O melhor para mim, claro. O que segue é uma lista de razões estritamente pessoais para escolher um determinado restaurante como o mais fixe, o número um da capital. O nome não será revelado, nem sequer no final do texto, mas as pistas deixam pouca margem para dúvidas
A experiência começou mal. O primeiro dos elementos do menu fechado, uma bebida de boas-vindas sem especial sabor ou impacto, mereceu a pior nota da minha pontuação, um sistema improvisado de setas para cima e para baixo. Foi a única nota negativa numa lista que teve, em média, quase quatro estrelas (e ainda um prato, ou petisco, com nota máxima: cinco estrelas ou setas para cima).
Só de pensar no que veio a seguir à welcome drink, uma bebida com sabor a pêssego desenxabido, fico com água na boca. As primeiras entradas foram merecedoras de um pódio ascendente: bronze, prata e ouro, uma sequência olímpica perfeita.
O mais engraçado é que, neste tipo de cozinha — complexa, mas sem exageros, onde se misturam inúmeros ingredientes, sabores e texturas numa escala quase microscópica —, é frequente não sabermos, ao certo, o que estamos a comer. E daí? Ninguém se rala com isso quando o sabor é exímio! Conhecer a composição e a origem das iguarias ajuda a compreendê-las e valorizá-las, mas há momentos em que os pormenores, ou os esclarecimentos excessivos, diminuem o prazer.
Neste restaurante, e com esta ementa especial, às tantas nem queria saber. Primeira surpresa: uma ostra carregada de efeitos especiais. Eu prefiro as ostras cruas e sem condimentos, apenas com a água própria do molusco. No entanto, por uma vez, adorei o que tinham acrescentado: umas gotas futuristas de uma infusão em que dominava o espinheiro, arbusto “que abunda nos litorais atlânticos da Europa” (tive de consultar a Wikipédia, claro, porque não costumo andar com manuais de botânica no bolso). Custa-me a acreditar, mas a ostra brilhava apesar dos adereços. Pura continua a ser insuperável, mas o vestido assentava-lhe bem e acrescentava-lhe uns brilhos, uns pozinhos.
Segunda surpresa: uns figos com shirra-ae, um molho japonês cremoso e com sabor a nozes, “feito com tofu esmagado, sementes de sésamo torradas, miso e molho de soja”. Na altura, as explicações entraram e saíram pelos ouvidos com extrema facilidade, apesar do empenho dos encantadores emissários em desconstruir, em segundos, umas obras minúsculas que, nalguns casos, implicam dias ou semanas de fermentação e muitas fases prévias ao empratamento.
Terceira e última grande surpresa — a medalha de ouro e pináculo da refeição, cinco setas gordas como polegares a apontar para o céu: uma flor de curgete com pó de framboesa e outras saborosas minúcias, incluindo um acompanhamento de zabaione picante que evocava os molhos fumados dos melhores tacos mexicanos. O zabaione, ou sabayon, é um creme doce criado no tempo dos Médicis que se obtém misturando gemas, açúcar e Marsala, um vinho fortificado parecido ao do Porto. No meu prato, tinha forma de pincelada e coroava a peça mais requintada do menu, a tal flor perfeitamente frita, mas não gordurosa, da minha cucurbitácea preferida.
O menu prosseguiu com muitas setas ascendentes e palavras como “espargos brancos” (no ponto equidistante entre crocância e tenrura), “hamachi com erva-príncipe” (o hamachi é um peixe do Pacífico, muito popular no inverno japonês), tataki de atum (a meu ver, a menos feliz das trincas) e “asa de frango recheada com guioza de porco e prik pao”. O prik pao é uma pasta de malagueta assada, típica da cozinha tailandesa.
Também provei um katsu sando de língua de Wagyu (o gado japonês, mas eu prefiro a sandes de porco panado habitual da casa, a melhor que conheço) e uma sobremesa: a tarte tres leches. Este doce, muito popular em toda a América Latina, é a cereja no topo do bolo — literalmente, uma vez que contém marasquino, licor feito com uma variedade de ginja.
The Bear no Príncipe Real
O que faz de um restaurante “o melhor” é, sem dúvida, a comida: a qualidade, sabor, temperatura, sequência, ritmo e outros aspetos do que é servido e ingerido. São tantos os aspetos a ter em conta que, amiúde, esquecemo-nos do trabalho que há por detrás, do mecanismo de relojoaria que põe a funcionar uma cozinha e uma sala perfeitamente entrosadas e sincronizadas. Não pode haver quebras na produção, pausas demasiado longas entre prato e prato, música demasiado alta ou baixa, copos vazios ou bebidas sem pressão.
