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Há uns tempos um amigo dizia-me: “Sabes porque é que dizemos que encontramos as coisas sempre no último lugar possível? Porque a partir daí não procuramos mais!”
Talvez seja o mesmo com as pessoas.
Comecemos por clarificar:
O que faz uma pessoa certa?
Importa sublinhar que a pessoa certa não tem de ser a pessoa completa, ou por outras palavras, certo não é perfeito.
A Inteligência Artificial (IA)* faz este resumo da pessoa certa:
- Valores alinhados, ou seja, compatibilidade nas orientações para a tomada de decisão de assuntos do mundo, da família, de si próprio;
- Comunicação segura, ou seja, perceber que se é ouvido e que nos apetece ouvir o outro sem sentir desconforto;
- Disposição para resolver, ou seja, mais do que evitar zangas, ser capaz de as reparar;
- Reciprocidade, ou seja, equilíbrio no espaço e no tempo que cada um ocupa dentro da relação.
A IA está cada vez melhor a apresentar estes resumos. É um bom resumo. São linhas gerais ou indicadores que pode usar para analisar a pessoa que está aí à sua frente.
Usar a IA será sempre uma opção, claro, mas a certa altura teremos de ser nós a responder - “O que faz uma pessoa certa para mim?”
O que é que eu privilegio mais? - a comunicação, os valores, a reciprocidade... Ou nada disto e quero só alguém que me ouça, ou que que não me chateie, ou que goste de fazer os mesmos programas, ou que me deixe fazer as minhas coisas sem querer estar sempre comigo, ou com quem tenha bom sexo, ou que me ofereça muitos presentes, ou que me leve a dançar, ou que tenha muito dinheiro, ou que seja uma pessoa bonita?
Aquilo que eu mais valorizo será aquilo que eu irei procurar e, no limite, aquilo que vou encontrar.
O que faz uma pessoa errada?
Também teremos de dizer que não há pessoas erradas per se.
Já toda a gente ouviu a frase “one man's garbage is another man’s treasure”. E não faltam casos de pessoas que se divorciam de alguém que não pode ver à frente e que acha a pessoa mais detestável do mundo a começar a namorar com outra pessoa poucos meses depois. Esta pessoa não se terá transformado assim tão rapidamente.
Talvez não sejam as pessoas que estão erradas, mas as relações que são construídas de forma errada.
Ainda assim, consultando a IA, temos algumas red flags, ou seja, alguns sinais de alerta para algumas características que podem dificultar a construção de uma relação mais saudável
- incompatibilidade de valores, ou seja, alguém que defende, acredita ou vive de acordo com ideias e leituras do mundo muito diferentes e até incompatíveis com as nossas;
- comunicação violenta ou inexistente, ou seja, quando o que é dito agride ou silencia;
- egocentrismo, ou seja, quando o espaço ou o tempo que uma das pessoas ocupa excede em demasia o do outro;
- falta de confiança ou controlo, ou seja, quando o que fazemos, pensamos, dizemos, vestimos, decidimos, está sempre sob escrutínio e questionamento;
- inconsistência, ou seja, quando não sabemos o que esperar e nada é previsível ou antecipável;
O que faz uma pessoa suficientemente boa?
Talvez tenhamos de seguir a sugestão de Alain de Botton que, partindo de uma ideia original de Winnicott, afirma que talvez tenhamos de considerar que somos todos apenas suficientemente bons. E que isso já é muito bom!
É o mesmo Alain de Botton que diz que “Amar é olhar com generosidade” ou como já dizia o poeta “beauty is in the eye of the beholder”. Talvez a pessoa ser “certa” ou “errada” também seja definida pelo momento em que estamos na nossa vida (ou da outra pessoa).
Talvez a escolha de uma pessoa não tenha de ser a última, ao contrário dos objetos que encontramos e não procuramos mais.
Se for a errada, talvez mereça continuar a procurar.
O que podemos fazer (em qualquer altura da nossa vida)
-
O que ainda não sabe acerca de si próprio? Procure mais conhecimento acerca de si - do que gosta, do que não gosta, o que lhe traz conforto ou irritação, o que traz paz ou agitação. Quanto mais consciente de si, das suas preferências, dos seus valores e interesses, mais facilmente vai perceber o que é ou não incompatível, o que é certo ou errado.
-
Como pode conhecer mais pessoas? Todo esse processo de se conhecer melhor deverá acontecer em contexto social. Procure atividades que gosta e que aconteçam em grupo. Gosta de xadrez, junte-se a um clube. Gosta de fazer trilhos de caminhada, de jogos de tabuleiro, de bordar, atividades radicais, dançar, ler, andar de mota, fazer voluntariado? O que seja, procure fazê-lo em grupo. O bónus é poder conhecer as pessoas em contexto, que é a melhor forma de as conhecer também, e de perceber quão certas ou erradas podem ser para si.
-
Escolha com intenção. Tenha bem presente o que lhe importa e esteja bem presente para sentir isso que lhe importa. Namore, literal ou metaforicamente, a outra pessoa. Imagine-a em diferentes momentos e contextos da sua vida. Essa imagem traz-lhe desconforto ou insegurança? Então talvez não seja a pessoa certa, neste momento. Continue a procurar.
*Os critérios de pessoa certa e errada foram obtidos com IA, mas a sua explicação foi feita pela autora deste artigo
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