De "tubarões-fantasma" a esponjas "da morte": cientistas descobrem mais de 1.100 espécies marinhas invulgares

CNN , Laura Paddison
2 ago, 12:00
investigação descobre novas espécies marinhas
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O número representa um aumento de 54% nas identificações anuais. Entre elas, está um verme que vive dentro de um "castelo de vidro".

Nas profundezas do oceano vive um verme que fez a sua casa dentro de um "castelo de vidro", um misterioso "tubarão-fantasma" e uma esponja carnívora conhecida como "bola da morte".

Estas são apenas três das 1121 espécies "até agora desconhecidas" descobertas nos oceanos de todo o mundo ao longo do último ano, anunciou esta terça-feira o Ocean Census, um esforço global para cartografar a vida marinha que envolve mais de mil investigadores de 85 países.

O número representa um aumento de 54% nas identificações anuais, segundo a organização, criada há três anos e liderada pela Fundação Nippon, do Japão, e pela Nekton, um instituto britânico de exploração oceânica.

O oceano é um dos ecossistemas menos conhecidos do planeta, sobretudo nas zonas mais profundas. Durante muito tempo, presumiu-se que poucas formas de vida conseguiriam prosperar em ambientes tão extremos, mas, nos últimos anos, os cientistas descobriram ecossistemas repletos de espécies invulgares — e, por vezes, absolutamente bizarras.

A vida subaquática enfrenta enormes desafios provocados pelas alterações climáticas, à medida que os oceanos aquecem, e pelas atividades humanas, incluindo a poluição causada pela indústria e pela agricultura. A corrida à exploração mineira dos minerais existentes no fundo do mar, que parece estar cada vez mais próxima de se tornar uma realidade, representa outro risco significativo.

"Com muitas espécies em risco de desaparecerem antes sequer de serem documentadas, estamos numa corrida contra o tempo para compreender e proteger a vida oceânica", afirmou Michelle Taylor, responsável científica do Ocean Census.

Uma pena-do-mar descoberta nas ilhas Sandwich do Sul, no Atlântico Sul. Este exemplar está a ser submetido a análises genéticas para confirmar a sua linhagem evolutiva exata. Paul Satchell/The Nippon Foundation-Nekton Ocean Census/Schmidt Ocean Institute

Ao longo do último ano, os cientistas do Ocean Census realizaram 13 expedições a algumas das zonas oceânicas menos exploradas do mundo.

Ao largo da costa do Japão, a cerca de 790 metros abaixo da superfície do oceano, descobriram uma nova espécie de verme poliqueta com cerdas que vive dentro de uma esponja-de-vidro. Esta possui um esqueleto translúcido semelhante a uma malha — conhecido como "castelo de vidro" — formado por sílica, o principal componente do vidro.

A esponja e o verme mantêm uma relação simbiótica, o que significa que ambos beneficiam da presença um do outro. O verme encontra proteção ao fazer a sua casa no castelo de vidro, uma estrutura estável e rica em nutrientes. Em troca, remove da superfície da esponja detritos que poderiam danificá-la.

A quimera conhecida como "tubarão-fantasma", encontrada no Parque Marinho do Mar de Coral, na Austrália. The Nippon Foundation-Nekton Ocean Census/CSIRO

Na Austrália, os cientistas encontraram uma espécie de quimera conhecida como "tubarão-fantasma", a cerca de 820 metros de profundidade. Estes peixes são parentes distantes dos tubarões e das raias, tendo-se separado evolutivamente dessas espécies há quase 400 milhões de anos.

Em Timor-Leste, os cientistas encontraram uma espécie de verme-fita com cerca de 2,5 centímetros de comprimento e riscas cor de laranja vivo, um sinal das suas potentes defesas químicas. As toxinas produzidas por estes vermes têm sido estudadas como possíveis tratamentos para a doença de Alzheimer e para a esquizofrenia.

O verme-fita encontrado em Timor-Leste. The Nippon Foundation-Nekton Ocean Census/Gustav Paulay

Na Fossa Norte das ilhas Sandwich do Sul, um conjunto de ilhas desabitadas no Atlântico Sul, os cientistas encontraram uma esponja carnívora conhecida como "bola da morte", a uma profundidade de quase 3660 metros.

Esta espécie está coberta por ganchos microscópicos semelhantes ao velcro, que prendem os crustáceos transportados pelas correntes oceânicas. A esponja envolve-os depois e ingere-os.

A esponja carnívora conhecida como "bola da morte". ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute

Determinar se todas estas espécies são completamente novas para a ciência poderá demorar algum tempo. Em média, passam 13,5 anos entre a descoberta de uma espécie e a sua descrição formal na literatura científica, indicou o Ocean Census num comunicado.

Para acelerar o processo, o Ocean Census passou a reconhecer a categoria de "descoberta" como um estatuto científico que pode ser imediatamente registado na sua base de dados de espécies marinhas. Assim que um especialista valida uma descoberta, esta pode ser introduzida numa plataforma de acesso livre, explicou um porta-voz do Ocean Census.

"Isto torna a espécie imediatamente visível para a comunidade científica e para os decisores políticos", acrescentou.

Tammy Horton, investigadora do Centro Nacional de Oceanografia do Reino Unido, explicou que, por vezes, uma espécie inicialmente considerada nova para a ciência acaba por revelar-se já conhecida depois de uma análise detalhada.

"No entanto, não creio que isso seja muito frequente", afirmou.

O processo de descrição formal é importante. Este "realiza o trabalho necessário para confirmar a novidade e fornece o 'passaporte' dessa nova espécie — o seu registo oficial", explicou à CNN.

"Sem esse nome formalmente reconhecido, a espécie, na prática, não existe para a ciência e, consequentemente, também não existe para as políticas públicas — as espécies sem nome não podem ser protegidas."

Uma raia do Mar de Coral descoberta durante uma expedição realizada em 2025 no Parque Marinho do Mar de Coral, na Austrália. The Nippon Foundation-Nekton Ocean Census/CSIRO

"O importante é que os cientistas continuam, todos os anos, a fazer numerosas e interessantes descobertas de espécies novas para a ciência, em todos os oceanos do mundo e a todas as profundidades", acrescentou Horton.

O Ocean Census pretende que estas descobertas impulsionem medidas para proteger a vida marinha — que tem um enorme valor ecológico, científico e económico — e está a pedir mais investimento nos esforços para encontrar novas espécies.

"Gastamos milhares de milhões à procura de vida em Marte ou a explorar o lado oculto da Lua", afirmou Oliver Steeds, diretor do Ocean Census.

"Descobrir a maioria das formas de vida existentes no nosso próprio planeta — no nosso próprio oceano — custa apenas uma fração desse valor. A questão não é saber se podemos dar-nos ao luxo de fazer isto. É saber se podemos dar-nos ao luxo de não o fazer."

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