Luís Neves, o novo ministro da Administração Interna, rejeita que haja ligação entre "segurança e imigração", algo que "nem sempre tem sido o discurso do Governo". Governo esse que acaba de escolher Luís Neves "contra o Chega".
Pacheco Pereira considera “excelente” a escolha de Luís Neves, salientando a receção positiva “em praticamente todo o espectro político, com exceção do Chega”. Em declarações no programa "Princípio da Incerteza", na CNN Portugal, o comentador sublinha que Luís Neves é “um homem duro contra o crime e duro contra a desinformação”, o que atinge diretamente a narrativa do partido de André Ventura.
"E essa excepção é muito significativa porque este homem é duro contra o crime e é duro contra a desinformação e esta segunda parte atinge diretamente tudo aquilo que é um dos elementos fundamentais da propaganda política do Chega, que são falsidades sobre a situação de insegurança, sobre o papel dos imigrantes nessa insegurança - e tem sido sistematicamente confrontado com as declarações de um homem que trabalha nessa área e que vai ser Ministro da Administração Interna."
Para Pacheco Pereira, “o Governo está em baixo e, excecionalmente, escolheu bem". "Mas escolheu contra o Chega - o Governo está numa fase, e tem que ver com a discussão no Parlamento e tudo, de confronto com o Chega”.
Sempre distinguiu "factos de perceções"
Alexandra Leitão considera tratar-se de uma excelente escolha, sublinhando a experiência do até aqui diretor nacional da Polícia Judiciária e a sua postura pública baseada em dados, distinguindo criminalidade real de perceções de insegurança.
A comentadora da CNN Portugal diz não ter ficado “muito surpreendida”, mas admite alguma surpresa pelo perfil escolhido não coincidir totalmente com o discurso securitário do Governo - e diz ver nisso um sinal positivo de possível inflexão política e de maior rigor no debate público.
"Acho que o Luís Neves é um homem com muita experiência, conhece muito bem o setor das forças de segurança, enfim, a Polícia Judiciária é uma polícia que tem características específicas mas não deixa de pertencer a seu universo e acho que é uma pessoa com excelentes características e, portanto, acho uma ótima escolha, devo dizer", afirma Alexandra Leitão, destacando a experiência, a capacidade de comunicação e o discurso assente em dados.
A deputada sublinha que Luís Neves sempre distinguiu "factos de perceções" e que rejeitou a ligação entre insegurança e imigração, algo que, segundo disse, “nem sempre tem sido o discurso do Governo”.
"O facto de haver uma percepção de insegurança, já o disse muitas vezes e vou reiterar, é suficientemente grave para que tenhamos que olhar para isso e para que tenhamos que ir ao encontro de resolver esse porquê dessa percepção de insegurança, mas não nos deve tapar os olhos relativamente àquilo que são factos e, hoje em dia, infelizmente, a política assenta muito em percepções, redes sociais, desinformação e menos em factos. Luís Neves disse na Assembleia da República, em discursos públicos, em debates públicos, que, por um lado, não havia mais insegurança em Portugal, que os dados estatísticos demonstravam e demonstram que não há mais insegurança em Portugal - referiu que havia sim, em parte por desinformação e em parte por outras razões, uma perceção de insegurança; Luís Neves fez ainda uma outra coisa, que foi claramente dissociar e rejeitar qualquer ligação entre insegurança e imigração. Fê-lo várias vezes, sempre de forma fundada, sempre de forma criteriosa, sempre de forma rigorosa", sublinha Alexandra Leitão.
"Não é criminalidade violenta, mas desgasta muito a tranquilidade das pessoas”
Pedro Duarte considerou que “todo o país ficou surpreendido” e falou numa “excelente cartada do primeiro-ministro”. O autarca do Porto e ex-ministro da AD defende que a nomeação é coerente com a linha governativa e rejeita que o Executivo tenha confundido imigração com criminalidade - o que o Governo faz, sublinha, é dizer que há problemas reais de pequena criminalidade nos grandes centros urbanos.
"Percebo que há um certo comentariado que ainda não percebeu muito bem aquilo que é o posicionamento do Governo face a esta matéria. Não se encontra uma única afirmação do primeiro-ministro a confundir-se segurança com imigração. Não existe isso. Não é verdade. Mas diz-se muitas vezes que isso aconteceu, tantas vezes se diz que já entrou na crença das pessoas. Ora, não é verdade, tem havido sempre um cuidado extremo para que isso não seja feito e há uma coerência absoluta entre uma coisa e outra. Aliás, o dr. Luís Neves estava a servir o Governo, em certo sentido, o país, mas através de uma nomeação governamental, precisamente já feita por este Governo, e portanto havia um alinhamento já anterior, não vai passar a haver agora. E, desse ponto de vista, acho que há alguns fantasmas que se criam que não são muito reais."
Pedro Duarte considera Luís Neves "um homem muito bem preparado" e realça que isso "não quer dizer que não vai enfrentar desafios - naturalmente tem desafios grandes pela frente".
"Um deles está de facto na reforma do sistema de proteção civil. É claro hoje em dia que ele tem ali uma empreitada grande pela frente. Mas a outra tem que ver com alguma insegurança e eu falo deste tema a propósito daquilo que a Alexandra pertinentemente levantou, daquilo que são perceções e que são factos. Há um problema objetivo, nomeadamente nos grandes centros urbanos, Porto e Lisboa - eu conheço melhor o Porto, como compreenderão -, há um problema objetivo, e o problema não é só de perceção, também há um problema de preconceção, mas não é só há factos que têm que ver com uma criminalidade que não está reportada nos relatórios, nomeadamente no RASI. Não é criminalidade violenta, mas desgasta muito a tranquilidade das pessoas”, afirma, apontando a necessidade de reforçar a PSP.