Terry Gilliam em Lisboa: “Dom Quixote é mais poderoso do que o Covid”

18 fev, 10:31

Uma batalha legal sobre os direitos do filme, primeiro, e a pandemia, depois, atrasaram em quase quatro anos a estreia de “O Homem que Matou Dom Quixote” nos cinemas portugueses. Mas esses foram apenas os últimos percalços desta adaptação do clássico de Cervantes que, entre avanços e recuos, demorou um quarto de século a acontecer. A maldição do projeto “quixotesco”, afinal, não se confirmou

Como é voltar a Portugal para a estreia nacional do seu filme?

Aguardava este momento há muito tempo e tem sido maravilhoso. Adoro voltar aqui, continuo a fazer amigos aqui, quanto mais tempo passo aqui mais me apaixono por este país.

Porquê?

Aquilo de que gosto realmente é a história incrível deste país. Estou cada vez mais obcecado em saber mais e mais. É uma das histórias mais estupendas… A riqueza, o poder e a inteligência deste país é aquilo que me espanta. Ao contrário dos conquistadores espanhóis que tomavam os lugares, os portugueses eram espertos porque só faziam comércio com os povos. Adoro o facto de já estarem na Índia quatro anos antes do Colombo ter partido.

Gostaria de fazer um filme sobre a história portuguesa?

Não sei se teria dinheiro suficiente, porque é uma história muito rica.

Mas tem algumas ideias?

Sim, podíamos estar aqui o dia todo. Esse foi, aliás, um dos aspetos maravilhosos de filmar em Tomar, no Convento de Cristo. Só o simples facto de os Templários terem vindo para cá com a sua riqueza e terem mudado de nome para Cavaleiros de Cristo… Quando a Inquisição expulsou os judeus e os mouros, eles vieram para cá e o rei Dom João foi esperto porque os juntou num conselho de homens sábios. Isso foi um pensamento tão inteligente e pragmático. É outra razão para estar impressionado com este país.

Já passaram quase quatro anos desde a estreia mundial de ‘O Homem que Matou Dom Quixote’ no Festival de Cannes. Para registar a sua versão dos factos, o que manteve o filme nas prateleiras durante tanto tempo?

Foi o meu interesse nos tribunais da Europa e América. Temos andado ocupados a tentar provar quem são os donos do filme e, felizmente, somos nós os donos. É isso. Demora tempo. Finalmente, conseguimos a última sentença em França a 9 de novembro e ela esclarece todos os mal-entendidos sobre quem, o quê, onde. É nosso.

Essa longa batalha legal aconteceu depois de 25 anos de avanços e recuos, como, de resto, se lê logo no início do filme. Valeu tudo a pena?

É um filme. É só mais um filme na minha lista de filmes. É isso. Não sei se valeu a pena ou não… Só valeu a pena para mostrar que, quando decido fazer algo, vou fazê-lo. Não quero saber o que acontece. Todas as pessoas razoáveis diziam-me para seguir em frente, mas não. Tem tudo a ver com o poder do Quixote como vírus. Ele é mais poderoso que o Covid porque, assim que o vírus do Quixote entrou na minha cabeça, não saiu até que finalmente me livrei dele.

Parte do filme foi rodada em Portugal. Qual é a melhor memória que tem desse período?

Filmar em Tomar no Convento de Cristo foi espetacular! Lembro-me de procurar localizações do Google Earth, é assim que faço… E descobri aquele lugar maravilhoso com sete claustros. Não queria acreditar. Ninguém tem sete claustros! É um lugar tão magnífico. A Charola é uma das coisas mais bonitas que já vi e poder trabalhar ali foi muito empolgante… Estávamos ali no meio daquela arquitetura manuelina tão extravagante e cheia de simbolismo. Tudo tem significado. É simplesmente rico. Fiquei deslumbrado…

Há história por todo o lado, certo?

