O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt
Corria o ano de 1980 quando António Variações se estreou na televisão, vestindo um pijama, em “O Passeio dos Alegres”. O refrão da música da sua estreia televisiva ecoou na televisão: “Toma o comprimido, toma o comprimido que isso passa”.
Ao pensar este texto lembrei essa música, bem como o nome do primeiro álbum do Variações, cujo nome era Anjo da Guarda. Pensando no bem-estar das pessoas, em particular daquelas que carecem de uma intervenção técnica na sua saúde, comecemos este texto, em que se abordará a medicação e a psicoterapia, por reforçar que importa não olharmos para o comprimido como a única panaceia para todos os males, nem olhar para o psicólogo como o anjo da guarda que, sozinho, tudo resolve e tudo defende, qual entidade dotada de poderes divinos. Pensar as abordagens terapêuticas implica desafiar os preconceitos, quebrar estigmas e aprender com a evidência e com tudo aquilo que a ciência nos ensina. Numa altura em que os utentes, cada vez mais, compreendem que as respostas terapêuticas se configuram num sistema, urge refletir e desafiar ideias simplistas e preconcebidas.
Importa delinear caminho para que os serviços de Saúde se constituam como um verdadeiro sistema, que funcione com base na integração de intervenções e na disponibilização de propostas interventivas adequadas às necessidades. E, aqui, importa dotar os serviços dos recursos necessários às diferentes intervenções. Neste particular, há um amplo consenso sobre as lacunas na disponibilização de respostas psicoterapêuticas em Portugal, bem como evidência robusta sobre a sua efetividade, seja nos ganhos de Saúde, seja na racionalização dos recursos de Saúde e na poupança dos mesmos. A intervenção psicoterapêutica, numa lógica prospetiva, paga-se a si mesma, originando poupança de recursos e ganhos de Saúde relevantes.
A visão dicotómica entre a utilização da medicação e da psicoterapia, partindo de um princípio de exclusão de uma forma de intervenção em detrimento da outra, marcou e tende a marcar a discussão à volta da intervenção na saúde mental. O que se ganha na simplificação e economia de pensamento perde-se naquilo que realmente interessa: o desenvolvimento das melhores intervenções que potenciem o bem-estar dos utentes.
Tal só acontecerá se derrotarmos os estigmas associados a ambas as abordagens e procurarmos que a valorização da evidência seja uma condição sine qua non nas escolhas terapêuticas.
A evidência, os estudos existentes e a prática clínica apontam para o erro subjacente a essa dicotomia, com prejuízo para os utentes e para a sua saúde, encorajando a existência de abordagens personalizadas alicerçadas na integração de cuidados, concretizando a ideia de que a realidade é complexa, exigindo respostas alicerçadas na evidência, defendendo os utentes e os próprios sistemas de Saúde.
Os dados existentes permitem que possamos, de forma clara, concluir que existe uma indicação para diferentes tipos de intervenções para diferentes tipologias de situações. Se é tido como cada vez mais consensual que em muitos casos a abordagem integrada é a ideal, conjugando ambas as intervenções, há situações em que a intervenção psicoterapêutica se constitui como suficiente e indicada para que se verifiquem ganhos para os utentes.
Informação decorrente da investigação, mormente de meta-análises, e as orientações das entidades oficiais nacionais ou internacionais defendem que as pessoas podem melhorar com o auxílio da psicoterapia, dispensando a abordagem psicofarmacológica, desde que a sua situação o permita. Por exemplo, em quadros psicopatológicos depressivos e ansiosos leves, devidamente avaliados e diagnosticados, existem ganhos terapêuticos identificados como relevantes para os utentes.
Estes factos atestam a necessidade de os serviços se organizarem, respeitando as necessidades de utentes que, por exemplo, podem não passar pela psicoterapia, mormente naqueles que não adiram à intervenção psicoterapêutica e que a recusem.
Resumir o sofrimento humano à psicopatologia é um erro. Nem todas as dificuldades apresentadas pelas pessoas significam que exista uma patologia que implique uma intervenção psicofarmacológica. Importa evitar a medicalização do sofrimento psíquico, da mesma forma como há que evitar que os utentes não tenham acesso à medicação, quando dela necessitam. Os estigmas associados a ambas as abordagens têm de ser fraca artilharia contra a procura de ganhos terapêuticos para os utentes.
Falando da organização dos serviços de Saúde importa explorar alguns modelos de organização.
Os modelos de intervenção “stepped-care” providenciam uma forma de organizar os serviços e as respostas de ajuda aos utentes, baseando-se numa lógica de identificação das necessidades e de proporcionar respostas adequadas que, ao mesmo tempo, proporcionem uma racionalização dos recursos de saúde. Nestes modelos diferenciam-se, com base no rastreio e avaliação das situações, a natureza dos casos clínicos e definem-se as soluções a empreender que podem passar pela intervenção psicoterapêutica ou, em casos com uma natureza mais severa, pela intervenção combinada entre a psicoterapia e a intervenção psicofarmacológica.
Finalizando, e voltando ao Variações, há coisas que podem passar sem o comprimido, sendo a Psicologia um importante aliado do utente. E outras em que o comprimido, sendo essencial, é parte integrante da solução. O anjo da guarda ficará ao critério da fé de cada um.
Faça você mesmo…
Desafie os seus estigmas e preconceitos. Procure questionar-se sobre as visões que pode ter sobre as diferentes abordagens terapêuticas, de forma crítica, identificando e questionando eventuais ideias pré-concebidas que possa ter.
Coloque questões, sempre que tiver dúvidas. Questione os profissionais de Saúde sobre todos os aspetos relativos aos processos de tratamento em que intervém.
Valorize as conquistas da ciência e da ciência psicológica, em particular. Procure as abordagens baseadas na evidência, rejeitando as práticas pseudocientíficas e privilegiando profissionais capacitados e devidamente reconhecidos pelas ordens profissionais.
Pratique a assertividade. Seja um ator assertivo nos seus processos terapêuticos, questionando sobre as diferentes formas de intervenção existentes.
Consulte o portal Eu Sinto-me. A Ordem dos Psicólogos Portugueses criou o portal Eu Sinto-me, onde pode encontrar diversos conteúdos psicoeducativos sobre a intervenção na saúde mental.
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