Inquérito diz que “falta formação aprofundada nesta área”, a que existe “é pontual e manifestamente insuficiente
Os investigadores do Observatório da Comunicação (Obercom) e CENJOR responsáveis por um relatório sobre Inteligência Artificial (IA) no jornalismo recomendam o reforço da formação nesta área, com especial atenção às questões éticas e deontológicas.
O inquérito a jornalistas, com 203 respostas válidas, concluiu que 70% considera que a IA ajuda a melhorar a produtividade, nas traduções e transcrições, por exemplo, mas um terço admite que o futuro é incerto e pode ter efeitos negativos na profissão.
Os resultados do questionário foram tratados por uma equipa de investigadores do Obercom, em colaboração com o CENJOR, e estiveram na base do relatório “Inteligência Artificial e Jornalismo, práticas e formação em Portugal”, divulgado esta quinta-feira e que será publicado pelo IBERIFIER, Observatório Ibérico de Média Digitais de Portugal e Espanha.
No inquérito, uma grande maioria dos inquiridos (71%) disse ter aprendido a usar a IA sozinho, por tentativa e erro, reconhecendo, generalizadamente, que usam ‘prompts’ (instruções ou pedido) com pouca precisão.
E 55% afirmam que as empresas “não fornecem acesso pago às ferramentas”, pelo que a “inovação é um processo solitário”, refere-se ainda nas conclusões.
Para o grupo de investigadores, a insistência dos jornalistas na “necessidade de maior formação ética e profissional pode ajudar a explicar parte” da desconfiança com a IA e está “aparentemente ligada a uma perspetiva idealizada do que pode significar exercer jornalismo e ser jornalista”.
Em números, 33% reconhecem existirem incertezas quanto ao impacto da IA e quase metade (46%) acredita que vai afetar a confiança no jornalismo, dado estar a lidar-se “com preocupações éticas e deontológicas”.
A conclusão é que “falta formação aprofundada nesta área”, a que existe “é pontual e manifestamente insuficiente”.
Por isso, os autores do relatório, onde se inclui o CENJOR – Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas, propõem um reforço da formação, envolvendo as empresas de media e instituições de ensino.
As parcerias entre os media e instituições de ensino podem “não apenas ajudar a identificar necessidades e um caminho formativo mais nítido e global, como permitir que se disponibilizem cursos mais curtos, intensivos e flexíveis (‘online’ e presencial) que combatam particularmente uma perceção de falta de tempo dos profissionais”.
Além das ferramentas de Inteligência Artificial e na literacia funcional, recomendam ainda que a formação aborde “questões éticas e deontológicas, que parecem desafiadas por esta tecnologia”.
“Deve ser valorizado um diálogo entre aspetos práticos e teóricos, já que as dimensões éticas e deontológicas são, num tema especialmente complexo como é o da IA, a base para o resto da formação”, lê-se no relatório.
Jornalistas usam IA, mas temem efeitos negativos
O relatório conclui ainda que uma maioria de jornalistas já utiliza Inteligência Artificial (IA), mas muitos receiam efeitos negativos na confiança no jornalismo e no emprego.
Cerca de 70% dos jornalistas que responderam ao questionário afirmaram ter usado a IA generativa nos últimos seis meses, um terço utiliza-a diariamente e 38% temem a perda progressiva de competências jornalísticas tradicionais.
O objetivo era compreender como os jornalistas avaliam a “integração de ferramentas de IA nas práticas jornalísticas nas redações em Portugal” e identificar “o que tem sido feito ao nível da formação nesta área”.
As principais conclusões apontam para uma tendência clara: a IA “tem contribuído para aumentar a produtividade nas redações” e foi essa a resposta dada por mais de 70% dos inquiridos.
Segundo o estudo, oito em cada 10 jornalistas referiram usar a IA para pesquisa e mais de metade refere ter sido para traduções (57,8%) e transcrições, nomeadamente de entrevistas (53,3%).
Estes números, segundo os investigadores, comprovam a “tendência para esta tecnologia ser usada de modo complementar ao trabalho do jornalista”, como traduções e transcrições de entrevistas, que permitem ao jornalista “ganhar tempo” e possibilitar-lhe "um maior foco na interpretação e escrita de conteúdo jornalístico”.
Os investigadores concluem ainda que existe “uma tensão entre a adoção da IA e das suas ferramentas nas redações e as incertezas relativamente ao seu impacto no jornalismo”.
E adiantam que essa desconfiança pode ser explicada pelo facto de os jornalistas que responderam ao inquérito insistirem “na necessidade de maior formação ética e profissional”.
“Deduz-se nesta análise a constatação de uma certa ‘questionação existencial’ dentro da profissão”, alertam, “associada ao impacto da IA não só no jornalismo propriamente dito, mas também em estruturas sociais mais amplas, como sejam os mercados de trabalho”.
As plataformas mais utilizadas, de acordo com o relatório, são o Chatgpt (66%), Gemini (35%), Copilot (27%) e Perplexity (22%).
A coordenação científica do relatório coube aos investigadores Pedro Caldeira Pais, Miguel Crespo, Paulo Couraceiro, Ana Pinto-Martinho, Miguel Paisana, António Vasconcelos, Gustavo Cardoso e Vania Baldi.
O IBERIFIER é um projeto ibérico que visa combater a desinformação e integra mais de vinte centros de investigações e universidades, as duas agências de notícias de Portugal e Espanha (Lusa e EFE) e ‘fact-checkers’.