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"O Padrinho" chegou a uma pequena aldeia siciliana e esta nunca mais foi a mesma

CNN , Silvia Marchetti
2 mai, 17:00
Sicília (getty)

Quando Francis Ford Coppola escolheu Enza Trimarchi como figurante em "O Padrinho", em 1971, a costureira de 22 anos não fazia ideia de que estava a participar em algo que iria mudar a sua cidade natal e marcá-la durante décadas.

Trimarchi apareceu numa sequência siciliana fundamental: o casamento do futuro chefe da máfia Michael Corleone com Apollonia Vitelli, filmado na aldeia de Savoca, no topo de uma colina. Para ela, a chegada de Coppola e da estrela do filme, Al Pacino, marcou o fim da adolescência num lugar onde a vida pouco tinha mudado ao longo de séculos.

“Fui abordada por um dos membros da equipa de Coppola, que me perguntou se eu queria trabalhar”, conta Trimarchi, agora com 76 anos, à CNN. “Tantas pessoas de toda a província tinham vindo para serem selecionadas. Eu estava entusiasmada, tão jovem. Não havia nada em Savoca, não tínhamos água corrente e bebíamos a água da chuva da cisterna. Nem sequer tínhamos televisão.”

Mais de 50 anos depois, Savoca - onde vivem menos de 100 pessoas - continua intimamente ligada ao filme. Dos locais sicilianos utilizados para o exílio de Michael Corleone, é o mais visitado.

A aldeia abraçou essa associação, apesar de o turismo que ela traz ter transformado a vida quotidiana e contribuído para a romantização dos estereótipos da máfia.

Rodeada por pomares de citrinos e olivais, Savoca recebe agora um grande número de visitantes entre abril e outubro. Os passageiros de cruzeiros que chegam ao porto siciliano de Messina participam frequentemente em visitas guiadas “Il Padrino” - “O Padrinho” em italiano - que incluem a pequena aldeia, bem como o vizinho Castello Degli Schiavi, uma villa do século XIX na vizinha Fiumefreddo, onde a personagem de Pacino ficou hospedada.

Trimarchi diz que, por vezes, as agências de viagens pedem-lhe para receber os visitantes, dar autógrafos e falar sobre o filme.

“Pode ser exaustivo, e eu faço-o de graça, enquanto tantas outras pessoas, também nesta aldeia, ganharam imenso dinheiro graças a “O Padrinho”“, conta.

Buzinas, turistas irritados

Os habitantes locais de Savoca, Enza Trimarchi e Vincenzo Pasquale, foram ambos escalados como figurantes na cena do casamento em “O Padrinho”. Trimarchi está mesmo atrás do ombro direito de Pacino nesta imagem. Paramount/Kobal/Shutterstock

Na própria aldeia, a mudança tem ocorrido gradualmente. Um pequeno número de bares, pensões - incluindo uma chamada Il Padrino - e lojas de souvenirs funcionam agora ao lado de edifícios mais antigos que permanecem praticamente inalterados no seu traçado medieval.

Na época baixa, Savoca permanece tranquila. As suas ruas estreitas de pedra e passagens em arco ligam casas construídas na encosta.

O legado do filme é mais visível ao longo do percurso da igreja até à praça principal, onde os visitantes tiram fotos recriando cenas da sequência do casamento, e no Bar Vitelli, onde Michael Corleone pede Apollonia em casamento.

Os habitantes locais referem que Savoca já tinha algum turismo limitado mesmo antes do filme, principalmente proveniente das zonas costeiras próximas, mas dizem que não era economicamente significativo.

“Desde que os cruzeiros chegaram, há cerca de 20 anos, os turistas são avassaladores”, diz Vincenzo Pasquale, de 72 anos, que foi escolhido como figurante aos 18 anos para interpretar um dos filhos do signor Vitelli, o proprietário do Bar Vitelli. “Em alguns dias, eles lotam as ruas e eu preciso buzinar para conseguir passar. Alguns ficam zangados.”

Pasquale disse que o interesse pelo filme aumentou com o tempo, em vez de diminuir.

O Bar Vitelli, localizado num edifício do século XV, tornou-se a principal paragem turística da aldeia e atende visitantes durante todo o dia. Durante a época alta, o acesso é por vezes restringido devido à aglomeração. Os proprietários do bar abriram um hotel boutique no andar de cima.

As filmagens em Savoca duraram apenas algumas semanas no verão de 1971, mas continuam a ser uma memória marcante para os envolvidos.

Al Pacino e Simonetta Stefanelli nos papéis de Michael Corleone e Apollonia Vitelli durante as filmagens do casamento. Everett Collection

Trimarchi recorda que Coppola revelou ter um gosto por doces, comendo até dez granitas, uma sobremesa siciliana feita de gelo picado, acompanhadas por um biscoito zuccarata coberto de açúcar. “Ele adorava-as, acho que nunca tinha provado uma antes ou talvez isso lhe desse alívio do calor”, recorda.

As granitas, recorda ela, eram feitas com água do mesmo poço que abastecia a aldeia e a produção cinematográfica.

“Durante as filmagens, toda a gente, nós, os figurantes, a equipa, o elenco e os aldeões, bebíamos essa água”, explica Trimarchi. “Bebíamos tanta água que as cisternas da aldeia ficaram secas durante algum tempo.”

