ecológica e promovidas por comunidades locais — e da capacitação ambiental pela via da educação.
Essa visão inspirou a nova geração de ativistas, onde se inclui Bernicot. Após testemunhar a degradação do recife junto à sua terra natal, em Mo'orea, na Polinésia Francesa, o jovem transformou a restauração dos recifes de coral do planeta na sua missão de vida.
Fundou a Coral Gardeners em 2017. O projeto, que começou como uma iniciativa local de plantação de corais, evoluiu para um movimento internacional. Atualmente, a organização contabiliza mais de 221 mil corais plantados em 25.100 metros quadrados de recife e ambiciona marcar presença em dez países até 2030.
Em março, os dois embaixadores da Rolex mergulharam juntos na Tailândia. Naquele local, a mais recente base da Coral Gardeners desenvolve trabalhos de recuperação dos recifes branqueados em redor das ilhas remotas de Koh Mak e Koh Kood, zona que a oceanógrafa considera ter potencial para integrar a rede de Hope Spots.
A dupla reuniu-se recentemente com a CNN no novo Museu da Exploração da National Geographic para debater o estado dos oceanos, o papel da tecnologia na recuperação dos ecossistemas e a importância estratégica da preservação marinha para a vida no planeta.
Eis as cinco abordagens apontadas pelos peritos para inverter a tendência atual e revitalizar os ecossistemas marinhos.
1. Transformar contratempos em oportunidades
Perante as previsões científicas que apontam para um fenómeno El Niño de grande intensidade este ano, com capacidade para elevar significativamente as temperaturas dos oceanos e fustigar os recifes, Bernicot reconhece apreensão quanto ao futuro.
No entanto, em vez de assumir uma postura passiva diante do cenário adverso, a Coral Gardeners aproveita o contexto para testar estratégias de adaptação climática. Ao cultivar espécies de corais com maior tolerância ao calor, o ambientalista perspetiva criar recifes mais resistentes e aperfeiçoar os métodos de restauração a nível global.
"Em certo sentido, trata-se de uma oportunidade para aperfeiçoar a metodologia científica, e creio que é o único caminho possível", sublinhou perante a oceanógrafa.
2. Apoiar o envolvimento comunitário
A Mission Blue e a Coral Gardeners partilham a premissa de que a conservação duradoura depende de quem melhor conhece cada ecossistema.
Quando a oceanógrafa criou a Mission Blue, o propósito passava por motivar a proteção dos territórios locais. Atualmente, a rede integra mais de 170 Hope Spots em 116 países, dinamizada por cientistas, ambientalistas e líderes comunitários na linha da frente da proteção marinha.
"Estes dinamizadores procuram intervir onde é necessário recuperar a saúde do ecossistema ou identificar zonas preservadas para assegurar a sua proteção integral", explicou a especialista.
Bernicot reforça a necessidade de alinhar o conhecimento local com a resolução de um problema global. À medida que a Coral Gardeners expande operações a países como as Fiji e a Tailândia, recruta e dá formação a habitantes locais para gerir os viveiros e conduzir a plantação dos corais.
3. Criar oportunidades de participação ativa
Nas primeiras iniciativas de plantação, as autoridades locais recusaram conceder licenças a Bernicot. A ausência de autorização não demoveu o ativista: "Disse-lhes para me prenderem se quisessem. Era apenas um jovem a tentar salvar o que amava", recordou.
Por essa razão, o telefonema surpresa do presidente da Polinésia Francesa, Moetai Brotherson, gerou apreensão inicial. Contudo, o chefe de Estado acabou por elogiar a determinação do jovem e anunciou o reconhecimento oficial da profissão de jardineiro de corais, dotada de enquadramento legal, academia de formação e certificação própria.
O responsável da Coral Gardeners projeta já novas formas de envolvimento público: "Nos últimos nove anos, as pessoas limitaram-se a observar a recuperação dos recifes. Nos próximos nove anos, a população vai participar diretamente. Qualquer pessoa pode ser jardineira do oceano".
A meta passa pelo desenvolvimento de kits de intervenção rápida destinados a recifes em risco em qualquer ponto do globo.
"Imagine se, através de uma colaboração global entre os Hope Spots e a Coral Gardeners, conseguíssemos incutir esta preocupação, tornando apelativo e natural o ato de cuidar dos oceanos e gerando postos de trabalho associados à conservação", referiu a cientista norte-americana.
4. Rentabilizar os recursos tecnológicos
A restauração de recifes ultrapassou a fase em que dependia exclusivamente do trabalho manual de mergulhadores. A Coral Gardeners reuniu engenheiros provenientes de empresas como a Tesla e a SpaceX com investigadores de instituições como Berkeley, MIT e Stanford, com o intuito de desenvolver ferramentas que tornem o processo mais rápido, preciso e de grande escala.
A utilização de inteligência artificial para monitorizar a saúde dos recifes e rastrear populações de peixes, aliada ao desenvolvimento de corais resistentes às alterações climáticas, posiciona o laboratório de inovação e investigação da organização no centro do progresso científico nesta matéria.
Apenas 13 meses após a replantação de dezenas de milhares de "supercorais" resistentes ao calor em Mo'orea, a equipa registou o dobro da população piscícola na zona intervencionada.
A investigadora sénior também tem tido um papel ativo no desenvolvimento tecnológico, colaborando no projeto de submersíveis avançados e tecnologias subaquáticas que alargam o acesso científico aos fundos marinhos.
"Estas ferramentas abrem uma nova perspetiva sobre o planeta que podemos partilhar com o mundo, inspirando os mais jovens e a sociedade a valorizar este pequeno ponto azul no universo, que é a nossa única casa", salientou a especialista.
5. Proteger a totalidade do ecossistema
A preservação dos recifes estende-se muito para lá do coral. A presença de peixes, algas, ervas marinhas e mangais desempenha um papel determinante no equilíbrio do habitat.
O dinamizador da Coral Gardeners reconhece que esta perspetiva transformou a sua abordagem de trabalho: "O nosso objetivo não passa por restaurar corais isoladamente, mas sim por recuperar todo o ecossistema".
Os habitats marinhos não funcionam de forma isolada, alerta a oceanógrafa: "A ligação entre os recifes de coral e a Antártida ou o Ártico mostra que tudo está interligado. Proteger um habitat significa, em última análise, proteger todo o sistema".
A Polinésia Francesa adotou esta abordagem sistémica, posicionando-se na vanguarda da conservação marinha ao garantir proteção legal a mais de 30% das suas águas territoriais. Em junho, o território anunciou a criação de duas novas Áreas Marinhas Protegidas com uma extensão equivalente à superfície de França.
Esperança para os oceanos
Embora reconheçam a gravidade dos desafios que os oceanos enfrentam, os dois especialistas destacam a sensibilização como fator determinante para a mudança. "As pessoas ainda não compreenderam a importância vital dos oceanos", observou a cientista. "Trata-se de um meio vasto e distante; enquanto não perceberem que depende dele a nossa sobrevivência, é difícil gerar compromisso".
"A natureza funciona como um sistema de suporte de vida, maioritariamente concentrado no oceano, onde se encontram 97% da água do planeta. Sem água não há vida. Sem azul não há verde", frisou.
"O combate passa pela proteção dos recifes, das baleias e dos mares", concluiu a investigadora. "No fundo, trata-se de assegurar a nossa própria sobrevivência."
