A despedida a Eunice Muñoz: "Era aquela pessoa que as pessoas imaginavam que era"

19 abr, 19:34

Na cerimónia religiosa, o padre lembrou que Eunice significa "vitoriosa", um nome "que bem lhe assenta como uma luva". Eunice Muñoz, que tinha 93 anos, morreu na sexta-feira e foi hoje cremada no cemitério do Alto de São João, em Lisboa

Na foto a preto e branco, Eunice está de perfil com o cabelo esvoaçando, livre. A foto que acompanha o caixão de Eunice Muñoz parece remeter-nos para o "Vendaval", a primeira peça em que participou, no palco do Teatro Nacional, há 80 anos, mas parece também ter sido escolhida de propósito para este dia de vendaval em Lisboa. Batem portas e janelas, há vasos de flores a cair ao chão, mas nos claustros da Basílica da Estrela, onde decorre o velório, tudo está sereno, o sol entra de viés e até o bisneto Amadeo, filho da neta Lídia, dorme tranquilamente no seu carrinho enquanto se dão abraços e se partilham memórias de Eunice, a atriz que morreu na sexta-feira aos 93 anos.

"Foi um privilégio para Portugal ter uma atriz como Eunice Muñoz. Uma atriz com um dom único e um talento natural para a representação. Para os portugueses, Eunice Muñoz é o Teatro. É a verdadeira Senhora Teatro", lê-se na mensagem da coroa de flores enviada pelo ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva - uma entre as muitas mensagens nas flores oferecidas por amigos e pelas mais diversas instituições, sobretudo ligadas à cultura.

Nos livros de condolências, várias pessoas deixaram também as suas palavras, do simples "Até sempre, senhora dona Eunice" até textos mais elaborados, como um espectador de teatro que escreveu: "Que bom ter passado no Rossio e ter feito parte da minha história", numa referência ao espetáculo de Filipe La Féria, de 1991.

O ator Virgílio Castelo foi um dos que se quis despedir na Basílica da Estrela, lembrando que Eunice Muñoz juntava dois talentos "muito difíceis de atingir: a excelência e a humildade". A atriz Rita Blanco lembrou a infância passada a ouvir a voz de Eunice numa edição gravada de "A Menina do Mar", de Sophia de Mello Breyner, antes sequer de sonhar que iria poder conhecê-la. O ator José Raposo não tem dúvidas de que Eunice é "a maior representante da cultura portuguesa" e recordou a humildade da atriz, que não gostava de ser o centro das atenções e ficava pouco à-vontade quando ouvia elogios.

Na missa, que contou com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do primeiro-ministro, António Costa, o padre dirigiu-se aos "queridos amores da Eunice". O padre António Pedro Monteiro, amigo da família, foi o escolhido para a última homenagem à atriz e assumiu ter consciência da enorme responsabilidade: "Fui o último a chegar e tenho o prazer de a chamar 'senhora dona Eunice', mas não serei eu que vos vou dizer o valor dela, as mais de 150 obras a que Eunice emprestou a sua pele falam por si."

O padre lembrou uma conversa que teve com António, o filho da atriz, que lhe disse: "Eunice era aquela pessoa que as pessoas imaginam que era." "E dizer isto é dizer muito", concluiu. É dizer que Eunice, apesar de habituada a fingir, não fingia na sua vida.

"Os atores representam-nos a vida inteira. Vestem a pele da humanidade anterior, que tem algo a dizer à humanidade à nossa frente. Os atores são artesãos da humanidade e da eternidade. Representam-nos não por mandato mas por vocação", disse. E Eunice, cujo nome significa "vitoriosa", um nome "que bem lhe assenta como uma luva", fê-lo como ninguém: "A sua grande vitória foi não prescindir dessa humanidade que nos abre mundos e, nessa vida monumental, conservar a serenidade e não esquecer a escala pequena."

O padre lembrou então uma música de que gosta muito, "Last Train Home", de Pat Metheny, para dizer que vê o momento da morte como um regresso a casa. Que Eunice regresse, então, a casa, disse, ou melhor, "ao grande palco, como se até agora a vida dela tivesse sido só um grande ensaio" e que, quando a cortina se abra, no momento do "encontro com as verdades inteiras", na plateia encontre Deus, pronto a assistir ao seu talento. "E nós juntamo-nos a essa grande estreia, de pé, aplaudindo Eunice."

Na rua, o aplauso não foi, na verdade, tão intenso como se esperaria. Talvez a culpa fosse do vento, que impediu inclusivamente a colocação da passadeira vermelha para a saída do caixão da Basílica da Estrela, antes de seguir para o cemitério do Alto de São João. Foram poucas as pessoas que se juntaram à porta, alguns moradores, uns quantos curiosos. Ainda assim, ouviram-se as palmas para Eunice, quando o caixão passou, coberto pela bandeira de Portugal, acompanhado pelas condecorações recebidas pela atriz e por aquela foto de Eunice em pleno vendaval.

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