O génio tímido (Fernando Sobral 1960-2022)

29 mai, 16:14
Fernando Sobral

Obituário do jornalista e escritor Fernando Sobral, que morreu a 14 de maio, por Sebastião Bugalho.

Tejo. Final da década de 70. Cinco rapazes a bordo do barco para Lisboa, vindos do Barreiro, sorriem à tarde livre de aulas. O destino, pré-acordado, é a livraria Bertrand, no topo do Chiado. Não para adquirirem livros, porque o bilhete quase esgotava o dinheiro de bolso, mas para cada um escolher uma revista. A promessa, sagrada entre o grupo, é trocarem as publicações entre si até à próxima tarde livre. Faculdade de Direito. Anos oitenta. Reunião da associação de estudantes. Na direção está o hoje primeiro-ministro. O seu número 2 nos corredores da FDUL chegaria a ministro da Administração Interna. Entre eles, estava um amigo em comum que, ao contrário deles, não acabaria o curso nem iria para a política. No final da reunião, regressaria de barco para o Barreiro com o tal futuro MAI, com quem subira o Chiado centenas de vezes para comprar revistas, e de quem ficaria amigo até ao fim da vida. Rua de Santa Marta. Anos noventa. Um homem entra numa cervejaria e a imperial é imediatamente servida na mesa em que, diariamente, lancha. O dia, contrariamente aos restantes camaradas de profissão, começara há quase dez horas e merecia a pausa. Inusitadamente, saíra-lhe um 12 no totobola, na altura uma fortuna de prémio, quebrando a normalidade que o ritual da lotaria visava proporcionar. Anos dois mil. Xangai. Num mercado que já fora tradicional, uma reunião infindável de comerciantes tenta vender eletrodomésticos usados. Um estrangeiro, com os olhos mais em bico do que um europeu mas não tão cerrados quanto os locais, olha. Trata-se, por natureza, de um observador. E o Oriente a sua paixão tardia. Não precisa de anotar frases no bloco de notas, pois as palavras valem-lhe mesmo que sozinhas. De uma nasce um artigo, de duas uma reportagem, de três um romance, de quatro uma vida. Ao longe, parece-lhe escutar uma música familiar, tocada por um instrumento estranho. De bigode, com o cabelo ralo e ainda não grisalho, ombreia pela multidão que lhe esconde a fonte da canção. Umas magníficas e intactas colunas de alta qualidade sonora presenteiam a praça com um clássico do rock que, em tempos, sofreu a sua crítica. O estrangeiro pára e suspira. Tinha saudades da música, deu-se conta, mas não de casa. A China, a seu jeito, também se tornara uma casa. Infelizmente, não à distância daquele barco do Tejo.

Fernando Sobral, nascido em 1960, foi todos estes homens ao longo das suas seis décadas na terra. Barreirense, musicólogo, jornalista, viajante e escritor, partiu este maio.

Fernando Sobral, jovem, na rádio. Fotos da sua página de Facebook. 

Eduardo Cabrita, seu colega de turma na terra-natal de ambos e, depois, na universidade, lembra-o como um dos seus amigos mais chegados. “Ele era dono de algo a que podemos chamar estado de espírito barreirense ‒ algo que agora não teria tempo para explicar ‒, mas que refletia o contexto cultural muito próprio que o Barreiro tinha e ainda tem”. Apesar de ler religiosamente o “Pulo do gato” ‒ a coluna de Sobral na última página do Negócios ‒, Cabrita recorda com saudade as conversas que tinham “sobre tudo menos política”, fora da atmosfera em que fez a maior parte do seu percurso.

Vicente Jorge Silva chamava-lhe o “paridor de caracteres”, pela facilidade com que produzia texto. Francisco José Viegas, seu editor em dois romances, confirma a ideia. “Não tinha medo nenhum do teclado”. Sérgio Figueiredo, seu diretor no Diário Económico e no Negócios, não esquece essa relação frutífera com as teclas, lembrando que Sobral, que usava apenas os indicadores no datilografar, possuía uma “capacidade de trabalho verdadeiramente única”. “Era um pintor. Desenhava com palavras”.

João Gobern, que esteve com ele no Se7e, dá idêntica conta dessa excecionalidade. “Ao contrário da maioria dos multifacetados, era um multifacetado cumpridor”. Chegava cedíssimo à redação. Em hora de fecho e limite de palavras, Sobral não falhava ou incumpria. Ao metro e ao milímetro, sobre o Banco Central Europeu ou o disco mais sórdido, ele escrevia. Gobern, com quem trocou galhardetes musicais em pleno jornal (“velhinho hippie”, atirou o primeiro, apesar de terem a mesma idade; “punk dos subúrbios”, ripostou o segundo, não antevendo a amizade que os juntaria), descreve esse “desdobramento disciplinar” como a característica mais marcante de Sobral.

Numa sessão de autógrafos de um dos seus livros, em Lisboa. Fotografia de Miguel Baltazar

A polivalência, todavia, não era meramente técnica. Era conceptual. As referências que utilizava nos textos de opinião reuniam uma transversalidade temática, temporal, tónica. “O Fernando Sobral foi um pensador pop, talvez até um filósofo pop. Foi-se tornando cada vez mais denso, mas sempre com a leveza das parábolas de banda desenhada ou de estrofes do soul”, aponta Octávio Ribeiro. Também barreirense, também estudante da FDUL e também jornalista, evoca-o com gratidão. “Com a sua visão e conselho, traçou vários destinos em diversas áreas do saber. A mim, ajudou-me a não ficar confinado ao escritório de advocacia do meu querido pai e lançou-me no ninho do jornalismo. Devo-lhe a carreira e uma amizade profunda”.

Manuel Falcão, outro dos seus constantes contemporâneos, conheceu-o na Rádio Universidade Tejo. Aí, inauguraram uma ligação pessoal e profissional que se prolongaria, passando pelo Blitz, O Independente e o Semanário. “Era uma conversa inacabável. Começávamos sempre onde tínhamos terminado. Até ao fim”. Da sua obra publicada, destaca “Barings” (Oficina do Livro, 2011), por revelar as qualidades de investigação do autor, cuja ficção tendia a centrar-se na Ásia.

Em estúdio na gravação de um podcast, em 2020, com os jornalistas Paulo Ferreira, António Costa e Pedro Santos Guerreiro. 

No fim, era o estilo. Fernando Sobral tinha estilo a escrever. Um seu estilo. Que o fazia, como recordava Pedro Santos Guerreiro no lançamento de um dos seus livros, enraivecer os mais poderosos e então influentes. Que nos fazia, a cada coluna do “Pulo do gato”, ver um bocadinho melhor o que estava mesmo à frente do nosso nariz. Sobral falava de Passos citando Pessoa e citava Ventura falando do Batman. A excentricidade do artigo acertava irremediavelmente no alvo ao meio. Há “uma convulsão político-partidária no ar” foi a sua última linha publicada. E lê-lo também era isso. Respirar o vento antes do tempo o soprar. Expor o mistério antes de os demais o desvendarem. Procurar definir o que a maioria ainda não vira.

Para mim, que cresci numa casa onde se começam a ler os jornais pelo fim, pelas últimas, o Fernando Sobral será sempre a primeira página que gostava de ter escrito na véspera. De um modo, continua a ser assim. E desse modo, deixo-lhe aqui a minha homenagem.

 

Fernando Sobral, na fotografia que foi publicada todos os dias durante vários anos na última página do Jornal de Negócios, na coluna "O Pulo do Gato". Por Miguel Baltazar.   

 

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