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Psicóloga e membro da Direção da Delegação Regional do Centro da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O Psicólogo Responde: que técnicas podem ajudar a controlar crises de ansiedade?

7 set 2025, 10:00
Ansiedade

O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

Preocuparmo-nos faz parte da experiência humana. É uma forma de mostrarmos cuidado e responsabilidade, seja connosco, com a nossa família, com o nosso trabalho, com o dia-a-dia ou até com o futuro. Esta tendência natural ajuda-nos a antecipar os desafios quotidianos e a procurar soluções para possíveis problemas e funciona como um mecanismo de proteção que nos ajuda a estar mais aptos para gerir de forma construtiva os vários desafios com que nos podemos ir deparando ao longo da vida. No entanto, quando a preocupação se torna excessiva e começa a interferir de forma significativa no bem-estar diário é sinal de que pode ser necessário parar, refletir e procurar estratégias para recuperar o equilíbrio.

Podemos considerar que é natural e saudável sentirmos momentos de preocupação ao longo do dia, quer com os desafios que podemos estar a vivenciar como também com eventuais situações que podem vir a influenciar o nosso bem-estar e a nossa felicidade ou até com as incertezas que o futuro nos pode ainda reservar.

A preocupação pode ser vista como uma forma de demonstrar cuidado e interesse pela nossa segurança e bem-estar ou como uma forma de encontrar medidas preventivas que permitam evitar potenciais perigos ou ameaças que possam afetar o nosso funcionamento equilibrado.

A preocupação pode também ser entendida como uma forma de demonstrar amor e cuidado, espelhada nos gestos que temos com aqueles que nos rodeiam, como forma de mostrar o quanto os valorizamos e o quão importantes são para nós.

A ansiedade, por sua vez, é uma resposta natural do corpo a uma ameaça percebida, e surge com o propósito de nos preparar para lidar com uma situação de potencial perigo, uma vez que nos deixa em alerta e nos impele a agir para nos mantermos seguros.

Embora a ansiedade possa ser protetora em certas circunstâncias, esta também pode ser uma resposta bastante desajustada, nomeadamente quando surge em momentos em que não há perigo real ou quando é desproporcional à ameaça percebida, e causa sintomas físicos e emocionais que interferem de forma muito significativa com o nosso bem-estar. Se as manifestações de ansiedade nos sobrecarregarem ou se o nível de ansiedade for elevado durante longos períodos, o nosso desempenho poderá ser afectado e torna-se mais difícil lidar com a nossa vida quotidiana.

Paralelamente, também as características dos contextos nos quais estamos inseridos podem influenciar o nosso comportamento enquanto indivíduos. Uma rotina muito agitada, exigências profissionais e familiares constantes, a competitividade, a diminuição de redes sociais de apoio, os desajustes familiares, o desconhecido e o inesperado são alguns dos fatores que podem favorecer um estado de alerta, apreensão e preocupação, que é natural do ser humano nestas situações.

Importa ainda reforçar que, segundo a Organização Mundial da Saúde, 33% da população mundial sofre de ansiedade, sendo esta percentagem bastante significativa.

Paralelamente, pais ansiosos tendem também a ter estratégias de evitamento pouco saudáveis para lidar com a ansiedade, minimizando ao máximo situações desafiadoras e superprotegendo os seus filhos. Estas atitudes podem igualmente limitar a capacidade das crianças para aprender a enfrentar os desafios da vida de forma saudável, uma vez que não treinam a sua capacidade de resolução de problemas e não desenvolvem os seus recursos individuais para lidar com as situações de forma autónoma.

A ansiedade é uma resposta natural do corpo a situações de stress e preocupação, mas quando se torna demasiado intensa ou frequente, pode interferir significativamente com a nossa qualidade de vida. Aprender a gerir a ansiedade é um processo gradual em que aprendemos a relacionarmo-nos de forma mais ajustada com os nossos pensamentos ou sentimentos.

De entre os vários modelos de intervenção nos quadros de ansiedade disfuncional, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das abordagens mais estudadas e validada na compreensão dos processos ansiedade e identificação de estratégias de regulação emocional.

De entre as várias estratégias possíveis, importa:

  • Reconhecer e questionar os pensamentos automáticos. Muitas vezes, a ansiedade surge de interpretações exageradas ou catastróficas (“E se algo correr mal?”, “Não vou conseguir lidar com isto”). Em vez de aceitar estes pensamentos como verdades absolutas, faça uma pausa e pergunte-se:

    Que evidências tenho de que este pensamento é verdadeiro?

    Já ultrapassei outras situações que contradizem este pensamento?

    Existe uma forma mais equilibrada de olhar para a situação?
     
  • Praticar a respiração diafragmática. Respirar de forma lenta e profunda ajuda a regular a resposta fisiológica da ansiedade.
     
  • Fazer uma exposição gradual às situações temidas. Evitar constantemente o que gera ansiedade pode reforçar o problema e aumentar o evitamento. Uma das possíveis estratégias é a exposição gradual: enfrentar progressivamente as situações que provocam desconforto, de forma planeada e estruturada, permitindo que a ansiedade se vá minimizando nessas situações, lentamente.
     
  • Reestruturar o estilo de vida. O corpo e a mente estão profundamente ligados. Hábitos simples podem ajudar a reduzir a vulnerabilidade à ansiedade:

    Dormir de forma regular

    Manter uma alimentação equilibrada

    Praticar exercício físico moderado

    Limitar o consumo de cafeína, álcool e nicotina

    Rodearmo-nos de pessoas que nos transmitem segurança

    Limitarmos as conversas sobre problemas e catástrofes - não nos podemos esquecer que as emoções são contagiosas
     
  • Praticar a atenção plena (mindfulness) e procurar estar mais no presente. A ansiedade vive muito no “e se” do futuro. O mindfulness ajuda a trazer o foco para o momento presente, sem julgamento. Pode começar com pequenos exercícios, como prestar atenção consciente à respiração ou às sensações do corpo.
     
  • Se sentir que a ansiedade está a ter um impacto significativo na sua vida, procurar apoio profissional é um passo importante.

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