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Nos últimos anos, a sociedade tem vivenciado o surgimento de várias redes sociais que se tornam intrinsecamente ligadas às atividades de vida diária da comunidade, onde a hiperconexão, a hipervigilância e a hiperestimulação marcam os principais desafios emocionais e ambientais da saúde psicológica. Cada comportamento é impulsionado pela necessidade de pertença e de evitar a exclusão social, pelo medo de estar a perder experiências aparentemente importantes para a construção da identidade pessoal.
FOMO, ou “Fear of Missing Out”, é um fenómeno/estado psicológico que tem sido cada vez mais estudado na psicologia, é defenido como a sensação de sentir ansiedade por estar supostamente perdendo experiências sociais, eventos ou oportunidades que os outros estão a vivenciar e é cada vez mais comum na era das redes sociais. Investigadores como Przybylski definem FOMO como “uma apreensão generalizada de que outros possam estar vivendo experiências melhores, levando à compulsão por manter-se constantemente conectado”.
Na atualidade, os individuos vivem cada vez mais em modo “mediatizado”, havendo um descontrolo dos contéudos digitais, que contribui para um estado de alienação social, que vai fomentar um padrão de comportamentos no qual as relações “online” são vistas como uma zona de conforto e de defesa pessoal para compensar sentimentos de culpa, de frustração, de impotência, de incompreensão e de solidão, de forma a satisfazer as necessidades básicas.
As redes sociais são um fator preditor para desenvolvimento do FOMO. Cada contéudo que é visualizado mostra os melhores momentos, conquistas e experiências, o que leva a uma realidade enviesada, tendo uma perceção negativa de si, numa comparação constante com o outro, na tomada de decisões precipitadas que levam a procrastinação e a pensamentos ruminativos. Para os adolescentes que estão em fase de desenvolvimento da identidade e procuram intensamente a validação e aceitação do outro pode ser particularmos devastador para saúde psicológica.
O impacto do FOMo está associado a sintomas depressivos, ansiógenos, isolamento social, e uma menor satisfação geral com a vida, que intensifica numa constante hiperconectatividade com o mundo digital. Estes sintomas podem levar a consequências significativas na vida pessoal e profissional, afetando as relações interpessoais, o desempenho no trabalho, o bem-estar psicológico e físico e levando a uma maior vulnerabilidade psicopatológica.
De forma mais prática, existem várias estratégias, como a consciencialização e aceitação do sintoma e construir ferramentas de autocontrolo, que podem ajudar a combater estes efeitos negativos.
Algumas estratégias a utilizar
- Autoconhecimento e validação das emoções/pensamentos: saber identificar as suas habilidades, vulnerabilidades e emoções, o que leva a uma maior autoconsciência sobre si mesma;
- Práticas de mindfulness: O mindfulness convida-nos a ouvirmos a nossa voz interior, sem julgamento, através da atenção plena no momento presente e da conexão entre o corpo e a mente. Através da meditação, aumentamos o autoconhecimento, o amor-próprio e a autoestima;
- Fortalecer as relações presenciais e interações significativas com amigos e familiares;
- Cultivar as conexões profundas e com qualidade, em alternativa com a quantidade de interações digitais;
- Estabelecer limites e horários para o uso das redes sociais e focar no que é importante para o crescimento pessoal;
- Filtrar o conteúdo digital, isto é, evitar perfis que gerem comparações e ansiedade;
- Definir e estabelecer metas/objetivos pessoais e profissionais realistas;
- Procure ajuda profissional. Se a situação persistir no tempo e estiver a interferir significativamente com as rotinas de vida diária, é essencial procurar a ajuda de um profissional especializado, como um Psicólogo, para ajudar a desenvolver estratégias mais adequadas para gerir o FOMo de forma mais saudável e consciente.
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