"Ela arrastou-me para fora da cama"

O Bar Vitelli, que apareceu em “O Padrinho”, é agora um local de peregrinação para os fãs de cinema que visitam Savoca. Raimund Franken/imageBROKER/Shutterstock
Foi nesse bar que Michael Corleone, interpretado por Al Pacino, pediu a mão da filha do dono do bar em casamento. Paul Rovere/Getty Images

Antes do lançamento do filme, o Bar Vitelli era conhecido localmente por um nome diferente e gerido por Maria D’Arrigo, uma moradora da aldeia que, segundo o historiador local Salvatore Coglitore, recebia frequentemente o elenco e a equipa de filmagem após dias de rodagem.

“Ela servia-lhes queijo tumà fresco com salame feito com carne local, beringelas e tomates em azeite e vinho da casa”, explica Coglitore à CNN. “Ela nunca quis ser paga, por isso, quando Coppola lhe ofereceu um cheque em branco no final das filmagens, ela rasgou-o em pedaços, dizendo que o tinha feito pela sua aldeia.”

Coglitore localizou 40 sicilianos que apareceram como figurantes no filme e reuniu fotos de arquivo, e planeia publicá-las em breve num livro, “O Padrinho em Savoca”.

Uma foto mostra Coppola, de peito nu, a conversar no set com um Al Pacino muito sereno, vestido com a tradicional boina preta siciliana, a coppola. Outra, que mostra a lápide de uma mulher local com a inscrição de que ela apareceu como dama de honra no filme, destaca o quanto “O Padrinho” afetou a vida daqueles que apareceram como figurantes.

Uma escultura dedicada ao realizador de “O Padrinho”, Francis Ford Coppola, encontra-se agora em Savoca. IvanSpasic/iStock Editorial/Getty Images

“É preciso compreender o que isso significou para os aldeões: foi como se tivessem aterrado OVNIs”, diz Coglitore. “As estradas eram de terra batida, com buracos que foram reparados antes das filmagens; havia poucos candeeiros de rua e a paróquia teve de disponibilizar todas as suas cadeiras para serem colocadas na praça, pois não havia cadeiras suficientes.”

Pasquale, um funcionário municipal aposentado, diz que teria perdido a oportunidade de ganhar 90 mil liras, ou cerca de 150 dólares, se a sua mãe não o tivesse acordado a tempo.

“Ela arrastou-me para fora da cama”, diz. “Eu não tinha emprego, e era mais do que a maioria das pessoas aqui ganhava num ano.”

"Uma verdadeira dádiva de Deus"

Antes da chegada da equipa de filmagem em 1971, a vida em Savoca tinha mudado pouco ao longo do século anterior. ollirg/Alamy Stock Photo

Recorda um incidente envolvendo Pacino durante as filmagens da cena do casamento, enquanto os atores se debatiam com trajes de época pesados e escuros sob o sol siciliano.

“Ele estava sentado entre as cenas a retocar a maquilhagem, dentro da capela fresca, debaixo de uma grande escadaria de ferro”, aponta Pasquale. “Quando alguém o chamou lá fora para retomar a cena, Al Pacino levantou-se e bateu violentamente com a cabeça contra o ferro, com o sangue a jorrar-lhe da cabeça. Ficámos todos boquiabertos por ele ter ficado ali parado, sem palavras e impassível, sem sequer dizer “Ai”. Ele teve de receber cuidados médicos; creio que quase precisou de levar pontos.”

Alguns dos figurantes recordam como Pacino, então com cerca de 30 anos, era relativamente desconhecido na altura das filmagens e era também calado e reservado. Coppola, dizem eles, era acessível e descontraído. Falava um pouco de italiano e gostava de brincar, mas era extremamente exigente.

Trimarchi, que recebeu 100 mil liras, cerca de 165 dólares, pela sua participação especial, recorda-se de Pacino a tentar aprender frases simples em italiano durante a cena do casamento. “Se soubesse que Al Pacino se tornaria um ator tão famoso, teria pedido para tirar uma fotografia com ele, mas não tinha máquina fotográfica”, disse ela. “Ele era jovem, mas não fazia o meu género. Coppola era mais charmoso.”

Mariangela Trimarchi afirma que ter sido escolhida como figurante no filme marcou o fim da sua adolescência. Cortesia de Mariangela Trimarchi
Trimarchi ainda vive em Savoca e diz que é frequentemente chamada para falar com grupos de turistas que visitam a aldeia. Cortesia de Mariangela Trimarchi

Em 2022, Coppola foi nomeado cidadão honorário de Savoca, e a aldeia continua a atrair visitantes atraídos pelo legado do filme.

Tanto Pasquale como Trimarchi descrevem o papel da sua comunidade em "O Padrinho" como transformador. Ainda ficam emocionados ao recordar o seu contacto com Hollywood e com as pessoas que tornaram tudo isso possível.

"Eles não eram nada pomposos, as câmaras não me assustavam", recorda Pasquale. "Eram muito simples e deram-nos uma oportunidade incrível de fazer a nossa aldeia brilhar no filme. O filme foi uma verdadeira dádiva de Deus."

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