Nomeado para Melhor Filme, Filme Internacional, Casting e Ator (Wagner Moura), "O Agente Secreto" tem hipóteses de repetir ou melhorar o resultado de "Ainda Estou Aqui". E existe um quinto nomeado brasileiro para os Óscares
Se dúvidas houvesse sobre o bom momento que atravessa o cinema brasileiro, elas ficaram completamente desfeitas esta quinta-feira com o anúncio dos nomeados aos Óscares de Hollywood: "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, conseguiu o feito de ter quatro nomeações - incluindo para Melhor Filme, Filme Internacional, Casting e Ator, Wagner Moura - o primeiro ator brasileiro nomeado para um Óscar.
Como se isto não fosse suficiente, existe um quinto brasileiro entre os nomeados: o diretor de fotografia Adolpho Veloso, que foi incluído na categoria de Melhor Fotografia pela produção americana "Sonhos e Comboios". Este filme ("Train Dreams" no original) tem quatro nomeações para os Óscares, incluindo para Melhor Filme.
Que isto tudo aconteça um ano depois do enorme sucesso que foi o filme "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, faz com que muitos olhos se virem para o Brasil. "Ainda Estou Aqui" tinha conseguido três nomeações - Melhor Filme, Filme Internacional e Atriz - Fernanda Torres, fazendo história ao conquistar o primeiro Óscar brasileiro na categoria de Melhor Filme Internacional.
“O Agente Secreto” é uma coprodução que junta Brasil, França, Alemanha e Países Baixos. Ambientado no Recife durante a década de 1970, conta a história de Marcelo, um especialista em tecnologia, que regressa à sua cidade natal como um refugiado, depois de ter tido problemas na universidade onde trabalhava devido à repressão do regime militar.
É, à semelhança de “Ainda Estou Aqui”, um filme sobre o trauma da ditadura e sobre a memória, que, infelizmente, parece estar a perder-se. Mas é, também, um filme sobre o Brasil e, mais especificamente, sobre a região nordestina. Wagner Moura chama-lhe “um filme de resistência”, mas que ao mesmo tempo mostra “o belo caos brasileiro”, com o seu carnaval bem suado, a mitologia e a fantasia (a “perna cabeluda” é um mito urbano muito forte em Pernambuco).
Na extraordinária galeria de personagens secundárias, encontramos, entre outros, a indomável e corajosa Dona Sebastiana (interpretação de Tânia Moura na sua muito aclamada estreia cinematográfica), uma ex-militar anarcocomunista que acolhe e ajuda todos os marginalizados pelo regime; Thereza Vitória, refugiada da guerra civil de Angola (interpretada pela atriz portuguesa Isabél Zuaa); ou o corrupto delegado da polícia Euclides (o ator Robério Diogénes).
É também por elas que faz sentido o filme estar nomeado na categoria de Melhor Casting, introduzida pela primeira vez este ano na cerimónia, para premiar diretores de casting ou produtores, responsáveis pela pesquisa, seleção e direção de atores nos filmes. No caso, Gabriel Domingues fez história ao ser o primeiro brasileiro nomeado.
O caminho para aqui chegar: "Central Brasil" e "Cidade de Deus"
Mas não é verdade que este reconhecimento da Academia de Hollywood seja totalmente inédito. Em 2004, "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, conseguiu a proeza de estar nomeado em quatro categorias - Realização, Argumento Adaptado, Fotografia e Montagem - mas falhou as categorias de Melhor Filme.
Na categoria de Melhor Filme Internacional, o Brasil já é repetente. Se não contarmos com "Orféu Negro", coprodução italo-franco-brasileira que foi vencedora na cerimónia de 1960, encontramos quatro filmes brasileiros nomeados: "O Pagador de Promessas" (1963), "O Quatrilho" (1996), "O Que É Isso, Companheiro?" (1998) e "Central do Brasil" (1999).
E por falar em "Central do Brasil", com este filme realizado por Walter Salles - o mesmo realizador de "Ainda Estou Aqui" - Fernanda Montenegro foi a primeira brasileira nomeada para o Óscar de Melhor Atriz.
Walter Salles é, podemos dizê-lo, o realizador brasileiro que mais vezes esteve na cerimónia dos Óscares, uma vez que já em 2005 o seu "Diários de Motocicleta" esteve nomeado para Melhor Argumento Adaptado e ganhou o Óscar de Melhor Canção ("Al otro lado del río", de Jorge Drexler). E já nem falamos de outras categorias, geralmente menos faladas, como Melhor Documentário e curtas-metragens, onde o Brasil também já esteve presente.
Mas se há uns anos a maioria das pessoas pensava que os filmes brasileiros não conseguiriam ir além das nomeações, o que é de facto novo é que parece que agora o Brasil tem mais hipóteses de ganhar. Tal como no ano passado, "O Agente Secreto" está a concorrer de igual para igual com as grandes produções de Hollywood. Wagner Moura será entrevistado em talk shows e Kleber Mendonça Filho estará a promover o seu filme em diversos visionamentos nos EUA. E ninguém ficará surpreendido se no próximo dia 15 de março, num dos discursos de agradecimento dos Óscares, se ouvir a palavra "obrigado".