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Psicóloga e membro da Direção Regional da Madeira da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O Psicológo Responde: como distinguir a depressão da tristeza?

1 jun 2025, 10:00
Ilustração, Depressão, saúde mental. O Psicólogo Responde Imagem: Adobe Stock

O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

Os sentimentos são fundamentais para a sobrevivência e evolução da espécie humana. Profundamente enraizados na biologia, têm um papel crucial na manutenção do equilíbrio interno necessário à vida. Não se trata apenas de reações emocionais, são também ferramentas adaptáveis que ajudam os seres humanos a navegar pelo mundo e a construir culturas. Nesse contexto, a tristeza pode ser vista como uma resposta biológica que promove a reorganização e a adaptação face a uma perda, a frustrações ou mudanças inesperadas na vida, fazendo 'parar' para refletir, reconstruir objetivos e reformular ideias.

As emoções e os sentimentos não moldam apenas as nossas experiências individuais, influenciam também a forma como interagimos e como criamos significado coletivo, o que vem reforçar a importância de aceitar e compreender a tristeza como uma parte natural e necessária da condição humana, em vez de a suprimir ou de a tratar como um obstáculo.

A relação da sociedade moderna com a tristeza, nomeadamente a pressão para evitar emoções negativas pode desconectar as pessoas de sua própria biologia, o que pode potenciar a ocorrência de problemas como a depressão. A tristeza é uma emoção humana natural e temporária que, normalmente, surge em resposta a eventos ou circunstâncias específicas e a depressão é algo mais profundo e persistente, com implicações mais abrangentes na saúde mental, física e emocional. Sendo uma resposta adaptável, a tristeza permite processar emoções difíceis e, com o tempo, tende a diminuir. Ainda assim a pessoa pode experimentar momentos de alegria e continuar a realizar as suas atividades diárias, mesmo que com alguma dificuldade e algum desalento. Por outro lado, a depressão é caracterizada como uma tristeza persistente e profunda, acompanhada de outros sintomas, como perda de interesse ou de prazer em atividades anteriormente consideradas prazerosas, alterações no apetite e na rotina do sono, fadiga, dificuldades de concentração, sentimentos de inutilidade ou de culpa e, em casos graves, pensamentos suicidas. Frequentemente confundidas são estados emocionais distintos, com diferenças claras quanto à duração, à intensidade e ao impacto na vida diária.

Mas como distinguir?

É essencial compreender essa distinção, porque nos capacita para dedicar atenção ao nosso próprio bem-estar, permitindo-nos adquirir ferramentas e recursos mais eficazes para oferecer apoio aos outros de maneira mais ajustada. Por isso, face a esta dúvida, será importante questionar-se acerca da ocorrência de algum evento específico que possa ter desencadeado o estado emocional. Se sim, o mais provável é que tenha sido a tristeza. Importa também avaliar o tempo, pois a tristeza é passageira, enquanto a depressão se arrasta e pode piorar com o tempo. A tristeza permite seguir com a vida, embora possa ser de forma mais lenta. Já a depressão afeta profundamente as atividades diárias e provoca sentimentos de descrença. A tristeza pode ser superada com suporte emocional das pessoas significativas, enquanto a depressão exige acompanhamento profissional.

Cada pessoa vivencia a depressão de forma distinta e única. Enquanto algumas pessoas podem se sentir constantemente desanimadas, outras enfrentam episódios mais intensos em períodos específicos da vida. Pode ocorrer em resposta a circunstâncias e a eventos da vida, tanto presentes como passados, e pode ser entendida como um espectro que varia de uma leve tristeza até um estado profundo de desânimo. É normal experimentar 'altos e baixos' na vida, mas a depressão vai além de meros momentos de tristeza, é mais persistente e pode impactar negativamente no funcionamento diário. Trata-se de um dos problemas de saúde mais prevalentes no mundo, afetando aproximadamente cerca de 10% da população portuguesa.

Esta é uma condição que pode ser silenciosa, levando algumas pessoas a mascarar o seu sofrimento com receio do preconceito ou do julgamento social e, muitas vezes, é esse esforço que vai impactar de forma negativa na forma como lidam com o quotidiano. 

Hoje sabemos que as razões para o desenvolvimento da depressão são diversas e que, na maioria dos casos, estas razões encontram-se interligadas. A percepção das circunstâncias e a forma como cada um responde a estas representa um papel igualmente relevante na forma de lidar com as emoções e, em alguns casos, as causas podem ser menos visíveis, criando uma sensação de que surgiu sem motivo aparente. Este problema de saúde mental é um desafio de saúde pública que impacta direta e indiretamente na sociedade como um todo. Estudos demonstram que comunidades mais solidárias e conectadas têm níveis mais baixos de stress e de sofrimento. Assim, cada um desempenha um papel essencial na prevenção da depressão e no apoio às pessoas que se encontram em sofrimento devido a depressão.

Quando um ente querido enfrenta um estado depressivo, é natural sentir confusão, frustração ou até mesmo tristeza. São reacções que nos lembram da importância de cuidar também do nosso bem-estar psicológico, para que possamos oferecer apoio de forma eficaz.

Algumas estratégias que podemos adotar para ter um papel ativo, não só na prevenção, como no apoio a quem precisa de nós:

  • Aprender sobre a depressão – obter informações sobre o que é a depressão pode ajudar a compreender melhor o que a pessoa tem de enfrentar.
     
  • Incentivar a procura de ajuda de um profissional de saúde mental – mostrar apoio e encorajar a procurar assistência psicológica ou médica.
     
  • Oferecer apoio e praticar a escuta ativa – estar presente como ouvinte pode fazer uma grande diferença.
     
  • Promover o autocuidado – estimular hábitos de vida saudáveis, como manter uma rotina equilibrada no que respeita ao sono, à alimentação e ao exercício físico.
     
  • Manter o contacto regular – ser consistente na forma como demonstramos interesse e preocupação ajuda a fortalecer os laços.
     
  • Incentivar o equilíbrio – reforçar a importância de encontrar momentos de tranquilidade e de lazer.
     
  • Respeitar os limites – reconhecer que não podemos “salvar” alguém da depressão, mas podemos oferecer apoio e suporte.
     
  • Ter paciência e ser persistente – é essencial respeitar o tempo e os processos da pessoa de modo a criar um ambiente acolhedor.
     
  • Procurar ajuda, se necessário – cuidar de quem está deprimido pode ser emocionalmente desafiador, por isso, familiares e amigos também podem precisar de apoio.
     
  • Aceitar que a tristeza é uma emoção natural e útil pode ser um passo importante para prevenir a escalada para a depressão. Com mais tolerância e compreensão, podemos ajudar a criar uma sociedade que respeite o tempo emocional de cada um e que incentive a procura de ajuda, quando necessário. Um psicólogo pode ajudar.

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