"De que planeta você veio?” "Do planeta fome”, respondeu Elza Soares (1930-2022)

Henrique Magalhães Claudino , Maria Miguel Cabo
20 jan, 23:00

O pai batia-lhe, o marido também - nem um Santo com quem ela falou conseguiu resolver aquela violência toda. E por isso foi Elza a tornar-se santa da música ao fundir samba com eletrónica, jazz, funk e afins. Elza Soares, "a voz do milénio" para a BBC, morreu esta quinta-feira aos 91 anos no seu Rio de Janeiro. Vive agora só nas suas canções, a herança que deixa para este planeta

Quando tinha cinco anos, Elza Soares conta ter sido visitada por São Jorge, santo padroeiro dos cavaleiros e soldados. Nessa anunciação, num cortiço no bairro da Água Santa, Elza - que ainda era Gomes da Conceição - fez um pedido: "São Jorge, posso pedir pró senhor dizer para meu pai não me bater tanto assim? Eu prometo que vou ser uma menina boazinha, São Jorge, eu não vou ficar aprontando muito não". 

A resposta do Santo foi de alguma forma profética, não fosse ele invocado contra a peste e contra as serpentes venenosas. São Jorge disse que Elza ainda apanharia muito. “Mal sabia eu que ele queria dizer que eu iria apanhar mais da vida do que do meu pai”, contou Elza anos depois ao seu amigo e biógrafo Zeca Camargo. 

De cabelos negros e vestido branco, Elza cresceu a brincar nas ruas de um Rio longe das mesas do Café Nice, do teatro de revista ou da Praça Paris mas consumida pelos ares da Revolução de 30. A vida de criança, humilde, dividia-se entre os piões de madeira e a ajuda que dava à mãe, acérrima crente, nos trabalhos domésticos. E cantava, fartava-se de cantar. Também isto era profético à sua maneira.

Foi obrigada a casar-se aos 11 anos com Lourdes António Soares, um amigo do pai, bem mais velho do que ela e que já havia tentado abusar de Elza. O pai, de acordo com alguns relatos, acreditava que a honra da filha só estaria limpa com o casamento, pelo que Elza se uniu em matrimónio e começou a assinar Soares ao lado do seu nome.

Pouco tempo depois de Elza e Lourdes se unirem, Elza engravidou do primeiro de sete filhos. Tinha 13 anos e, durante cerca de uma década, foi agredida sexualmente em várias ocasiões. Deixou depois essas cicatrizes cravadas num repertório de composições que acabariam por defini-la como a cantora do milénio, em 2000.

“Mão, cheia de dedo
Dedo, cheio de unha suja
E pra cima de mim? Pra cima de moi? Jamé, mané!
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”
 

O ano em que se casou também foi o mesmo ano em que cantou pela primeira vez em público. Com um filho doente e sem dinheiro para comprar medicamentos, Elza Soares procurou o sustento pela voz através de um “programa de calouros”, na altura apresentado por Ary Barroso, na Rádio Tupi. 

Recordando-se desse momento para a revista Abril, Elza Soares conta que quando se inscreveu para o programa pediram-lhe que vestisse uma “roupa bonita” para o momento em que fosse cantar. “Eu na época devia pesar uns 35 quilos e a minha mãe uns 65, mas eu pensei ‘o único jeito que tem é eu pegar uma roupa da minha mãe'”, improvisada com alfinetes para que o tecido não escorregasse da sua pele.

Quando as cortinas se desvendaram, Elza foi recebida por uma chuva de risos pelo público e pelo apresentador, que a gozar lhe perguntou “de que planeta você veio, minha filha?” e ela “do mesmo planeta que você, seu Ary, do planeta fome”. Ary Barroso acabou por ficar emocionado com a resposta e deu-lhe um abraço, prevendo (com sucesso, embora não imediato) que Elza atingisse o estrelato.

Só aos 21 anos, já viúva e depois de ter perdido dois filhos para a fome e ter visto uma filha ser raptada (que viria a encontrar décadas depois), Elza, com cinco crianças para criar, tornou a cantar mas agora para fazer carreira. Trabalhou inicialmente na Orquestra Garam Bailes e em 1959 foi contratada para a Rádio Vera Cruz após ter vencido um concurso musical. Em 1960 atuou no Festival Nacional da Bossa Nova, pelo caminho Elza Soares foi construindo uma carreira alicerçada em êxitos como Dentro de cada um, Deus Há de Ser, A Carne e Mulher do Fim do Mundo. Chegou mesmo a substituir Ella Fitzgerald durante uma toor na Europa e acabou ovacionada.

 

 

Entretanto foi forçada a exilar-se em Itália por causa do seu relacionamento com o craque Garrincha, do qual recebeu diversas ameaças por alegadamente o ter "roubado a outra mulher". Viu Garrincha, por quem várias vezes professou o seu amor eterno, mergulhar no vício do álcool e tornar-se violento. Ele acabou por morrer de cirrose, em 1983.

Aos 79 anos, Elza lançou talvez o seu mais disruptivo álbum: “Mulher no Fim do Mundo” percorre a sua vida artística com a crueza de quem mergulhou na violência, na pobreza e na morte e a leveza (a leveza?) de quem viu tudo isso a acontecer ao ritmo do samba. 

 

Morreu esta quinta-feira de causas naturais na sua casa no Rio de Janeiro. Tinha 91 anos e 34 discos. São 34 possibilidades de matarmos a fome de saudades dela.

Novo Dia CNN

5 coisas que importam

Dê-nos 5 minutos, e iremos pô-lo a par das notícias que precisa de saber todas as manhãs.
Saiba mais

Música

Mais Música

Patrocinados