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"Somos muito mais produtivos quando não fazemos nada. O tédio é o momento da criação"

20 mai, 22:04
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O cientista português Nuno Maulide teve a ideia de escrever sobre a química das emoções quando estava a dar biberão a uma das filhas. Em entrevista à TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), dá a conhecer mais sobre a obra e aborda temas como depressão, felicidade, envelhecimento e procrastinação

O cientista português vencedor de inúmeros prémios Nuno Maulide acaba de lançar um novo livro. Na "Química das emoções", explica que as pessoas mais emotivas não são mais frágeis: correspondem apenas a uma das muitas personalidades que o cérebro consegue moldar através de uma coreografia de substâncias que liberta.

Dopamina, serotonina, endorfinas, BDNF, cortisol, insulina - esta é apenas uma amostra da lista de substâncias que o cérebro produz e que desencadeiam as mais diversas reações, como a fúria, o êxtase ou a tristeza.

Nos jardins do Palácio Liechtenstein, em Viena, Nuno Maulide senta-se para a entrevista com a TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal)sobre o seu novo livro "A química das emoções". No entanto, não é sobre os cocktails moleculares que nos definem enquanto seres humanos que quer falar.

O químico, que se sagrou o cientista do ano em 2018, prefere trocar as fórmulas por miúdos. Sabe que o cérebro humano compreende muito melhor a informação quando lhe damos exemplos. "Quando tocamos Bach há uma certa estrutura e previsibilidade. É quase como se o nosso cérebro encontrasse uma espécie de serenidade pelo facto de tudo ser previsível, porque o cérebro humano detesta a incerteza", explica.

O piano é a linguagem artística através da qual Maulide melhor se explica. E não é por acaso que sonhou ser pianista profissional. Inscreveu-se na Escola Superior de Música, mas acabou por desistir e ingressar no extinto curso de Química do Instituto Superior Técnico.

"Ser pianista profissional implica estar muitas horas sozinho. Não era para mim", afirma.

De qualquer forma, Maulide nunca abandonaria o piano. E foi por isso que a TVI fez questão de o entrevistar também enquanto tocava piano. 

"Para mim a música é a última representação artística dos estados emocionais", não hesita em dizer.

Nuno Maulide ainda hoje toca em Viena, cidade onde vive com a mulher e as duas filhas gémeas de três anos.

A capital da Áustria tornou-se no lar deste génio português, que passou pelas prestigiadas universidades de Leuven, Paris e Stanford até se tornar diretor da Faculdade de Química Orgânica da Universidade de Viena.

"Curiosamente decidi escrever este novo livro enquanto dava biberão a uma das minhas filhas. Estava ali, com uma mão no biberão e outra a segurá-la, sem poder fazer mais nada e comecei a ter ideias. Uma delas foi escrever sobre a química das emoções. Não para falar de amor, não queria mesmo falar de emoções banais, mas a editora obrigou-me", lembra entre risos.

"O meu objetivo era explicar que tudo o que sentimos advém de uma cadeia de reações desencadeadas por várias substâncias que interagem de múltiplas formas no nosso cérebro. Por exemplo, quando se diz que aquela pessoa é muito emotiva, com um ar de crítica, simplesmente não é verdade. Ser emotiva não é defeito. É feitio", continua.

Ao longo desta conversa, que se estendeu por várias horas, e vários locais - entre os jardins dos Liechtenstein, o laboratório de química de Viena e um salão de pianos onde a TVI o levou a tocar - Nuno Maulide abordou temas como depressão, felicidade, envelhecimento, procrastinação, tédio, jejum, exercício físico e inteligência artificial. Sempre para desmistificar pseudo-verdades que são, como refere, "contrárias à ciência".

"Não há nenhuma razão para que as pessoas tenham medo da inteligência artificial. As máquinas nunca irão conseguir atingir a nossa desordem. Da mesma forma como nunca irão para a cama tristes nem conseguirão dormir": este é apenas um dos exemplos que Nuno Maulide dá para explicar que os seres humanos têm características únicas e inimitáveis. 

"Este livro não é sobre autoajuda", afirma. E de facto não é. A química das emoções é uma espécie de guia para perceber o que se passa dentro de cada um de nós. Parar, por exemplo, é fundamental.  É uma necessidade biológica e mental que muitas pessoas desaprenderam.

"É exatamente isso que eu quero que as pessoas percebam e façam: uma viagem rumo ao desconhecido da criatividade", afirma.

Ao longo da entrevista, o químico português desmontou vários clichés associados à saúde mental: "Muito da depressão tem a ver com a forma como interpretamos a vida", explica.

Já questionado sobre o papel da medicação, responde com cautela. "Tomar medicação faz sentido quando a pessoa sozinha não consegue", refere. "Mas a razão pela qual a pessoa precisa da medicação não desaparece com o medicamento. A medicação dá à pessoa a funcionalidade necessária para tomar decisões."

A conversa segue inevitavelmente para o envelhecimento, outro dos temas que considera mal compreendidos pela sociedade atual.

"A nossa sociedade valoriza aquilo que é contrário à ciência… muito por causa do marketing", afirma, acrescentando que "envelhecer é apenas ganhar rugas. E as rugas são linhas de dióxido de carbono."

Longe de associar envelhecimento a decadência, Maulide vê o tempo como uma forma de construção humana: "Na verdade, olhamos para a juventude com alguma complacência. Antes não éramos pessoas tão completas". E deixa um conselho direto a quem teme envelhecer: "Diria que têm uma perspetiva errada sobre o envelhecimento. Devíamos ter orgulho nas marcas que nos recordam que já cá andamos há bastante tempo."

De repente, o químico - que também foi ginasta do Sporting e conheceu Cristiano Ronaldo quando todos se riam ao ouvi-lo dizer que iria ser o melhor jogador do mundo - lembra-se de falar no tédio.

"O tédio é o momento da criação. Somos muito mais produtivos quando não fazemos nada", considera, lançando um desafio: "Desliguem tudo, fechem os olhos, e deixem-se mergulhar no desconhecido da vossa criatividade".

A certa altura, a conversa flui para o tema sobre o qual Nuno Maulide não queria falar, muito menos escrever: o amor - esse território onde, considera, a química parece sempre mais misteriosa.

"O amor é contranatura. Não faz sentido nenhum um ser vivo evoluído desarmar-se tanto como nós fazemos quando amamos alguém", justifica.

Para Maulide o amor é "deliberadamente fazer um conjunto de coisas que nos fazem mal apenas porque amamos". "Mas que ninguém pense que somos reféns dessa emoção. É perfeitamente possível amar e escolher não viver com aquela pessoa", sublinha.

No entanto, o cientista português admite que há uma forma de amor que transforma para sempre a identidade humana: a paternidade. "Quando aquele ou aqueles seres humanos nascem, o teu ego desfoca-se do eu", afirma emocionado, acrescentando: "Tornas-te um ser humano diferente."

E será um ser humano melhor? Maulide responde que sim. "Porque a mudança de perspetiva faz muito bem", conclui.

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