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A Solidão
A solidão é um tema cada vez mais preocupante, em termos mundiais.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a solidão afetou 1 em cada 6 pessoas na população mundial (entre 2014 e 2023), e que é responsável por 871.000 mortes por ano (entre 2014 e 2019).
O relatório da OMS de 2025 apresenta a solidão como algo que afeta todas as idades e países, sendo, no entanto, mais expressiva nos adolescentes (20,9%) e jovem-adultos (17,4%), assim como nos países de baixos rendimentos, onde quase uma em quatro pessoas sente-se sozinha (24%). A Europa, por seu lado, tem a taxa mais baixa, em termos mundiais, cerca de 10%.
O paradoxo
Estes dados fazem-nos questionar, paradoxalmente, como é que sentimos cada vez uma maior solidão numa sociedade cada vez mais conectada online?
Para responder a esta pergunta, importa diferenciar, em primeiro lugar, solidão de isolamento social. A solidão é um sentimento subjetivo, avaliada através de vários fatores. O isolamento social, por seu lado, é um dado mais objetivo, que se reflete nos contactos sociais e na rede de suporte.
A solidão é percecionada por cada um de nós através de métricas internas, que vão desde a quantidade de relações sociais ou a frequência de contactos sociais, até ao conceito de pertença ou de propósito.
Vejamos agora alguns fenómenos sociais, ligadas à solidão e à interação online.
Personagem
Todos nós temos comportamentos diferentes consoantes os contextos sociais. Adaptamo-nos aos mesmos, segundo as regras e os intervenientes desse sistema.
Contudo, no mundo online o palco é mais evidente. A tendência a criar-se uma personagem que não é testada com a realidade, pode levar-nos a diminuir tão fortemente a nossa autenticidade, que por muitos contactos sociais que tenhamos, não existe uma validação sobre o retorno. Não é de nós que gostam, mas daquela personagem.
Esta desejabilidade social aumentada tende a aumentar a sensação de solidão.
Solidão acompanhada
Quantidade não é qualidade, e os contactos online podem dar uma falsa sensação de preenchimento social, quando na verdade, pela falta de qualidade das interações, fica um vazio.
A tendência frequente é preencher esse vazio com mais interações sociais, num deslizar com o dedo, que acaba ciclicamente nas sensações de vazio.
Esta solidão acompanhada é aquela de quem vai no autocarro ou metro cheio de gente, mas onde ninguém repara em ninguém.
As interações sociais online podem exponenciar esse efeito.
Anonimato
Se nos contextos sociais reais corremos o risco de passar despercebidos, a invisibilidade aumenta no digital.
Basta pensar numa aula presencial e numa aula online. Na aula presencial, mesmo que seja num anfiteatro, há sempre alguma interação social, nem que seja quando alguém se levanta para sair. Na aula online, para além de haver a possibilidade de a câmara estar desligada, a intervenção dos participantes é muito menor. E os tendencialmente anónimos, ou seja, os mais introvertidos, ainda ficam mais anónimos.
Quantos jantares existem depois de um curso presencial? E depois de um curso online? Quantas amizades se fez numa aula presencial? E numa aula online?
Se multiplicarmos isto pela quantidade de interações online que temos, vemos que é muito fácil passarmos despercebidos ou esquecidos. Se isso tem um lado positivo, em termos de privacidade, em termos de solidão é um fator de risco.
Estimulação sensorial
Uma das diferenças significativas entre uma interação social analógica e uma interação social digital é a estimulação sensorial.
Quando estamos com alguém no mundo real, estamos não só a ouvir e a ver a pessoa, como igualmente a sentir a pessoa, pela proximidade e interação física. O impacto sensorial em nós é diferente, mesmo que não haja toque, nem que seja pela vibração ou pela maior quantidade de estímulos sensoriais que estamos a absorver.
A vivência aproxima-se mais de uma experiência do que de uma simulação, e por isso tem maior impacto em nós.
Soluções
Para não ficarmos só com a visão negativa do tema, depois de apontar a estatística e alguns fatores de risco, vamos pensar em estratégias.
O online também pode ajudar a combater a solidão e ajudar a melhorar a nossa vida social. Para isso, basta usá-lo de forma ajustada e equilibrada.
Deixo aqui algumas sugestões de como promover este equilíbrio
- Procure autenticidade: procure ser mais próximo de quem verdadeiramente é, no mundo digital. Mesmo que seja diferente, que seja autêntico na mesma. Eu posso ser várias coisas, desde que não me esconda de mim.
- Procure qualidade: ter muitos amigos não significa ter bons amigos. Aqui é igual. Não consuma interações sociais de fraca qualidade, porque a sensação de vazio pode tornar-se um círculo vicioso.
- Procure experiências: não procure só sensações. Procure experiências. Procure realidade. Procure algo com princípio, meio e fim. Que tenha uma história para contar. Que não seja só no mundo digital, de preferência. Que não aconteça só dentro da mente, mas em todo o seu ser.
- Partilhe: a socialização é um bem essencial do ser humano. Partilhe. Dê. Receba. Cuide. Deixe ser cuidado. Aqui não precisa dividir-se. Multiplique-se.
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