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Vivemos tempos de uma exigência emocional sem precedentes. A proximidade de conflitos na Ucrânia, na Palestina ou as tensões no Médio Oriente não são apenas ecos distantes. São realidades que invadem o nosso quotidiano através dos ecrãs, da economia e da nossa própria sensação de (in)segurança. A guerra, pela sua natureza prolongada e imprevisível, gera um "stress crónico de baixa previsibilidade", que é particularmente difícil de regular.
Precisamos de compreender que a ansiedade, o medo ou a irritabilidade que muitos sentem não são sinais de fragilidade individual. São respostas humanas universais e esperadas perante a ameaça. Como os organismos globais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) reiteram, quase todas as pessoas expostas a este tipo de crise experienciam algum nível de sofrimento psicológico.
O impacto na carteira e na mente
Em Portugal, o aumento do custo de vida tem levado a um crescimento de queixas psicossomáticas como insónias, tensões musculares e problemas digestivos. A inflação e a insegurança económica em Portugal são hoje preditores diretos de ansiedade clínica. E não é apenas uma questão de números: a subida dos preços nos alimentos e nos custos da energia compromete a capacidade de planear o futuro, mantendo o sistema nervoso num estado de alerta constante. Esta "incerteza económica percebida" ativa áreas cerebrais ligadas ao medo físico, podendo levar a uma paralisia decisória onde as tarefas mais simples se tornam exaustivas.
O perigo do "Doomscrolling"
A exposição contínua a notícias e imagens chocantes funciona como um amplificador de stress. Ver imagens de guerra repetidamente ativa circuitos de trauma semelhantes aos de uma experiência direta, aquilo a que chamamos de traumatização vicariante. Em Portugal, assistimos a um fenómeno de evitamento noticioso (Digital News Report 2024): as pessoas escolhem a alienação total como mecanismo de defesa. A solução não é a ignorância, mas a "higiene informacional": limitar o consumo a momentos específicos do dia e escolher fontes credíveis, evitando o fluxo incessante das redes sociais.
Proteger os mais novos e os mais velhos
As crianças são particularmente vulneráveis, pois têm menor capacidade de regulação emocional. O filtro parental é aqui uma regra de ouro: a ansiedade dos filhos é, muitas vezes, um reflexo da reação dos pais. Devemos ouvir antes de explicar e garantir que, no seu mundo imediato, elas estão seguras.
Por outro lado, não podemos esquecer os nossos idosos. Para muitos, as notícias atuais reativam memórias traumáticas de conflitos passados, como a Guerra Colonial. O suporte intergeracional é aqui fundamental para os ajudar a trazer para o presente.
Transformar a angústia em ação
Uma das formas mais eficazes de combater a impotência é recuperar o sentido de agência. Participar em iniciativas de apoio ou voluntariado converte a ansiedade em ação com impacto real, reforçando a coesão social e o sentimento de utilidade.
Sugestões Práticas de Gestão Emocional
Num contexto de incerteza prolongada, não controlamos o que acontece à nossa volta. Mas podemos desenvolver formas de não viver permanentemente em estado de alerta. Porque o risco não está apenas na guerra em si, mas na forma como ela passa a habitar o nosso dia a dia.
A nível individual:
- Limite a exposição mediática: Escolha um ou dois momentos do dia para se informar e evite imagens sensacionalistas.
- Mantenha rotinas: Pequenas rotinas diárias criam previsibilidade e devolvem uma sensação de controlo num mundo incerto.
- Pratique a regulação fisiológica: Técnicas simples de respiração ou o método de grounding (focar em 5 coisas que vê, 4 que ouve, 3 que sente) ajudam a baixar os níveis de cortisol.
- Ative o suporte social: Não se isole. A conexão humana e a partilha de sentimentos são os maiores fatores de resiliência.
A nível comunitário e organizacional:
- Promova a empatia: A sobre-exposição informativa pode levar a um "entorpecimento emocional", a uma fadiga da compaixão, onde o indivíduo pode deixar de sentir empatia para se proteger da dor. Combata a polarização focando-se em valores humanos universais e histórias individuais, em vez de ideologias.
- Valorize a saúde psicológica: A polarização que os conflitos internacionais alimentam acaba por ecoar nos nossos contextos de trabalho. No passado dia 1 de maio, em que assinalámos o Dia do Trabalhador, recordámos que a eficiência laboral não se pode desligar da saúde psicológica. Promover um ambiente onde a saúde mental é prioridade permite transformar a angústia coletiva em coesão. No trabalho, a monitorização do bem-estar deve ser uma prática regular e não intrusiva.
- Identifique sinais de alerta: Perante isolamento extremo, desesperança persistente ou memórias do passado incapacitantes, procure apoio psicológico profissional.
A nível familiar:
A família funciona como o principal amortecedor do stress social e económico. Para que este sistema seja resiliente, é crucial:
- Evitar a "contaminação emocional": A ansiedade das crianças reflete frequentemente a regulação emocional dos pais. Manter a calma e evitar previsões catastróficas protege o desenvolvimento neurológico dos mais novos.
- Promover a literacia mediática conjunta: Discutir as notícias com adolescentes ajuda a desenvolver o pensamento crítico e reduz o impacto da radicalização digital.
- Reforçar o sentido de segurança próxima: Manter rituais familiares (como refeições em conjunto ou leituras à noite) sinaliza ao cérebro que, no "aqui e agora", a segurança permanece intacta.
- Validar emoções sem alimentar o pânico: Incentive a partilha de receios, mas direcione o foco para os "ajudantes" (voluntários e equipas de socorro), restaurando a esperança.
- Combater o isolamento intergeracional: O diálogo entre jovens e idosos ajuda os mais velhos a sentirem-se úteis e a sentirem-se mais ligados ao presente, combatendo o risco de depressão e memórias traumáticas revividas.
Para quem quiser aprofundar estratégias concretas de gestão emocional neste contexto, a Ordem dos Psicólogos Portugueses disponibiliza um guia prático — “A guerra afeta-nos a todos” — que reúne recomendações claras sobre como lidar com o medo, a ansiedade e a incerteza em situações de crise. Este documento reforça que é natural sentirmo-nos preocupados, em alerta ou com dificuldade em dormir ou concentrar-nos, e apresenta estratégias simples para recuperar estabilidade emocional no dia a dia.
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