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“Ótimo! Se é um problema é porque tem uma solução!”
Lembro-me da minha reação quando ouvi esta frase numa conferência há quase 20 anos - dahhh! Que óbvio! É mesmo isso!
Quantas vezes não tinha eu ficado presa (e quantas vezes ainda agora) no redemoinho das emoções negativas que o confronto com um problema nos traz. A tristeza, a raiva, a angústia, o desespero! Emoções que nos embrulham e nos turvam a perspetiva e nos lentificam a ação.
É muito provável que já lhe tenha acontecido. Muito provavelmente inúmeras vezes. Mas não se preocupe. Não é um problema apenas seu.
O foco no problema parece ser inevitável na condição humana. Na verdade, existem até motivos biológicos, educacionais, sociais, e psicológicos para tal.
Ora, vejamos:
Biológicos
Como ser vivo e entidade orgânica que obedece às leis da biologia, o nosso corpo está programado e equipado com diversos mecanismos regulatórios cuja única função é manter esse corpo vivo e, de preferência, a funcionar.
Justifica-se, portanto, que qualquer alteração percebida em si próprio, no outro ou no contexto, desencadeie o sistema de alerta. E nem precisa de ser muito grande, pois o nosso cérebro tende a sobrestimar os riscos, não vá passar alguma coisa despercebida.
Então, se há uma perturbação (mesmo que apenas percebida e não real) que pode ameaçar a vida, claro que o corpo vai reagir e ativar o sistema de resposta que é famosamente conhecido como flight or fight response (resposta de luta ou fuga), cujas principais manifestações são a produção de energia e o alerta dos sentidos. Ou seja, face a uma ameaça (percebida ou real) o que sentimos é uma ativação geral (muitas vezes designada por ansiedade) e uma hipersensibilidade sensorial (maior foco nos estímulos).
Resultado: sentimo-nos mal e vemos ainda mais detalhes no problema, o que nos leva a sentir pior e a considerar que o problema não tem resolução porque é de facto grave!
Educacionais
Ah, claro! Depois temos a escola.
Durante os primeiros 25 anos da nossa vida, de forma diária e repetida, todo o nosso desempenho é analisado, medido, comparado e valorizado em função dos erros que cometemos. O objetivo é sempre cometer o menor número de erros possível.
Até na matemática, onde o propósito é sempre encontrar uma solução para o problema, raramente é valorizado o processo ou a estratégia de resolução. É o erro num sinal, num dígito ou numa transformação que ditará a nota final.
Também no comportamento (talvez ainda mais) raramente encontramos professores que coloquem mais ênfase em momentos positivos do que negativos.
Por vezes até se ouve: “Sim, senhor! Hoje portaste-te muito bem!”, que quase sempre vem seguido do “Devia ser sempre assim!”
Resultado: mesmo depois de sairmos da escola continuamos a olhar para o nosso desempenho (e também dos outros) à procura do erro.
Sociais
Experimente o seguinte: lembre-se das últimas conversas que teve com amigos e família. Agora, procure fazer uma estimativa de quanto tempo duram essas conversas quando está a falar de alguma coisa que está a correr mal e quanto tempo demora a falar de alguma coisa que está a correr muito bem.
Por exemplo, estas férias de verão.
Para além de mostrar algumas fotos ou de dizer que foi maravilhoso, e que a comida era ótima e que estava calor e a água esteve quase sempre boa para entrar no mar, até pode contar um ou dois episódios dos miúdos ou alguma coisa caricata. Em menos de 5 minutos está despachada a história.
E se algo correu mal? Se os sogros apareceram sem avisar, ou se os miúdos estavam sempre agarrados ao telemóvel, ou se alugaram um carro e tiveram um assalto, ou se estava muita gente e nem se podia ir ao supermercado? Sim, quanto tempo está a falar desses episódios?
E quando alguém até tenta responder com uma solução? Quase ficamos incomodados, porque não nos estão a entender, ou nem nos estão a ouvir!
Cada vez que o fazemos, estamos, na verdade, a cumprir uma função social - criar laços. De facto, a investigação sugere que partilhar experiências e emoções negativas aproxima as pessoas, gera empatia e compaixão e reforça o suporte social.
Resultado: fazemos isto mais vezes e, sem darmos conta, estamos também a reforçar a nossa tendência para nos focarmos no problema.
Psicológicos
“O mau é mais forte do que o bom”. É o resultado do investigador Roy Baumeister, que diz que “as avaliações desfavoráveis e as experiências negativas influenciam mais as nossas decisões e emoções em comparação com as experiências positivas”. Ou seja, aqui está a justificação para aquela resposta típica quando está tudo a correr bem - “é o normal!”. Mas quando alguma coisa não está bem, mesmo que pequena, isso parece ser anormal e por isso temos de dedicar toda a nossa atenção e tempo, falamos mais sobre isso, pensamos nisso a toda a hora, não dormimos por causa disso.
Na verdade, o que é normal, é acontecerem coisas que não são propriamente desejadas porque são negativas. Tal como é normal acontecerem coisas desejadas porque são positivas.
Resultado: com a repetição da valorização da experiência negativa vamos construindo o que na psicologia chamamos o “viés da negatividade”.
Bom, com todas estas justificações, faz todo o sentido pensar - “não há solução!”
Lembrem-se: se é um problema, então talvez haja.
Aqui ficam algumas, para as respetivas categorias de motivos:
Biológico
Coloque mais atenção nas suas respostas às situações. Quando algo negativo estiver a acontecer e sentir um excesso de ativação (ou ansiedade), reconheça que é apenas o seu corpo a reagir. Escute-o com atenção e procure tranquilizá-lo. Diga-lhe “está tudo bem, tu consegues lidar com isto”.
Pode também colocar mais atenção nas reações do seu corpo quando algo positivo estiver a acontecer, mesmo que algo tão insignificante quanto alguém deixar passar à frente na fila do supermercado. Dê conta dessa sensação agradável. No final do dia vai agradecer.
Educacional
Se ainda é estudante, faça um registo do seu progresso numa ou várias matérias, sobretudo se não receber elogios ou reconhecimento dos professores. Pode também pedir aos professores que o façam. Isso é que seria uma experiência gira.
Se é pai, mãe, professor, ou até líder de equipa, procure assinalar de forma mais ou menos aleatória, ainda que imediatamente a seguir ao acontecimento, e reconhecer que o seu filho, aluno/a ou colaborador/a fez alguma coisa bem feita. Para ganhar um ponto extra, explique-lhe porque acha que foi bem feita, ou coloque o foco no processo mais que no resultado.
Social
Ui! Tantas possibilidades. Fale dos seus sucessos. Diga que se sente bem. Partilhe as estratégias que usou para conseguir resolver coisas que pareciam difíceis. Peça ajuda para resolver coisas que são difíceis. Ouça diferentes perspetivas e depois agradeça e partilhe essa experiência de ter pedido ajuda.
Psicológico
Desafie esse viés! Saboreie mais os momentos bons. Isso não significa apenas partilhar fotos das férias. Reviva os momentos que viveu com a família ou com os amigos. Foram de férias, houve uma festa? Falem disso ao jantar. Ah! E evite fazê-lo com o sentimento de nostalgia e de pena porque acabou. Riam-se novamente das peripécias ou recordem os dias bons de calor.
E, sobretudo, celebre de forma clara e intencional as conquistas. Mesmo as mais pequenas.
Uma nota final
Por vezes, tudo isto pode parecer mesmo muito difícil porque o redemoinho das tais emoções negativas está demasiado forte. Isso pode ser um outro problema, e a solução pode ser então procurar a ajuda de um/a psicólogo/a.
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