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O Psicólogo Responde: porque é que tantas pessoas sentem "síndrome do impostor"?

9 nov, 10:00
Síndrome do impostor

O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

Terminou um projeto difícil, elogiaram, recebeu uma promoção… e, em vez de saborear o sucesso, sente um nó no estômago e uma voz interna a dizer: “Enganei-os a todos. Um dia vão perceber que não sou assim tão bom(a)!

Se vive nesta sensação, não está sozinho(a). Essa experiência tem nome — síndrome do impostor — e, ao contrário do que parece, não resulta de falta de competência, mas de excesso de autocrítica.

A síndrome do impostor é descrita como um padrão cognitivo-emocional marcado pela autodepreciação e pelo medo persistente de ser “descoberto” como fraude, mesmo perante provas claras de mérito.

A investigação recente identifica quatro ingredientes principais deste fenómeno: medo de ser apanhado (“vão descobrir que não sei tudo”), desvalorização das conquistas (“tive sorte”), hiper esforço compensatório (trabalhar o dobro para “merecer”) e sensação crónica de inadequação (“não estou à altura”).

Não é modéstia: é autocrítica desproporcionada, frequentemente acompanhada de ansiedade, stress e exaustão emocional.

A cultura da comparação

Vivemos numa era em que tudo é medido — resultados, produtividade, seguidores. A cultura da performance recompensa o resultado e esquece o esforço, criando terreno fértil para a dúvida.

Estudos recentes indicam que 62% dos profissionais de saúde já sentiram sintomas da síndrome de impostor, sobretudo em contextos de alta exigência e baixa segurança psicológica. Esta tendência repete-se em muitos outros setores, ambientes onde o erro é punido e o sucesso depressa cai no esquecimento. Como referem os autores, trata-se de uma “barreira interna à progressão”: mesmo quando o mundo diz “és bom”, a mente responde “não o suficiente”.

No quotidiano, a síndrome do impostor disfarça-se em frases simples, como: “Foi sorte”, “Não devia estar aqui”, “Um dia vão perceber que não sou isto”. A mente transforma o sucesso em ameaça e o mérito em acidente.

Mulheres, homens e o silêncio disfarçado

As mulheres continuam a reportar mais episódios da síndrome do impostor, sobretudo em contextos profissionais dominados por homens. Por sua vez, os homens, sentem o mesmo, mas falam menos, persistindo a ideia de que mostrar dúvida é sinal de fraqueza.

Como explica Paul Gilbert, a vergonha é uma emoção profundamente humana: surge do medo de não sermos suficientemente bons aos olhos dos outros. A síndrome do impostor é, muitas vezes, a expressão refinada desse medo de não corresponder. Enquanto umas vozes se cobram em excesso, tentando responder a tudo, outras silenciam a dúvida para preservar a imagem do controlo.

O paradoxo do saber

Nos contextos académicos e científicos, a síndrome do impostor encontra terreno fértil, revelando que os estudantes de doutoramento estão entre os mais afetados. Quanto mais conhecimento adquirem, maior a consciência das próprias lacunas, o chamado paradoxo do saber.

O sucesso, quando não é integrado emocionalmente, deixa de libertar e passa a oprimir. Quando o contexto não valoriza a aprendizagem como processo, o sucesso transforma-se em peso, não em prova. No quotidiano poderemos traduzir nas seguintes situações: estudante que atribui a nota alta à sorte; o gestor que adia eternamente a apresentação para “rever mais um detalhe” e o profissional que evita oportunidades por achar que “ainda não está pronto”. Todos partilham a mesma sensação: fraude emocional em corpo competente.

O que diz a psicologia

A Psicologia entende a síndrome do impostor não como fraqueza, mas como um desequilíbrio na forma como olhamos para nós próprios. O problema não é duvidar – é acreditar cegamente nessa dúvida e dar-lhe todo o foco.

Como lembra Daniel Goleman, a forma como direcionamos a atenção determina o tipo de vida mental que construímos. Quem vive em modo de autocrítica constante treina o cérebro para procurar falhas,

até quando tudo corre bem. Assim, pensamentos como “não sou suficiente” ou “tive apenas sorte” tornam-se ruído de fundo, e cada conquista parece um teste à altura.

O trabalho psicológico ajuda a mudar o foco, não a eliminar a dúvida. Trata-se de reeducar a atenção emocional, reconhecendo a voz crítica sem lhe dar o comando, substituindo a rigidez interna por uma atitude de respeito, curiosidade e empatia consigo próprio.

No contexto profissional, o mesmo princípio aplica-se às equipas: quando a atenção se centra na aprendizagem em vez do medo de falhar, cresce a confiança. Como refere Amy Edmondson, equipas seguras não erram menos, aprendem mais depressa.

Porque é que pessoas competentes sentem síndrome do impostor?

Porque foram ensinadas a provar valor, não a reconhecê-lo. Porque crescemos a confundir perfeição com competência. E porque o sucesso é visível, mas a insegurança raramente tem espaço para ser partilhada. A síndrome do impostor não revela falta de talento, revela falta de pertença e validação emocional.

Superá-la começa quando mudamos o foco da comparação para a aprendizagem, e da autocrítica para a consciência. É nesse momento que deixamos de tentar provar que merecemos e começamos, finalmente, a sentir que pertencemos.

Caixa de sugestões

  1. Dê nome à voz crítica. O humor cria distância psicológica e devolve o controlo.
     
  2. Celebre pequenas vitórias. O cérebro precisa de evidências repetidas. Escreva três coisas que faz bem todos os dias, mesmo as pequenas.
     
  3. Partilhe as suas dúvidas. Ao falar com outros, descobre que não está só. A síndrome do impostor adora silêncio, e enfraquece quando é acolhida com empatia.
     
  4. Aceite elogios sem explicações. Evite frases como “não foi nada”. Um simples “obrigado” é o primeiro passo para integrar o reconhecimento.
     
  5. Permita-se ser aprendiz. Ninguém domina tudo. Ser competente é também saber crescer.
     
  6. Procure apoio psicológico se precisar. Pedir ajuda é sinal de inteligência emocional, não de fraqueza.

Em suma, a síndrome do impostor é o espelho distorcido de uma sociedade que confunde excelência com perfeição e competência com infalibilidade. Superá-la não é eliminar a dúvida é aprender a viver com ela de forma saudável, com consciência, autocompaixão e autenticidade.

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