Na primeira versão deste restaurante, na zona nobre de Cascais, não há mesas, unicamente um balcão em forma de L. Habituei-me, por isso, a contemplar o que acontece na cozinha, onde o frenesim constante de chamas e facas tem de ser temperado com a paciência e sabedoria dos múltiplos generais e soldados — na verdade todos eles desempenham ambas as funções, porque o intercâmbio de posições é rotineiro, não obstante a cadeia de comando perfeitamente definida.
Na versão lisboeta, há mesas de ponta a ponta da sala, mas a magia da cozinha à vista permanece intacta. O espetáculo é permanente porque há sempre coisas a acontecer (os fãs de The Bear, a série multipremiada inspirada no restaurante Mr. Beef de Chicago, percebem perfeitamente do que estou a falar). Tal como acontece no irmão mais velho cascalense, no restaurante alfacinha a ordem e o caos vão de mãos dadas. Isto é assim em qualquer tasca ou estabelecimento com estrelas Michelin pelo mundo fora, mas raramente é tão visível, fácil e prazeroso para a plateia. E só por isto já vale a pena vir a este canto da cidade.
Nada supera uma boa refeição em boa companhia, mas a experiência a solo tem as suas virtudes. É como estar numa sala de cinema, onde a escuridão e a imensidade do ecrã diluem as distrações. Com amigos ou familiares, o restaurante é uma festa; sozinhos, conseguimos apreciar mais pormenores e até tomar notas, porque falamos e escutamos menos e temos tempo para explorar tudo com os cinco sentidos.
O serviço é eficaz, informativo sem ser irritante (e não há nada pior do que longas apresentações de pratos, particularmente numa sucessão interminável de micropetiscos). Os empregados são simpáticos, sorridentes e competentes. Fluem, focam-se, limpam as mãos em diferentes panos amarrados ao corpo, dão cortes precisos, aprimoram operações que é preciso repetir ou recomeçar.
Blade Runner e remisturas de Mobb Deep
No bar, há gelo que tem de ser esculpido, gelatinas que têm de ser laminadas, coquetéis coloridos que são transvasados, agitados, afunilados e servidos em vidros de tamanhos e formas distintas não isentas de requinte. Tudo isto faz com que o ambiente seja hiperativo, e ao mesmo tempo descontraído, porque há algo de perversamente reconfortante em ver trabalhar os outros enquanto desfrutamos de um bom vinho, uma guloseima, um merecido descanso... ou tudo ao mesmo tempo.
Não quero terminar sem elogiar a música. Não coincide com a minha playlist, embora tenha reconhecido alguns temas remisturados; mas também por isso acho piada à experiência, porque tenho acesso a canções novas que, ainda por cima, colam bem com o espaço — com o pandemónio da cozinha na sala e a decoração noturna com néones, como numa sequência de Blade Runner.
O melhor restaurante de Lisboa imita os yokochos de Tóquio e por isso está num beco do bairro da moda — literalmente, no topo da colina. É o melhor para mim, insisto. Não sou cozinheiro, nem enólogo, nem crítico gastronómico, mas passei os últimos anos a experimentar alguns dos melhores tascos do país e da cidade, 99% das vezes sem estrelas, mas quase sempre com sóis ou recomendações noutros guias.
O aspeto económico é importante. O meu favorito existe numa versão ainda mais cara, mas ainda assim não é barato, porque é difícil pagar menos de meia centena de euros. Mas é mais difícil ainda sair insatisfeito, ou sem pensar que cada euro investido foi bem gasto. Não houve até hoje uma refeição pior do que a anterior, o que é de facto inédito e dificilmente repetível.
É o melhor porque é descontraído e não é fine dining, o que significa que posso voltar a ele com alguma regularidade. Foi o que fiz: dez dias mais tarde, voltei a sentar-me ao balcão. Almoço em vez de jantar, carta em vez de menu fechado, sala quase vazia em vez de casa cheia. Acreditem ou não, a refeição foi ainda mais perfeita, surpreendente e irrepreensível.
Prometi dar pistas e já espalhei bastantes, mas vou deixar mais algumas: o menu fechado chamava-se Familjen e foi preparado e explicado pelos chefes Tiago Penão e Petter Nyström numa quinta-feira, a 4 de junho de 2026. O almoço tranquilo, com gambinha da costa picante, presa ibérica (a espetada mais suculenta que alguma vez provei) e croquete de língua, foi uma obra-prima do chefe residente, irmão do Tiago: Isaac Jorge Penão. Pesquisem este nome, porque vai dar que falar.
