"Fui feliz em tudo o que fiz". Eunice Muñoz (1928-2022)

15 abr, 07:43

Uma mulher que nunca conseguiu “dizer que não a um bom texto”, deu 80 anos ao teatro português

Morreu Eunice. A atriz, tão popular que ganhou o direito a ser tratada assim, só pelo primeiro nome, tinha 93 anos. Depois de ter estado mais de um mês internada, devido a vários problemas de saúde, Eunice Muñoz teve alta no início de março e voltou a casa, para estar com a família. Na sua última entrevista a Manuel Luís Goucha, transmitida recentemente, a atriz dizia não ter medo do futuro: "Só gostaria de não estar muito tempo doente". Talvez por ser crente, aceitava o envelhecimento e a proximidade da morte com naturalidade. “Gosto tanto de viver”, afirmava. 

Em Eunice a vida e a carreira confundiam-se. Era ela que o dizia: "O trabalho é a minha vida". E trabalhou, com prazer, até ao fim. Dias antes do internamento estava em palco. Andava em digressão com a peça "A Margem do Tempo", espetáculo com que escolheu encerrar a carreira, ao lado da sua neta, Lídia. 

Foi com esse espetáculo que se apresentou no Teatro Nacional D. Maria II em novembro passado, exatamente 80 anos depois da sua estreia como atriz. No final dessa sessão, após a homenagem com palavras do primeiro-ministro António Costa (“Não perca esse sorriso”, disse-lhe, “é um dos sorrisos mais bonitos do mundo”) e da ministra da Cultura Graça Fonseca e depois de ver um pequeno filme com os momentos mais importantes da sua vida, Eunice fez ouvir a sua voz frágil e emocionada para dizer: "Fui feliz em tudo o que fiz". Essas palavras e essa maneira de encarar a vida são, talvez, a sua melhor definição. 

"O teatro alimenta-me. Toda a vida o teatro deu-me sempre segurança. São 80 anos de gratidão", dizia.

 

No teatro desde criança e a estreia oficial no Teatro Nacional

“Sou uma pessoa como outra qualquer”, mulher, mãe de seis filhos, com netos e bisnetos, mas, “em princípio, só podia ser atriz”, "era como uma obrigação", uma vez que descendia de uma família de três gerações de atores. Alentejana  de Amareleja, nasceu a 30 de julho de 1928 e em criança, quando viajava com os pais e o seu teatro desmontável pela província, tinha uma relação de amor-ódio com o teatro. Gostava de representar mas, quando era chamada ao palco, o que começou a fazer logo aos cinco anos, ficava nervosa. “Inventava até dores de barriga para evitar as caras assustadoras que olhavam para mim”, contou em várias entrevistas.

Apesar disso, “alguém reparou” nela e teve oportunidade de, no dia 28 de novembro de 1941, se estrear no Teatro Nacional com a peça "O Vendaval", de Virgínia Vitorino, com encenação de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. Tinha 13 anos. De olhos grandes e cabelo muito preto, era ainda uma menina ao lado de atores já consagrados como Palmira Bastos, Amélia Rey Colaço, Maria Lalande, Lucília Simões, Raul de Carvalho ou João Villaret.

“Tive uma sorte imensa de ter comigo a primeira companhia do país, com os maiores atores e as maiores atrizes, como a Amélia Rey Colaço que foi minha mestre muito querida", disse a atriz. "Foi a Sra. D. Amélia Rey Colaço que me ensinou, digamos, a pisar o palco. […] Dirigia-me, e eu aprendia tanto com isso."

Dois anos depois, também no Nacional, foi como Maria, na peça “Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garrett, que conquistou a atenção do público e da crítica. Já decidida a ser atriz, foi estudar para o Conservatório, que terminou com 18 valores. Pelo meio, estreou-se no cinema com "Camões", filme de Leitão Barros (1946) que a levou ao Festival de Cannes, em França, e lhe valeu o prémio de melhor atriz de cinema atribuído pelo SNI – Secretariado Nacional de Informação.

Aos 18 anos casou-se e teve uma filha. A carreira ia de vento em popa mas Eunice estava insatisfeita. Em 1953, tinha 21 anos, suspendeu a atividade. Queria dedicar-se à família. Precisava de pensar na sua vida. “Conheci outra realidade. Foi muito agradável, foi muito bom. Foi como se nascesse outra vez”, explicou.Durante quatro anos esteve longe dos palcos.

Foi trabalhar para uma loja de cortiça, Mr. Cork, no Príncipe Real, onde se tornou uma atração turística – não podendo vê-la em palco, os fãs iam vê-la ao balcão. “A experiência acabou por se tornar insuportável”, contou. Optou por tirar um curso de secretariado. Foi “um percurso que teve de ser feito”, recordaria mais tarde, sem qualquer mágoa. Trabalhou depois numa fábrica de materiais elétricos, onde acabou por conhecer o segundo marido. Foi ele que a incentivou a voltar ao teatro, o que acabaria por acontecer em 1956, a convite de Vasco Morgado, para interpretar "Joana d'Arc", de Anouilh, no Teatro Avenida, e que foi um estrondoso sucesso.

 

Do teatro à televisão, Eunice foi muitas mulheres

Ao longo da carreira, Eunice Muñoz deu vida a personagens em “muito mais de 100 peças” de teatro, cruzando quase todos os géneros dramáticos, participou em, pelo menos, 16 filmes e em diversas telenovelas. No Teatro Experimental de Cascais, foi uma das "Criadas", de Jean Genet, juntamente com Glicínia Quartin e Lurdes Norberto (1972); foi "Fedra" (1969) e "A Maluquinha de Arroios" (1966); fez "Madame" com a atriz brasileira Eva Wilma (2000), esteve no Politeama ao lado de Ruy de Carvalho em "A Casa do Lago (2002)", rejuvenesceu em "O Comboio da Madrugada" (2011).