É fantástico! Foi um período estupendo e a parte maior e mais espetacular do filme acontece lá, em Tomar. E depois há uma atriz que conheci e com quem tomei café chamada Joana Ribeiro…

Como foi para si trabalhar com ela?

Ela é fantástica. Andei à procura de uma Dulcineia durante muito tempo.

E encontrou-a.

E encontrei-a aqui em Lisboa. Ela é maravilhosa, incrivelmente inteligente, divertida. Um ser humano muito inteligente…

Onde a vê daqui por dez anos?

Não sei. Espero que este filme mostre ao mundo como ela é boa. Ela terminou há pouco uma série de televisão em Londres, começa a ser conhecida fora de Portugal… Não há nada que a possa impedir, porque ela tem um coração muito puro e consegue ser tantas coisas. No filme, vemos a personagem dela num momento e dez anos depois ter passado por tempos difíceis. Comecei por procurar outra rapariga para interpretar a versão mais nova e depois conheci a Joana e ela interpreta as duas versões e é fantástica.

Tem uma carreira impressionante no mundo do cinema, não só como realizador, mas também como argumentista e ator. Consegue apontar os seus pontos altos até agora? Tem um filme preferido ou simplesmente segue em frente e não pensa no passado?

De certa forma, sigo em frente. Nunca tive uma carreira, é a minha impressão. Faço um filme de cada vez e esse é o único filme que alguma vez farei. Penso que ‘Brasil’ (1985) vai estar na minha lápide, quer eu queira ou não. Um dos meus filmes preferidos e talvez dos melhores é ‘Tideland’ (2005) e ninguém o viu. Penso que é um filme brilhante, difícil para muitas pessoas, mas é assim que funcionam as coisas. É como ter filhos e não podemos escolher qual é o nosso preferido.

Em 2022, como recorda a experiência Monty Python? Como recorda aqueles tempos loucos e criativos?

Foi um grande salto na minha vida, o nosso sucesso. Foi um tempo incrível, porque só havia três canais de televisão para ver na Grã-Bretanha. Um deles era a BBC e nós tínhamos liberdade total. Escrevíamos, realizávamos, fazíamos tudo. Ter essa liberdade e acesso a milhões de pessoas foi uma experiência extraordinária. Não sei se mais alguma coisa foi tão empolgante para mim. Quando tenho controlo dos meus filmes, fico empolgado, mas os tempos dos Monty Python, aquela liberdade de fazer tudo o que nos fazia rir foi maravilhoso.

Tem saudades desse tempo?

Nem por isso, porque foi há muito tempo… Mas também é assim nos filmes. Trabalhamos com um grande grupo de pessoas e é sempre um esforço colaborativo. Por isso, os filmes substituíram o que nós os seis fazíamos. Foi um período muito especial. Adoro o facto de ainda estar vivo e as pessoas falam disso, continuam a ver e fazem citações…

E como olha para a indústria do cinema de hoje?

Há uma?! Não sei bem. Quando percebemos realmente o poder do que a Netflix fez e, agora, a Amazon. Especialmente durante a pandemia, eles têm dado trabalho a argumentistas, realizadores, atores e isso tornou-se talvez na nova forma de fazer as coisas. Eu continuo a preferir não fazer uma série longa. Gosto da ideia de ter duas horas com o público numa sala de cinema com um grande ecrã e um som incrível, em vez de ter esse público sentado em casa a comer o jantar. É uma forma melhor de contar histórias, porque o público tem de se submeter. A história está ali e, quer se goste ou não, temos de acompanhá-la…

As pessoas estão focadas no grande ecrã.

Hoje, quando vejo pessoas a ver os filmes no telemóvel, quero “matá-las”, porque a relação está toda errada. Contar histórias é submissão a quem nos apresenta um mundo novo. Com o telemóvel, somos maiores que a história e isso não está certo.

“O Homem que Matou Dom Quixote” está em exibição em 42 cinemas de todo o país

Artes

Mais Artes

Patrocinados