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“Ouvi dizer que és de direita. Endoideceste?”: Sebastião Bugalho escreve o obituário de José Manuel Galvão Teles (1938-2023)

3 mar 2023, 00:11
José Manuel Galvão Teles

Conheceram-se devido a uma bengalada acidental. Aproximaram-se pelo humor. José Manuel Galvão Teles morreu e Sebastião Bugalho faz-lhe a elegia

UMA VIDA EM HISTÓRIAS
José Manuel Galvão Teles (1938-2023)

Num edifício em que os elevadores não têm botões e as portas estão sempre guardadas, foi com surpresa que, entre as paredes forradas a mogno, as janelas panorâmicas e o chão de mármore escuro, senti uma pancada na perna direita, entre a ida à cafeteira e o regresso à secretária.

Ao meu lado estava um homem curvado pela idade mas não menos elegante por isso, de barba e cabelo alvos e ralos, que acabara de me acertar inadvertidamente com a sua bengala. Era José Manuel Galvão Teles, fundador do regime democrático e do escritório ali sediado, com a camisa aberta até ao segundo botão e um notável blazer de padrão em espinha.

Foi o acaso que me fez conhecer José Manuel Galvão Teles ‒ nascido em 1938, desaparecido esta quinta-feira ‒ e um acaso que não mais esqueci ou parei de agradecer às pessoas e circunstâncias que me levaram àquele corredor. Havia obras de remodelação no piso a que estava originalmente destinado. Sem elas, entre outras coincidências, provavelmente nunca nos teríamos cruzado. E este texto não existiria.

“És alto, chega lá aqui”, e eu, que não o conhecia mas sabia perfeitamente de quem se tratava, segui prontamente atrás dele. O gabinete, num último andar da rua Castilho virado para os jardins do parque Eduardo VII, tinha uma vista esmagadora. As estantes iam do chão ao teto. O telefone e o computador sobressaíam, algo deslocados entre o design moderno da mobília e a ancestralidade dos volumes em livro. “Vê lá se apanhas aquele ali.” E eu, esticadinho, mal engravatado e em mangas de camisa, meti-me em bicos de pés até à última prateleira e entreguei-lhe uma pasta em papel esbatido, com a etiqueta identificada a tinta permanente. “Senta-te.” E eu sentei-me, na alcatifa.

“Vou ensinar-te a escrever uma carta”, anunciou, e de seguida recitou a missiva, de que o próprio era autor, para um dos seus primeiros clientes como advogado, na década de 60. O assunto era, à primeira vista, corriqueiro. A linguagem, todavia, era mais do que jurídica. Havia uma frontalidade no texto, como se as leis fossem punhos e o argumento uma quase proclamação.

“O que achaste, diz lá.” Desfiz o tabu e contei-lhe que nem jurista era. “Só estou aqui por causa das obras, doutor.” Ele estranhou, pousou o ficheiro e encarou-me com um ar grave. “Sabes porque é que quem nasce rico não sabe nada?” E eu, ali no topo do mundo, sem esperar tamanho progressismo, respondi que não. “Porque nunca tiveram de saber”, riu, em meio-segundo. “Agora vai trabalhar.”

Daí em diante, até à tal empreitada estar concluída, chamava-me para fazer usufruto do meu metro e oitenta e quatro na busca de um livro mais inalcançável e, menos vezes, para ocasional companhia antes de almoço.

O filho, hoje sócio-gerente da sociedade de advocacia Morais Leitão e associados, surgia habitualmente pela porta encostada com uma provocação cúmplice para o pai ‒ “então, senhor Teles, que faz hoje?” ‒ e cortava o corredor como uma flecha, rumo a tudo o que um dos maiores escritórios do país faz, e sobre o qual nunca realmente me inteirei.

De direita? Endoideceste?

José Manuel Galvão Teles, pelo que apreendi ao longo desses meses, era em primeiro lugar um advogado ‒ mas também muito mais do que isso. Membro do MES a seguir ao 25 de Abril e fundador do grupo de Intervenção Socialista, o seu percurso como homem público é praticamente inseparável do Presidente Jorge Sampaio, de quem seria conselheiro de Estado e com quem aderiu ao PS em 1978, a convite de Mário Soares, então primeiro-ministro coligado com o CDS e ávido de manter equilíbrios e pontes mais à esquerda.

