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Psicólogo e Presidente da Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O Psicólogo Responde: pensamentos intrusivos, o que são e como lidar sem entrar em pânico?

19 abr, 10:00
Pensamentos intrusivos (DR)

O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

De repente, surge a imagem de um acidente, de deixar algo cair da janela, de dizer algo humilhante em público. Esses pensamentos chegam sem aviso, parecem ridículos ou até assustadores, e deixam alguém a perguntar: “Será que sou anormal?” A resposta é simples: não é anormal - é humano.

O que são pensamentos intrusivos?

Pensamentos intrusivos são ideias, imagens ou impulsos que surgem de forma involuntária, sem que os tenhamos convidado.

Podem ser negativos, irracionais e até perturbadores, e provocar culpa, medo ou angústia. O que os torna especialmente incómodos é o conteúdo desagradável, a repetição e o desconforto moral ou emocional que geram.

Podem envolver acidentes, perda de controlo, comportamentos socialmente inaceitáveis, doenças ou morte. A maioria das pessoas tem, em algum momento da vida, um pensamento deste tipo.

No entanto, é importante compreender que fazem parte do funcionamento normal da mente e que tê-los não significa que a pessoa concorde com eles, nem que deseje agir de acordo com o seu conteúdo.

O que acontece na maioria das pessoas?

O pensamento intrusivo surge, é identificado como pouco relevante e acaba por desaparecer, sem desencadear rituais ou compulsões (isto é, a necessidade de fazer alguma ação).

Porque é que o cérebro "imagina o pior"?

Esta é uma hipótese com base evolutiva e adaptativa. O nosso cérebro funciona, em grande medida, como um sistema de antecipação e proteção. Para nos manter seguros, simula cenários, até os mais improváveis, como se testasse constantemente “e se...?”. Quando estamos mais ansiosos, cansados ou sob stress, este mecanismo intensifica-se, entra em modo de alerta e esses cenários tornam-se mais frequentes e vívidos.

Por isso, imaginar um acidente enquanto conduzimos, ou um desastre enquanto seguramos uma criança, pode ser menos um sinal de violência e mais um sinal de uma preocupação intensa com a segurança dos outros.

Exemplos de pensamentos intrusivos

Acidentes/tragédias: “E se o avião cair?”

Perda de controlo: “E se eu gritar numa reunião?”

Impulsos de se magoar (sem vontade real): “E se eu saltar daqui?”

Magoar alguém sem querer (ideias indesejadas): “E se eu empurrar alguém?”

Saúde/contaminação: “E se eu estiver doente e não souber?”

Dúvida/verificação: “E se deixei o gás ligado?”

Religião/moral: “E se eu for uma má pessoa por pensar isto?

Sexuais indesejados (sem desejo): “E se eu pensar algo sexual inapropriado agora?”

Morte/perda: “E se eu perder quem amo?”

Quando é apenas "normal" e quando é motivo de atenção?

A grande diferença não está tanto no conteúdo do pensamento, mas na forma como reagimos a ele. Ter, de vez em quando, uma ideia estranha e conseguir pensar: “É só um pensamento, não define quem eu sou”, é funcional. Já quando essas ideias se tornam repetitivas, invasivas e acompanham rituais mentais (repetir palavras, rezar, verificar mentalmente…), podem estar associadas a uma Perturbação Oobsessivo‑Ccompulsivao (POC) ou a outras perturbações de ansiedade.

Como lidar sem perder a cabeça

Lutar contra o pensamento (“não posso pensar nisso”) costuma reforçá‑lo.

Uma alternativa mais eficaz pode passar por:

  1. Aceitar que o pensamento é um evento mental, não uma intenção;
  2. Deixar o pensamento passar, sem lhe dar poder nem juízo moral;
  3. Re-orientar a atenção para o que se está a fazer no momento (respirar, observar o ambiente, focar na tarefa);.
  4. Quando o impacto na vida diária é elevado, recorrer a um psicólogo pode ajudar a compreender o padrão e a quebrar o ciclo, assim como personalizar estratégias para gerir melhor estes pensamentos.

Um convite para olhar com menos medo

Ter pensamentos intrusivos não significa que estejamos “loucos” ou “doentes”. Significa que temos um cérebro complexo que, por vezes de forma excessiva, tenta proteger-nos num mundo cheio de incertezas.

Em vez de combater o pensamento, podemos aprender a recebê-lo como um convidado inconveniente, mas passageiro. E, se o desconforto for intenso, procurar ajuda não é sinal de fragilidade - é um ato de cuidado consciente com a própria mente.

Lembrar que todos temos pensamentos intrusivos em algum momento da vida - e que eles não nos definem como pessoas - pode ser essencial para preservar o equilíbrio emocional e o bem-estar psicológico

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