O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt
Vivemos atualmente numa sociedade cada vez mais conectada, em que as fronteiras entre a vida pessoal e a vida profissional se têm vindo a esbater, de uma forma muitas vezes pouco saudável e harmoniosa. A ilusão que os meios de comunicação nos dão de estarmos sempre disponíveis, as alterações dos contextos e das realidades laborais e a pressão para atingir metas e resultados cada vez mais exigentes são alguns dos argumentos que levam os trabalhadores a ultrapassar as horas de trabalho estabelecidas, com consequências para si, para as suas relações, para a sua saúde, para a sua produtividade e, paralelamente, para o próprio contexto social e laboral. Nesse sentido é cada vez mais importante refletirmos sobre formas de encontrar um equilíbrio saudável entre o nosso contexto pessoal e o nosso contexto profissional, a fim de aumentarmos o bem-estar e a saúde psicológica e reduzirmos a possibilidade de desenvolver doenças decorrentes do excesso de trabalho ou de contextos profissionais pouco saudáveis e comprometermos os próprios contextos de trabalho.
Conciliar a vida profissional com a pessoal é um desafio comum. Muitas carreiras são tão exigentes que os profissionais acabam por ultrapassar as horas de trabalho, para cumprir os objetivos que lhes são impostos, para demonstrar dedicação ou alcançar posições com melhores remunerações ou até para fazer face ao aumento das despesas familiares acumulando para tal diversos trabalhos. Esse excesso pode prejudicar a saúde, a qualidade de vida, as relações interpessoais e até a motivação para as próprias atividades laborais, comprometendo a capacidade individual para fazer face às tarefas e para aproveitar momentos importantes com a família e amigos.
Um dos primeiros pontos a termos em atenção é que não devemos permitir que uma destas áreas da nossa vida se sobreponha à outra – é de extrema importância aprendermos a definir limites de modo a não trabalhar em excesso a ponto de
esquecer a vida fora do emprego, mas também não nos focarmos apenas na vida pessoal, negligenciando o nosso trabalho e as nossas responsabilidades laborais.
Uma outra questão a ter em consideração prende-se com o fato de, mesmo contradizendo a famosa frase popular que afirma que “quando encontramos um trabalho de que gostamos, não temos que trabalhar para o resto da vida”, o nosso corpo precisa de tempo para descansar, para praticar exercício físico, para se alimentar saudavelmente e para despender tempo com relações emocionalmente gratificantes.
Um terceiro ponto abrange ainda as novas formas de encarar os contextos de trabalho, podendo estes ser presenciais, remotos ou híbridos. Embora cada um destes contextos possa apresentar vantagens e desvantagens, o contexto remoto pode implicar uma maior a necessidade de definir limites assertivos entre a vida pessoal e profissional, uma vez que o mesmo espaço acaba por ser palco de ambos os contextos.
Estabelecer limites saudáveis é fundamental para manter o bem-estar emocional, a autoestima, a qualidade das nossas relações e a nossa produtividade. Muitas vezes, temos dificuldades em dizer "não", em comunicar as nossas necessidades e os nossos limites de forma assertiva, o que, frequentemente, se traduz numa sensação de desgaste e de sobrecarga laboral que pode culminar em quadros de burnout (síndrome de esgotamento profissional, altamente incapacitante). A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), que tem promovido a reflexão sobre este tema, inclusive com a publicação de alguns artigos e de um episódio do programa de podcast EU SINTO.ME sobre o assunto.
Mesmo quando se trabalha em algo em que realmente se gosta, uma vida em que o excesso de trabalho esteja habitualmente presente, pode prejudicar de forma significativa a nossa saúde física e emocional, bem como comprometer as nossas relações interpessoais.
Como tal, é fundamental refletir e implementar limites que promovam um equilíbrio saudável entre as relações pessoais e profissionais, nomeadamente:
- Trabalhar no autoconhecimento e procurar ouvir as suas necessidades pessoais e os seus limites. O primeiro passo para termos relações saudáveis é entender quais os limites que são aceitáveis e que estão alinhados com as emoções, valores e crenças pessoais. Quanto mais consciente estiver das suas características, mais fácil será comunicar os seus limites de forma assertiva.
- Comunicar de forma clara, assertiva e consistente. Expressar os seus limites de maneira direta, sucinta e respeitosa é essencial para se ser compreendido. Evite justificações excessivas, que podem funcionar como ruído na comunicação e condicionar a clareza da mensagem. A assertividade ajuda a evitar mal-entendidos e reforça o respeito por si mesmo e pelos outros.
- Aprender a dizer "não" sem culpa. Dizer "não" é uma habilidade que requer prática e autoconhecimento. No entanto, é importante aceitar que nem sempre as pessoas vão concordar ou entender os seus limites, mas isso faz parte do processo de gestão das diferenças interpessoais.
- Estabelecer limites consistentes. A consistência é fundamental para que seus limites sejam respeitados.
- Desconetar-se fora do horário de trabalho. Evite verificar e-mails ou mensagens de trabalho fora do horário estabelecido para garantir tempo de qualidade para si e para a sua família e amigos e para relaxar e saborear a vida.
- Estabelecer um horário fixo. Definir um horário de trabalho que separe claramente o tempo profissional do pessoal. Isso ajuda a criar uma rotina e a estabelecer limites para si e para as pessoas com quem trabalha.
- Ter presente a importância do autocuidado. Ter uma boa autoestima ajuda a estabelecer limites com mais facilidade, pois reconhece as suas necessidades. Pratique o autocuidado, valorize suas conquistas e lembre-se de que seus limites são uma expressão de amor próprio.
- Priorizar atividades pessoais. Reservar tempo para hobbies, atividades em família e cuidados pessoais é essencial. Essas pausas ajudam a recarregar as energias.
- Esteja atento às relações abusivas. Estabelecer limites também implica reconhecer quando uma relação está a ser prejudicial para o seu bem-estar. Se alguém ultrapassar os seus limites constantemente, desrespeitar as suas opiniões ou condicionar o seu bem-estar, é importante avaliar a continuidade dessa relação e necessidade de pedir apoio aos superiores.
- Procure apoio especializado se precisar. Estabelecer limites pode ser uma tarefa desafiadora, especialmente em relações próximas ou em ambientes profissionais. Não hesite em procurar ajuda de um psicólogo que o ajude a desenvolver estratégias de comunicação assertiva e fortalecer sua autoestima.
O equilíbrio trabalho-vida pessoal promove benefícios significativos no dia-a-dia:
- Reduz a possibilidade de desenvolver um quadro de burnout e stress, uma vez que previne o esgotamento profissional e diminui os níveis de stress;
- Melhora a saúde física e mental, contribuindo para a redução de ansiedade, depressão e problemas físicos;
- Aumenta a produtividade e satisfação com o contexto laboral, dado que trabalhadores com melhor equilíbrio tendem a ser mais produtivos e apresentar níveis de satisfação com o seu trabalho e realização pessoal mais elevados;
- Potencia as relações interpessoais, uma vez que tempo de qualidade para os relacionamentos com a família e amigos, previne problemas conjugais e parentais.
Alcançar o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal é crucial para prevenir o burnout, reduzir o stress e melhorar o desempenho profissional e a satisfação.
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