Entre as personagens que interpretou, guarda com especial carinho as protagonistas de "Zerlinda" (1988) e "Mãe Coragem" (1986), com que ganhou o prémio Garrett para Melhor Atriz. "A Mãe Coragem deu-me muita alegria, tinha tanto prazer em fazê-la, cada noite era uma satisfação íntima. Fiz aquilo que um ator não pode fazer, saí de mim própria. Foi tão forte que fiquei com um problema: uns meses depois, estava de férias, e comecei a ver em duplicado. O ator é um fingidor e ali não fingi, excedi-me", contou.

Na televisão, o primeiro grande destaque vai para “A banqueira do povo” (1993), um trabalho inspirado na história real da banqueira Dona Branca. Mas foi a TVI que foi a sua principal casa desde que, em 1999, participou em "Todo o Tempo do Mundo", ao lado de Ruy de Carvalho. 

José Eduardo Moniz, que dirigia então os destinos da estação, compôs o elenco da novela, que estreou em 1999. “Era uma questão de afirmação num território que não era o nosso. Um dos grandes pressupostos era tê-la a ela e ao Ruy de Carvalho”, lembrava em dezembro, numa homenagem à atriz. “Foi o projeto mais emblemático, foi com ele que iniciámos a nossa cavalgada na ficção”. 

“Quer o Destino” (2020) foi a última novela em que participou. “Esteve ali com a mesma vontade, sabemos que vai dar tudo até ao limite”, recordou na altura Cristina Ferreira, diretora de entretenimento e ficção. “Mais do que termos a Eunice na TVI, temos a Eunice no país”, disse, num discurso dirigido à atriz. “Todos nós nesta casa pudemos comprovar como deu a mão a tantos atores”. 

93 anos de vida, 80 de carreira

Nunca conseguiu “dizer que não a um bom texto”. E quando lhe perguntavam pelo segredo do sucesso, geralmente respondia: "Tive muita sorte". Depois referia os mestres com que aprendeu e, por fim, admitia o mérito de trabalhar, “trabalhar muito”. Eunice Muñoz não gostava muito de falar do seu trabalho. Era das pessoas mais difíceis de entrevistar por isso mesmo. Se lhe perguntávamos como fazia, ela respondia: “É a minha profissão.” E não adiantava muito mais explicações.

“Na repetição que é o teatro, efetivamente, mesmo quando pensava que ia ter mais uma representação, mais um dia, transformava esse dia numa entrega”, contou numa entrevista. “Isso esteve sempre comigo, sempre, sempre”, acentuou. Era feliz em cena.

Em 2010, com 81 anos, quando andava em digressão com "O Ano do Pensamento Mágico", um emocionante monólogo de Joan Didion, e ao mesmo tempo gravava mais uma novela, admitia: “A minha memória é menos minha amiga. De qualquer modo, continua a ir até onde consegue ir com a minha idade.”

Em 2018 participou no filme "Olga Drummond”, curta-metragem realizada por Diogo Infante. Esta era uma amizade antiga. Conheceram-se em “A Banqueira do Povo”. "A Eunice tinha 65 anos e estava em plena forma, no auge das suas capacidades. Emanava uma energia régia, de quem tem perfeita noção da sua responsabilidade. Foi um dos maiores privilégios da minha vida, poder testemunhar o seu brutal talento em ação. A relação próxima e cúmplice das nossas personagens acabou por transbordar para a vida real, nascendo, desde aí, uma amizade que dura até hoje", escreveu Diogo Infante nas redes sociais a propósito dos 80 anos de carreira da atriz.

Quando foi diretor do Teatro Maria Matos convidou-a para juntos interpretarem 'A Dúvida', de John Patrick Shanley, com encenação de Ana Luísa Guimarães. Dois anos depois, já diretor do D. Maria II, seria ele o encenador de 'O Ano do Pensamento Mágico': “Não se trata tanto de dirigi-la, mas sobretudo de acompanhá-la num processo de criação”, explicou na altura. Eunice “está constantemente a questionar-se, vive desta inquietação, disse o encenador, elogiando “a sua capacidade para atacar um texto e viver uma história”.

A cumplicidade entre os dois era tal que a atriz aceitava os convites de Diogo Infante para um novo projeto sem sequer saber do que se tratava. "Penso que acima de todas estas experiências maravilhosas e do muito que aprendi e continuo a aprender com a Eunice, o que mais prezo é a sua amizade, o seu carinho, o telefonema que, invariavelmente, me faz a perguntar “Como estás?”. Estou bem Eunice, tenho saudades suas", concluía o ator, encendor e atual diretor do Teatro da Trindade.

No ano passado, além do espetáculo "A Margem do Tempo", com que escolheu terminar a carreira, estreou-se também o documentário “Eunice ou carta a uma jovem atriz”, realizado por Tiago Durão, que abre a porta à intimidade da atriz e revela a cumplicidade com a neta, Lídia.

“Decidi que era altura de passar o testemunho e ver continuado o sonho do teatro pela minha neta Lídia [Muñoz], testemunho que passo orgulhosamente e que quis ver registado pelo cinema”, explicou, no momento da estreia, Eunice Muñoz.

Entre quedas e um tumor na tiróide, que lhe tirou a voz, a saúde da atriz vinha a degradar-se nos últimos anos. Apesar disso, não só continuava a representar como continuava a ir ao teatro e a querer acompanhar os mais jovens. Vivia com a neta Lídia e tinha sido recentemente bisavó, o que a fazia muito feliz. No Instagram, continuávamos a acompanhá-la e a vê-la sorrir. 

 

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