Para Seixas da Costa, que o conheceu bem e com quem partilhou uma tertúlia até aos anos da covid, não há dúvida de que Galvão Teles “era um moderado”, preservando relações pessoais independentemente de quaisquer afastamentos políticos. “Como se diz no Brasil, tinha um trânsito fácil, era ótima companhia”, conta, lamentando a partida.

Antes disso, foi dirigente académico na Faculdade de Direito de Lisboa e parte ativa dos movimentos da Juventude Universitária Católica, presidindo ao Centro Nacional de Cultura no final dos anos sessenta, numa altura em que o CNC se insinuava cada vez mais como fonte de críticas ao regime. Numa entrevista de vida recente, resumiria: “Não tive coragem para ser um bom cristão. Tive coragem para ser um bom socialista”.

A mim, numa das várias reprimendas que lhe mereci, questionou-me: “Ouvi dizer que és de direita. Endoideceste?”.

Em 1974, na madrugada da Revolução dos Cravos, rumaria a Caxias com uma delegação de colegas que exigiam a libertação dos encarcerados pelo Estado Novo. Durante a ditadura defenderia presos políticos em tribunal, entre os quais o seu amigo Nuno Teotónio Pereira.

No tempo dos governos provisórios seria enviado especial a Angola e Moçambique, negociando as relações económicas a estabelecer com as ex-colónias, e embaixador de Portugal nas Nações Unidas. “Tentei mudar aquilo de alto a baixo e não me deixaram. Ainda hoje deviam mudar aquilo de alto a baixo. Falta coragem”, lamentaria, 44 anos mais tarde, a um miúdo de 23 anos.

O seu percurso internacional continuaria ligado ao multilateralismo e aos direitos humanos em particular, integrando a presidência do tribunal que julgou os crimes do apartheid na África do Sul.

Luís Castro Mendes, também socialista, também diplomata e também ligado à cultura, foi seu amigo mais de meio século. Ao telefone, pesaroso, constata: “Até ao fim nunca perdeu a graça, a rapidez”.

João Soares, que cresceu uma porta abaixo da sua, no Campo Grande, não esquece essa “proximidade geográfica” que atravessa hoje quatro gerações das duas famílias. “Houve uma afinidade crescente até à solidariedade total”, relata sobre a relação de Galvão Teles com Soares-pai.

Ideologicamente, descreve-o como “um católico progressista, com bom-senso, com a noção de que para distribuir riqueza se tem de gerar riqueza, mas sem desavenças com quem também sabia isso, mas preferia não o mostrar na altura”, aponta o histórico do PS. “Ele era um decisor. Decidia. Enquanto muitos só pensavam e conversavam, ele não tinha medo de decidir.”

Parte da biblioteca de Mário Soares está hoje na casa que foi de José Manuel Galvão Teles.

Do grupo original dos cinco J’s ‒ Jorge Sampaio, João Bénard da Costa, José Manuel Galvão Teles, José Vera Jardim, João Cravinho ‒ sobrevivem-lhe os dois últimos.

São as histórias

Escutando os testemunhos, não é difícil dar-lhes razão.

O “doutor Zé Manel”, como lhe chamavam carinhosamente os associados da Morais Leitão, era dono de um humor tremendamente original. Uma tarde perguntou-me que método tinha usado para estudar na escola e revelou-me o seu. “Comprava sempre os manuais ao melhor aluno do ano anterior e só lia as partes sublinhadas. Um dia comprei-os a um artista que tinha sublinhado o livro todo. Tramou-me, o sacana”, recordou, entre risos breves. Num final de dia, descíamos no mesmo elevador e piscou-me o olho: “Estás de fato escuro? Andas a imitar-me. Conta lá. Quem é a miúda que vais levar a jantar?”.

Mas o verdadeiramente inesquecível em José Manuel Galvão Teles, o tão excecional quanto conhecer um homem que trata o regime por tu devido a uma bengalada acidental, era o que guardava como legado.

Uma vez, já perto das obras estarem terminadas no andar sem vista, perguntei-lhe o que era mais importante para ele. Pensou uma dúzia de segundos e respondeu-me. “O Champas [Champalimaud] dizia que era o risco. Eu percebo, mas não acho. O que me fez continuar foram as histórias. Foram sempre as histórias. Ter histórias para contar. Tê-las vivido.”

E do cimo daquele prédio na Castilho tive a sorte de lhe ouvir umas tantas. De “antes disto tudo”, como ele dizia, acenando para a varanda, quando “isto tudo” podia ser a advocacia, o escritório, a Democracia, a sua vida.

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