Há 51 obras raras de arte ucraniana que escaparam às bombas em Kiev e vão ser expostas em Madrid

Agência Lusa , CE
24 nov, 13:57
Museu Nacional Thyssen-Bornemisza (Facebook)

“No olho do furacão. Vanguarda na Ucrânia, 1900-1930” é o título desta mostra que ficará até 30 de abril de 2023 no Museu Nacional Thyssen-Bornemisza

Uma seleção de 51 obras raras do modernismo ucraniano escapou ao início da recente onda de bombardeamentos russos em Kiev, na Ucrânia, ao serem transportadas para Madrid, Espanha, onde vão ficar expostas a partir de 29 de novembro.

“No olho do furacão. Vanguarda na Ucrânia, 1900-1930” é o título desta mostra que ficará até 30 de abril de 2023 no Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, com um total de 70 obras, segundo informação da organização espanhola, enviada à agência Lusa.

Por seu lado, o diário britânico “The Guardian”, revela, na edição online, que 51 obras de arte raras foram transportadas secretamente em dois camiões a partir da capital da Ucrânia, horas antes de começarem os bombardeamentos de mísseis russos em várias cidades do país alvo da invasão, incluindo Kiev.

O propósito é apresentar uma visão completa da arte ucraniana das vanguardas das primeiras décadas do século XX, com as diferentes tendências artísticas, desde a arte figurativa ao futurismo e o construtivismo, segundo informação do museu.

A exposição, organizada cronologicamente, inclui obras dos principais mestres da vanguarda ucraniana, como Oleksandr Bohomazov, Vasyl Yermilov, Viktor Palmov e Anatol Petrytskyi.

A missão de atravessar o país com as peças, passando a fronteira com a Polónia e mais 3.000 quilómetros através da Europa até Madrid, para serem expostas, foi considerada extremamente perigosa, mesmo em contexto de guerra, refere o jornal The Guardian, devido à destruição de várias infraestruturas, incluindo o fornecimento de eletricidade.

Por seu turno, o Museu Nacional Thyssen-Bornemisza indica que a exposição reunirá peças de pintura, desenhos, colagens e cenários de teatro, para divulgar “um capítulo essencial, mas menos conhecido da arte de vanguarda ocidental”.

O The Guardian cita a colecionadora de arte Francesca Thyssen-Bornemisza, indicando que os camiões que levaram as obras de arte “fizeram-no em total secretismo para proteger o maior e mais importante transporte de património cultural ucraniano que deixou o país desde o início da guerra”, em fevereiro deste ano.

Este projeto teve o apoio do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e do ministro da Cultura, Oleksandr Tkachenko, sublinha o museu.

O desenvolvimento das vanguardas na Ucrânia aconteceu num contexto sócio-político complexo: colapsaram impérios, decorreu a I Guerra Mundial e as revoluções de 1917, seguindo-se a Guerra da Independência (1917-1921), e a posterior criação da Ucrânia soviética.

A repressão estalinista contra os intelectuais ucranianos levou ao homicídio de dezenas de escritores, artistas e diretores de teatro, sobretudo por execução sumária, enquanto a fome matou milhões de cidadãos do país, entre 1932 e 1933, recorda a organização da exposição, em Madrid.

“Apesar deste trágico contexto histórico, a arte ucraniana viveu nesses anos um verdadeiro renascimento e um período de experimentação artística”, que a mostra pretende recuperar.

O museu irá acolher um amplo percurso artístico, desde as pinturas neobizantinas dos seguidores de Mykhailo Boichuk e das obras experimentais dos membros da Kultur Lige, que tentaram promover a sua visão da arte contemporânea ucraniana e iídiche, até às peças de Kazymyr Malevych e El Lissitzky, artistas por excelência da vanguarda internacional que trabalharam na Ucrânia e deixaram uma marca significativa no desenvolvimento da cena artística daquele país e no Modernismo europeu.

Também estarão representados artistas que se tornaram figuras de renome internacional, depois de terem nascido e começado a trabalhar na Ucrânia, como Alexandra Exter, Wladimir Baranoff-Rossiné e Sonia Delaunay, que viveu alguns anos em Portugal, convivendo com artistas como Amadeo de Sousa Cardoso e Almada Negreiros.

O Museu Thyssen-Bornemisza assegura, na informação, que esta é a exposição mais completa já realizada da arte ucraniana de vanguarda, contando com empréstimos de instituições como o Museu Nacional e do Museu do Teatro, da Música e do Cinema da Ucrânia, com os quais diz querer “celebrar o dinamismo e diversidade da cena artística ucraniana, enquanto salvaguarda o património do país durante a atual intolerável ocupação do seu território por parte da Rússia”.

Indica ainda que, depois de Madrid, a exposição – que também inclui obras cedidas por colecionadores privados e tem como comissários Konstantin Akinsha, Katia Denysova e Olena Kashuba-Volvach - irá a seguir para o Museu Ludwig, em Colónia, na Alemanha.

“Trazer estas peças com segurança não decorreu sem riscos, mas a prioridade de o fazer prevaleceu, porque os militares russos demonstraram um contínuo desrespeito pela convenção internacional de Haia”, disse ainda ao jornal britânico Francesca Thyssen-Bornemisza.

A colecionadora e mecenas cultural acrescentou que “as tropas russas têm instigado o roubo massivo em todos os territórios ocupados na Ucrânia, onde foram destruídos mais de 500 edifícios e monumentos do património cultural”.

“Esta exposição vai ser uma poderosa lembrança de que a História se repete e que estamos muito perto de um novo desastre”, alertou, comentando que a Rússia “não pretende apenas roubar território, mas também controlar a narrativa do património cultural ucraniano”.

A exposição vai abrir com uma mensagem de vídeo do presidente Volodymyr Zelenskiy, e está previsto um simpósio sobre o papel da solidariedade cultural em tempos de crises, ainda segundo o The Guardian.

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