Angola despede-se de ‘Zedu’, o “bom patriota” que fez a paz

Agência Lusa , DCT
28 ago, 13:42

No dia em que José Eduardo dos Santos comemoraria os seus 80 anos, o Governo organizou uma cerimónia oficial de exéquias fúnebres que contou com a presença de 24 delegações estrangeiras, entre as quais o Presidente português, o coordenador das cerimónias explicou que o executivo está em “sintonia” com a família.

Família, governo, amigos, partido governamental, chefes de estado e povo recordaram este domingo a figura do ex-presidente angolano José Eduardo dos Santos, o “bom patriota” que promoveu a paz e reconciliação no país, numa cerimónia que incluiu o desmaio de um dos oradores.  

“Em nome da direção do MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola], de todos os militantes, simpatizantes e amigos do nosso partido, venho oferecer-te uma flor. Adeus nosso presidente emérito, adeus camarada presidente José Eduardo dos Santos, adeus arquiteto da paz, adeus Zedu, paz à sua alma”, resumiu Luísa Damião, vice-presidente do partido que governa Angola.

Em representação da Fundação José Eduardo dos Santos, João de Deus recordou que o povo falava do ex-presidente como ‘Zedu’, “dada a sua natureza de humildade e trajetória simples”. Com 37 anos, José Eduardo dos Santos “sacrificou a sua juventude”, para assumir, em 1979, uma “substituição necessária para dar sequência ao prematuro passamento físico do imortal guia da revolução”, numa referência a Agostinho Neto, afirmou João de Deus, que desmaiou durante o discurso, tendo sido assistido pelos serviços médicos.

Por seu turno, o chefe da Casa Civil do Presidente de Angola, Adão de Almeida, afirmou hoje que o país se despede de José Eduardo dos Santos, “um bom patriota” que “trouxe a paz” a garantiu a “unidade territorial” ao longo dos 40 anos de governo.

No dia em que José Eduardo dos Santos comemoraria os seus 80 anos, o Governo organizou uma cerimónia oficial de exéquias fúnebres que contou com a presença de 24 delegações estrangeiras, entre as quais o Presidente português, o coordenador das cerimónias explicou que o executivo está em “sintonia” com a família.

No seu discurso, Adão de Almeida elogiou o legado histórico de José Eduardo dos Santos e o seu papel na “transição” de Angola para o regime democrático, economia de mercado e na construção de um conjunto de “direitos, liberdades e garantias dos cidadãos”, dos quais destacou a abolição da pena de morte.

Mas, em particular, o ministro elogiou a “invulgar sagacidade” do ex-presidente que, após a vitória na guerra civil, promoveu a reconciliação nacional, de “cujos frutos Angola usufrui há 20 anos”.

Já Roberto Almeida, antigo presidente da Assembleia e próximo do ex-presidente, falou do amigo como "um arquiteto da paz" que "pôs fim definitivamente a décadas de guerra fratricida", num "reencontro da grande nação angolana".

As cerimónias fúnebres do ex-presidente angolano José Eduardo dos Santos concluem-se este domingo, data em que completaria 80 anos, com um funeral de Estado na presença de vários Presidentes, incluindo Marcelo Rebelo de Sousa, e representantes da diplomacia de diversos países.

O antigo chefe de Estado morreu em 8 de julho, com 79 anos, em Barcelona, Espanha, onde passou a maior parte do tempo nos últimos cinco anos, mas as exéquias só agora se vão realizar devido à disputa sobre a custódia do corpo entre duas fações da família de José Eduardo dos Santos - a viúva e os três filhos mais novos, apoiados pelo regime angolano, contra os cinco filhos mais velhos.

Ainda antes do início da cerimónia fúnebre, o ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE), João Gomes Cravinho, destacou o papel do ex-presidente angolano, José Eduardo dos Santos, sublinhando que soube criar proximidade com Portugal e que o país “lhe deve muito”.

“(José Eduardo dos Santos) soube estabelecer com todos os Presidentes da República portugueses eleitos em democracia, devido à longevidade da sua carreira, relações que propiciaram a proximidade entre os nossos povos e nesse sentido também Portugal lhe deve muito”, destacou Cravinho, à chegada à Praça da República onde decorrem as exéquias, em Luanda.

Filhas mais velhas falham funeral

Uma das filhas mais novas do ex-presidente angolano José Eduardo dos Santos recordou este domingo o progenitor, o “pai da nação”, e agradeceu o apoio do Governo à família na realização das cerimónias oficiais de exéquias fúnebres. Para Josiane dos Santos, uma das filhas da última mulher, Ana Paula dos Santos, que colaborou com o Governo na realização da cerimónia, José Eduardo dos Santos assumiu principalmente o papel de pai, “adotando uma nação inteira e logo o continente que o carrega”.

O funeral de José Eduardo dos Santos fica marcado pela ausência das filhas mais velhas do ex-presidente, a empresária Isabel dos Santos que enfrenta diversos processos na justiça angolana e em outros países, e a ex-deputada do MPLA, Tchizé dos Santos, que declarou o seu apoio ao candidato da UNITA à presidência angolana, Adalberto da Costa Junior, contra o candidato do MPLA e sucessor do seu pai na presidência, João Lourenço.

Presente na cerimónia deste domingo estão os três filhos de José Eduardo dos Santos e Ana Paula dos Santos, a segunda mulher: Eduane Danilo Lemos dos Santos, Joseana Lemos dos Santos, Eduardo Breno Lemos dos Santos e Houston Lulendo Lemos dos Santos.

Líder histórico da Namíbia agradece apoio na libertação da África Austral

O histórico antigo presidente da Namíbia Sam Nujoma agradeceu ao ex-presidente angolano José Eduardo dos Santos o papel de Angola na libertação da África Austral e na resistência ao ‘apartheid’.

No seu discurso das cerimónias fúnebres oficiais de José Eduardo dos Santos, em Luanda, Sam Nujoma saudou também a família, indicando todos os filhos, incluindo os nomes de Isabel e ‘Tchizé’ dos Santos, que se opõem ao Governo a esta celebração.

“Não há palavras que vos possam trazer conforto”, afirmou Sam Nujoma, virando-se para a última mulher de José Eduardo dos Santos, Ana Paula dos Santos, que estava acompanhada pelos seus filhos, numa área reservada que incluía o filho mais velho, José Filomeno dos Santos, visado num processo judicial e que se tem mantido calado nestas cerimónias oficiais.

“Hoje, África está a chorar a saída de um homem de Estado, um pan-africanista”, recordou Sam Nujoma, que esteve pela última vez com José Eduardo dos Santos em outubro de 2021. O antigo chefe de Estado referiu que os namibianos estão “ligados para sempre a Angola”, que os recebeu na fuga contra a invasão sul-africana. “No momento da nossa luta contra o ‘apartheid’, foi Angola que nos deu abrigo, apoio e suporte” e Angola “não descansou enquanto o resto da áfrica Austral estivesse livre”, uma promessa do primeiro chefe de Estado angolano, Agostinho Neto, continuada por José Eduardo dos Santos.

Sam Nujoma acrescentou, “em nome dos veteranos da luta de libertação”, que “a independência da Namíbia e Zimbabué e a abolição do ‘apartheid’ da África do sul foram uma batalha de Angola”, que “resistiu aos brutais ataques” da África do Sul durante a guerra civil.

“Que a alma de José Eduardo dos Santos descanse na paz eterna”, acrescentou.

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