Os EUA já tentaram comprar a Gronelândia - e falharam

CNN , Lex Harvey
8 jan, 09:21
Um rapaz caminha entre blocos residenciais em Nuuk, na Gronelândia, a 27 de março de 2025. (Leon Neal/Getty Images)

Depois de os Estados Unidos terem capturado o líder venezuelano Nicolás Maduro, o presidente Donald Trump intensificou a sua retórica em torno do seu desejo de adquirir a Gronelândia, levantando uma vez mais a perspetiva de uma intervenção militar, o que suscitou receios em toda a Europa e uma condenação generalizada.

Mas, embora o expansionismo americano tenha recuperado fôlego sob Trump, a ideia de os EUA controlarem o território autónomo dinamarquês é muito anterior ao atual presidente.

A Gronelândia, uma vasta ilha com 2 166 000 km², ocupa uma posição geopolítica estratégica, situada entre os EUA e a Europa e atravessando o chamado corredor GIUK — uma passagem marítima entre a Gronelândia, a Islândia e o Reino Unido que liga o Ártico ao oceano Atlântico. É também rica em depósitos de recursos naturais, incluindo petróleo, gás e minerais de terras raras, o que a torna ainda mais estratégica.

O interesse dos EUA na Gronelândia remonta ao século XIX, quando o então secretário de Estado William H. Seward, acabado de concretizar a compra do Alasca aos russos em 1867, lançou a ideia de comprar a Gronelândia e a Islândia à Dinamarca.

Embora a venda nunca se tenha concretizado, os EUA continuaram a observar a maior ilha do mundo em vários momentos ao longo da história, chegando a discutir uma possível troca com a Dinamarca por território norte-americano nas Filipinas.

Em 1946, após a Segunda Guerra Mundial, durante a qual os Estados Unidos assumiram a defesa da Gronelândia, o presidente Harry Truman ofereceu à Dinamarca 100 milhões de dólares em ouro pela ilha, mas a Dinamarca rejeitou a oferta.

Eis um olhar mais aprofundado sobre a história do interesse dos EUA na Gronelândia:

1867: a venda do Alasca e as ambições árticas dos EUA

Nos anos que se seguiram ao fim da Guerra Civil, a administração do então presidente Andrew Johnson procurou expandir a influência dos EUA no Pacífico.

Depois de comprar com sucesso o Alasca à Rússia por 7,2 milhões de dólares em 1867, Seward, secretário de Estado de Johnson, virou-se para outros territórios do Ártico.

A pedido de Seward, Robert J. Walker, antigo secretário do Tesouro e fervoroso expansionista que ajudou a negociar o acordo do Alasca, recomendou que os EUA acrescentassem a Gronelândia e a Islândia ao seu inventário, “mas sobretudo esta última”, segundo um relatório do Departamento de Estado dos EUA.

“As razões são políticas e comerciais”, escreveu no relatório, sublinhando a vasta paisagem da Gronelândia e a sua riqueza mineral.

“As costas da Gronelândia, muito mais do que as de qualquer outro país, são recortadas por profundas baías, enseadas, estuários e fiordes, alguns deles possivelmente estendendo-se da costa ocidental à oriental, apresentando uma linha costeira imensa e proporcionando vastíssimas e protegidas zonas de pesca”, escreveu Walker.

“As rochas e a geologia da Gronelândia… além do valioso carvão descoberto, indicam uma vasta riqueza mineral”, prosseguiu.

A aquisição da Gronelândia, argumentou, ajudaria os EUA a “comandar o comércio do mundo”.

No entanto, não foi feita qualquer oferta formal à Dinamarca.

Cerca de 1.000 groenlandeses reúnem-se no centro da cidade para protestar contra o presidente dos EUA Donald Trump, em Nuuk, Gronelândia, a 15 de março de 2025. Ahmet Gurhan Kartal/Anadolu/Getty Images

1910: uma "sugestão muito audaciosa"

Em 1910, o então embaixador dos EUA na Dinamarca, Maurice Francis Egan, escreveu ao então secretário adjunto de Estado com o que chamou uma “sugestão muito audaciosa”. Egan propôs que os EUA entregassem à Dinamarca a ilha filipina de Mindanao, então território norte-americano, em troca da Gronelândia e das Índias Ocidentais Dinamarquesas.

“A Gronelândia é, como sabe, um monopólio dinamarquês”, escreveu Egan. “Nunca foi explorada, embora os dinamarqueses sejam suficientemente perspicazes para ver as suas possibilidades, tal como já veem o que poderia ser feito com uma oportunidade menor na Islândia.”

A sugestão não passou disso e, com a Primeira Guerra Mundial no horizonte, a atenção dos EUA voltou-se para outros assuntos.

