Perguntou-lhe porque o estava a "assediar". Este foi o testemunho vital para chegar a Cláudio Valente

19 dez 2025, 16:04

Português matou duas pessoas na Universidade Brown e dois dias depois assassinou o antigo colega de faculdade Nuno Loureiro. A investigação da polícia só andou para a frente depois de uma publicação no Reddit

Só se sabe que se chama “John” e que foi essencial para identificar Cláudio Valente como o autor do ataque à Universidade Brown, onde fez dois mortos, e do homicídio de Nuno Loureiro, com quem estudou no Instituto Superior Técnico no final do século passado.

O testemunho deste homem, que não foi identificado pela polícia, e que teve início no Reddit, foi crucial para ligar os dois casos, resolvendo de uma vez dois mistérios de New England, onde o português de 48 anos atuou numa operação que envolveu três estados norte-americanos.

Foi em Boston, no Massachussets, que tudo começou. E foi também lá que “John” se encontrou com Cláudio Valente, de acordo com um documento oficial da polícia onde está descrito todo o caso.

“John” encontrou Cláudio Valente na casa de banho do rés do chão do edifício Barus Holley. O português estava vestido de forma “inapropriada e desadequada para o tempo”, como se pode ler no documento oficial.

Tinha umas luvas que pareciam de má qualidade, tal como toda a roupa que levava vestida, de acordo com “John”, que estranhou ver o suspeito de máscara.

Intrigado com o que estava a acontecer, “John” decidiu seguir Cláudio Valente, já depois de o encontro inicial ter envolvido um “olhar” direto no suspeito.

Os dois voltaram então a encontrar-se na Sociedade História de Rhode Island (RIHS), onde Cláudio Valente se aproximou de um Nissan cinzento com matrícula na Florida.

Depois de se aproximar e de até ter aberto o veículo, o português virou subitamente à esquerda, olhando para “John” “como se o conhecesse”. A testemunha não parou de perseguir Cláudio Valente, que começou a notar que estava a ser seguido.

Um “jogo do gato e do rato”, como o próprio “John” descreveu à polícia, até que Cláudio Valente começou a correr. Mas a testemunha não desistiu, decidindo correr também, até que os dois acabaram mesmo por se encontrar.

A cerca de 60 centímetros um do outro, “John” decidiu questionar Cláudio Valente: “O seu carro está ali atrás, porque é que está a dar voltas ao quarteirão?”.

“Eu não o conheço de lado nenhum”, respondeu o português, perguntando de seguida porque “John” o estava a “assediar”.

E isto tudo surgiu numa publicação feita no Reddit a 16 de dezembro, quando “John” decidiu contar tudo, com estes mesmos pormenores, sinalizando à polícia que esta pessoa poderia estar ligada ao ataque à Universidade Brown.

Mal sabia “John” que dois dias depois do ataque Cláudio Valente também mataria Nuno Loureiro, importante físico português que dirigia um departamento no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

"Estou a falar muito a sério. A polícia precisa de investigar um Nissan cinzento com matrícula da Florida, possivelmente um carro alugado. Esse era o carro que ele estava a conduzir. Estava estacionado em frente à pequena cabana atrás da Sociedade Histórica de Rhode Island, do lado da Cooke St. Eu sei porque ele usou o comando da chave para abrir o carro, aproximou-se e depois algo o fez recuar. Quando ele recuou, voltou a trancar o carro. Achei aquilo estranho, por isso, quando ele deu a volta ao quarteirão, aproximei-me do carro e foi aí que vi a matrícula da Florida. Ele estava estacionado na secção entre o portão da RIHS e a esquina da Cooke com a George St.", lê-se na publicação que chamou a atenção da polícia.

Para a polícia, “John” é considerado como a chave para a resolução do mistério, que acabou por ligar os pontos entre um ataque a uma universidade e um homicídio aparentemente banal.

Cláudio Valente acabou por ser identificado pelas autoridades, que o encontraram morto esta sexta-feira numa loja que tinha alugado em New Hampshire, também em New England.

Pela ajuda na investigação, “John” pode agora vir a receber os 50 mil dólares que o FBI estava a oferecer por informação relevante relacionada com o tiroteio na Brown.

Sem confirmar que isso vai acontecer, o agente especial do FBI Ted Docks admitiu o cenário: “Seria lógico pensarmos que sim, claro, que ele tem direito a isso”.

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