O líder do CDS-PP é visto como um dos herdeiros de Paulo Portas e volta a ser nomeado para uma pasta que deve ver o seu orçamento disparar nos próximos anos
Luís Montenegro vai manter o líder do CDS-PP Nuno Melo à frente dos destinos do Ministério da Defesa, uma pasta que está a ganhar cada vez maior importância e protagonismo desde a invasão da Ucrânia e que pode ver o seu orçamento disparar até 5% do PIB nos próximos anos. No último ano, Nuno Melo conseguiu inverter uma tendência que ameaçava a capacidade das Forças Armadas portuguesas, mas também colecionou algumas polémicas.
A pasta herdada por Nuno Melo tem muitos problemas pela frente, mas talvez o maior seja o número de militares. Eram 244 mil em 1974, 35 mil em 2010 - e pouco mais de 23 mil no final de 2024. O número de efetivos das Forças Armadas diminuiu 90% em 50 anos de democracia. O número é considerado insuficiente para as necessidades do país - sobretudo num cenário de rearmamento e remilitarização da Europa - e todos os anos tendia a encolher mais um pouco - até ao ano passado.
Durante a liderança de Nuno Melo na pasta da Defesa as Forças Armadas registaram uma inversão do número de candidaturas aos três ramos, contrariando uma tendência que persistia quase há dez anos. Em 2024, os três ramos receberam 9.843 candidaturas, um aumento de 33,8% face às 7.353 recebidas no ano anterior. Ainda assim, o elevado número de rescisões entre militares fez com que o número de soldados aumentasse apenas 68 face a 2023.
O ministro associou a inversão desta tendência e a capacidade de retenção de militares à "valorização da condição de militar", definindo "as pessoas como a primeira prioridade" da legislatura. Sob a sua liderança, os militares receberam aumentos nos salários e no suplemento de condição militar até 300 euros, bem como apoio em caso de incapacidade ou morte em serviço e comparticipação na compra de medicamentos para veteranos.
Olivença é nossa?
Mas o ministro também colecionou algumas polémicas. A primeira veio logo no final de abril, pouco depois de ter tomado posse, após ter sugerido que o serviço militar obrigatório poderia ser uma alternativa para jovens que cometem pequenos delitos e que são colocados em instituições que "só funcionam como uma escola de crime para a vida", durante um discurso da Universidade Europa, em Aveiro. O ministro defendeu-se frisando que se limitou a dar "uma resposta através de uma pergunta retórica de um aluno" a propósito daquilo "que as Forças Armadas também podem fazer em relação a alunos ou a pessoas em contexto desfavorecido".
As declarações foram amplamente criticadas pelas várias associações militares que classificaram a ideia como "absurda". Antigos generais também vieram a público criticar a possibilidade de colocar indivíduos com historial de delinquência e com problemas psiquiátricos em contacto com armas de fogo. A polémica levou Iniciativa Liberal e Chega a chamar o ministro para ser ouvido no Parlamento, onde Nuno Melo afastou a ideia de ter avançado com qualquer "medida, proposta, intenção ou estudo" para o serviço militar de jovens delinquentes.
Em setembro, o ministro voltou a estar debaixo dos holofotes devido às declarações que fez durante uma visita ao quartel do Regimento de Cavalaria n.º 3, em Estremoz, também conhecidos como Dragões de Olivença, onde o próprio governante fez o seu serviço militar. Aos jornalistas, Nuno Melo disse que Olivença "é portuguesa" e defendeu que "não se abdica" dos "direitos quando são justos", sublinhando que tais declarações não eram "provocação nenhuma". “Aliás, por tratado, Olivença deverá ser entregue ao Estado português”, recordou, vincando uma posição que é a oficial do Estado português.
As palavras do ministro foram amplamente criticadas pelos vários partidos da oposição. Pedro Nuno Santos, então secretário-geral do PS, classificou a declaração "com impacto na política externa" como "muito grave" e "inusitada". Nuno Melo respondeu na mesma moeda, sublinhando que o socialista era o primeiro líder de um partido político português a negar a legitimidade de Portugal sobre Olivença, algo que foi reconhecido por Espanha, em 1817.
Ainda durante a campanha eleitoral, Nuno Melo voltou a tocar no tema. Em entrevista ao humorista Ricardo Araújo Pereira, o centrista disse que se a AD tiver "uma maioria, não vamos invadir Olivença", mas que "se o fizéssemos não seria invadir, seria reaver".
Melinho para os amigos
Quando em 1999 chegou pela primeira vez à Assembleia da República era “um menino do campo na cidade”. Alguns dos que o conheceram nessa altura ainda recordam o “estilo, até de vestir, muito menos sofisticado e moderno” do que tem hoje Nuno Melo - que nasceu e cresceu em Joanes, uma pequena vila em Vila Nova de Famalicão. Era também mais tímido, quando nesse ano entrou no Parlamento, na VIII legislatura, para ser deputado por Braga, com 33 anos.
Desde então foi várias vezes deputado (em 1999, 2002 e 2005), eurodeputado (eleito em 2009 e até agora) e assumiu a liderança do CDS-PP em 2022. Agora foi escolhido para o cargo de Ministro da Defesa no Governo liderado por Montenegro.
João Nuno Lacerda Teixeira de Melo tem 58 anos, é casado com uma médica e tem dois filhos gémeos, um rapaz e uma rapariga. Além de político é advogado, tendo-se formado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Portucalense Infante D. Henrique. Católico, sempre foi um admirador de Paulo Portas, na liderança do qual foi, aliás, um dos rostos que assumiram destaque. Por isso, é visto dentro do partido como um herdeiro do “Portismo”.
Nuno Melo é tratado por “Melinho” por alguns amigos do partido. Conta quem lhe é próximo que gosta de trabalhar na terra e de caça. É parente de Eurico de Melo e um dos seus melhores amigos é Álvaro Castelo Branco, do CDS Porto.
Hoje, Nuno Melo conhece bem os corredores da política e do Parlamento. Aqui fez parte de várias comissões, entre elas a de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e a Subcomissão de Direitos Fundamentais e Comunicação Social. Foi um dos mais notados nas comissões de inquérito que investigaram a queda do avião que acabou por vitimar Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa em Camarate. Esteve também envolvido no inquérito parlamentar sobre a Nacionalização do BPN. Em 2004 tornou-se líder parlamentar do partido, e em janeiro de 2007 demitiu-se do cargo por divergências com Ribeiro e Castro, então presidente do partido.
Mas pouco depois com o regresso de Paulo Portas ao partido, ainda nesse mesmo ano, em maio, chegou até a ocupar o cargo de vice-presidente da AR. Pelo meio, teve outros tantos cargos no partido e no poder local e acabou por se tornar líder do PP num dos períodos mais conturbados e sem qualquer deputado na AR, tendo em conta o resultado nas eleições legislativas de 2022, em que o CDS-PP era liderado por Francisco Rodrigues dos Santos. Agora, um dos momentos de destaque dos últimos dias foi precisamente protagonizado por Nuno Melo, a aparafusar de novo a placa com o nome do CDS, na sala que vai receber os dois deputados que o CDS conseguiu nas últimas legislativas colocar no Parlamento. Nesse momento, Nuno Melo viu Portas emocionado.
Apesar de passar os dias na cidade, sempre que pode Nuno Melo refugia-se em Joane, onde tem uma propriedade, e onde gosta de tratar da terra. Mas agora a história mudou: agora é um menino da cidade, feito ministro, que chega ao campo.