No entanto, alguns anos depois, os EUA compraram à Dinamarca as Índias Ocidentais Dinamarquesas (atualmente as Ilhas Virgens dos EUA) por 25 milhões de dólares em ouro, para impedir que as ilhas caíssem sob controlo alemão.

1946: uma oferta de 100 milhões de dólares

Durante a Segunda Guerra Mundial, depois de a Alemanha ter invadido a Dinamarca, os EUA assumiram a responsabilidade pela defesa da Gronelândia e estabeleceram uma presença militar na ilha.

Depois, em 1946, após décadas a ponderar a ideia, os EUA, sob a presidência de Harry Truman, fizeram a sua primeira oferta formal para comprar a Gronelândia à Dinamarca.

A oferta foi secreta na altura e só foi tornada pública em 1991 por um jornal dinamarquês, duas décadas depois de os documentos terem sido desclassificados.

Em abril de 1946, o funcionário do Departamento de Estado John Hickerson participou numa reunião do comité de planeamento e estratégia dos Chefes do Estado-Maior Conjunto e disse que “praticamente todos os membros” concordavam que os EUA deveriam tentar comprar a Gronelândia, noticiou a Associated Press.

“O comité indicou que há dinheiro em abundância neste momento, que a Gronelândia é completamente inútil para a Dinamarca (e) que o controlo da Gronelândia é indispensável para a segurança dos Estados Unidos”, terá dito Hickerson num memorando.

A Guerra Fria estava a começar, e os EUA viam a Gronelândia como essencial para a sua segurança nacional.

No entanto, Hickerson disse que informou o comité de que duvidava que os dinamarqueses quisessem vender, segundo a Associated Press.

Num memorando de seguimento, em maio, William C. Trimble, chefe-adjunto da divisão de assuntos do norte da Europa do Departamento de Estado, atribuiu um preço à ilha, sugerindo que os EUA oferecessem à Dinamarca 100 milhões de dólares em ouro.

Disse que a compra da Gronelândia daria aos Estados Unidos “bases valiosas a partir das quais lançar uma contraofensiva aérea sobre a região do Árctico em caso de ataque”.

Os responsáveis norte-americanos também discutiram a possibilidade de trocar terras ricas em petróleo no Alasca por partes da Gronelândia, embora Trimble tenha dito que achava que os dinamarqueses estariam menos recetivos a essa ideia.

O então secretário de Estado James Byrnes fez a oferta formal ao ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês visitante, Gustav Rasmussen, em Nova Iorque, a 14 de dezembro de 1946, de acordo com um telegrama de Byrnes para a Legação dos EUA em Copenhaga, noticiou a Associated Press.

A Dinamarca não quis vender a Gronelândia. No entanto, os EUA foram autorizados a construir e operar bases militares no território. Os EUA tiveram várias bases, mas entretanto encerraram todas exceto uma — a Pituffik Space Base, anteriormente designada Base Aérea de Thule.

Em 1979, a Gronelândia obteve autonomia interna através de um referendo, passando a ter maior autonomia em relação à Dinamarca.

Um helicóptero de resgate aéreo Sikorsky H-19 Chickasaw da Força Aérea dos EUA na Base Aérea de Thule, na Gronelândia, em 1955. James McAnally/Archive Photos/Getty Images

A era Trump

Apesar de uma longa história de interesse dos EUA na Gronelândia, a administração Trump reacendeu os esforços para que os EUA voltassem a tentar adquirir a ilha e intensificou as ameaças contra o território dinamarquês.

Trump expressou publicamente pela primeira vez interesse em comprar a Gronelândia durante o seu primeiro mandato, em 2019, comparando uma eventual aquisição a um “grande negócio imobiliário”. Mas a ideia foi rapidamente rejeitada pelas autoridades da Gronelândia e da Dinamarca, que insistiram que a ilha não estava à venda.

Pouco depois de vencer as eleições de 2024, Trump retomou a proposta do seu primeiro mandato para comprar a Gronelândia, que voltou a ser recusada. Há quase exatamente um ano, realizou uma conferência de imprensa abrangente na sua propriedade de Mar-a-Lago, na Florida, na qual não excluiu uma ação militar para assumir o controlo da Gronelândia — um sentimento reiterado nos últimos dias pela Casa Branca.

Durante um discurso numa sessão conjunta do Congresso no início do ano passado, Trump lançou uma ameaça à Gronelândia: “Acho que vamos consegui-la. De uma forma ou de outra, vamos consegui-la.”

Numa declaração divulgada terça-feira, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que Trump “deixou bem claro que a aquisição da Gronelândia é uma prioridade de segurança nacional dos Estados Unidos e que é vital para dissuadir os nossos adversários na região do Árctico”.

“O presidente e a sua equipa estão a discutir um conjunto de opções para prosseguir este importante objetivo de política externa e, naturalmente, a utilização das Forças Armadas dos EUA é sempre uma opção à disposição do Comandante em Chefe.”

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