opinião
Psicólogo e membro da direção da Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O Psicólogo Responde: como perceber se um adolescente está a passar por depressão ou apenas por "fases"?

28 dez 2025, 10:00
O Psicólogo Responde

O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

A adolescência é uma fase normalmente marcada por emoções intensas, de mudanças rápidas e, por vezes, de grandes silêncios. Tudo isto é normal, natural e em linha com o amadurecimento emocional que ocorre nesta fase. É normal que um adolescente se isole, discuta mais, ou tenha dias em que se sente incompreendido ou até um “alien” dentro do seu próprio grupo de amigos e/ou família.

O grande desafio de pais, professores e familiares é perceber quando esses comportamentos fazem parte do processo normativo do crescimento ou, pelo contrário, quando são sinais de algo mais sério.

Tristeza não é depressão, mas é preciso estar atento

Crianças, adolescentes e adultos. Todos nós ficamos tristes de vez em quando, contudo, no caso dos adolescentes, a tristeza pode surgir e agudizar-se por razões bastantes particulares: notas abaixo do esperado, quezílias com amigos ou uma desilusão amorosa – todas elas, naturalmente, acabam por melhorar com o tempo.

No entanto, na depressão, o cenário é diferente e existem alguns sinais a que podemos estar atentos: a sensação de mau estar é mais pronunciada, por vezes sem uma causa ou razão aparente, estendendo-se de forma consecutiva durante mais tempo e começa a afetar o dia a dia de forma significativa. O jovem deixa de sentir prazer nas coisas que antes gostava, perde energia, o rendimento escolar desce e o isolamento aumenta. Já não se trata apenas de “mau humor”, mas de uma tristeza que se instala e não desparece.

Alguns sinais e sintomas a que devemos estar atentos

A depressão nem sempre se manifesta com o padrão que esperamos – seja através de lágrimas ou tristeza. Em muitos adolescentes, os sinais mais precoces e prevalentes são a pouca tolerância às dificuldades, associada a elevada irritabilidade, apatia ou ao afastamento de amigos, família e atividades de interesse (hobbies, desportos, dinâmicas sociais).

Outros sinais frequentes que podem indicar motivos para estar alerta incluem:

· Alterações no padrão de sono (hipersónia ou insónia);

· Mudanças no apetite (come menos ou mais do que o habitual);

· Falta de energia ou cansaço constante;

· Frases depreciativas como “não sirvo para nada” ou “era melhor desaparecer”, que se repetem em diferentes contextos;

· Dificuldades na concentração;

· Alteração significativa no rendimento e interesse escolar;

A presença destes sinais, isoladamente, não significa necessariamente depressão, porém, quando aparecem em conjunto e se mantêm presentes, é importante procurar ajuda.

Porque é tão difícil identificar?

A adolescência é uma fase de grande labilidade emocional, seja para os próprios adolescentes que, através das suas escolhas diárias (muitas delas conflituantes e com mudanças bruscas), vão definindo o que desejam ser como indivíduos, como também para os pais e progenitores que, na ânsia de ajudar e perceber, se podem sentir incapazes e inabilitados a lidar com estas mudanças.

O cérebro do adolescente está ainda em desenvolvimento, o córtex frontal – responsável, entre outras coisas, pelo controlo dos impulsos e regulação das emoções - é ainda frágil, bem como a necessidade de afirmação no mundo que os rodeia tornar tudo mais intenso.

Além disso, muitos adolescentes têm dificuldade em falar sobre o que sentem, sentindo vergonha em pedir ajuda por risco de serem estigmatizados, colocados de parte ou até que as suas emoções sejam desvalorizadas pelos pares e/ou familiares. Por todas estas razões, o surgimento de uma depressão pode disfarçar-se sob a forma de irritação, desinteresse ou rebeldia, tornando-a difícil de diferenciar do teste de limites que naturalmente ocorre nesta fase.

O papel importante dos pais e dos adultos presentes

Mais do que dar conselhos, o essencial é escutar e estar presente para o adolescente. Evitar dizer frases como “isso passa”, “não tens razão nenhuma para estar assim” ou até “tens tudo para estar feliz” ajuda a que o jovem não se sinta desvalorizado e encontre, no seu próprio tempo, um espaço para se poder exprimir.

Em alternativa, pode ser mais útil dizer algo como: “tenho reparado que tens estado diferente, queres conversar sobre isso?” – reforçando o sentido de presença, respeitando o espaço e tempo próprio do adolescente.

Os professores e educadores têm também um papel fundamental, já que muitas vezes são os primeiros a notar mudanças no comportamento ou no desempenho escolar- sendo essencial uma articulação e comunicação frequente entre o contexto escolar e familiar.

Existem soluções, e começam por pedir ajuda

A boa notícia é que a depressão tem tratamento e bom prognóstico quando é identificada atempadamente. A psicoterapia estará, na maioria dos casos, na primeira linha de resposta no que concerne à intervenção.

Contudo, em casos detetados mais tarde ou com outras comorbidades, pode ser necessária uma intervenção médica complementar. A mensagem a reter é não deixar o adolescente sentir-se sozinho no problema - o isolamento é o terreno fértil onde a depressão facilmente cresce. Com apoio profissional, empatia e tempo, é possível recuperar o equilíbrio e voltar a sentir prazer nas pequenas coisas.

Em resumo

Nem toda a tristeza é sinal de depressão, mas quando identificamos uma tristeza pronunciada, que se arrasta no tempo e vem acompanhada de um afastamento gradual do adolescente dos seus interesses, não devemos ignorar. Saber distinguir “uma fase” de uma depressão é, acima de tudo, um ato de cuidado - ato esse que pode ser o primeiro passo para salvar um jovem que, por vezes, não consegue pedir ajuda por si próprio.

VEJA TAMBÉM:

Saúde Mental

Mais Saúde Mental