CRÓNICA || Bruno Soares Gonçalves escreve sobre o físico Nuno Loureiro, com quem trabalhou no Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear
O giz faz sempre um som breve quando encontra o quadro, um ruído seco que anuncia o início de qualquer tentativa de explicar o mundo. As equações crescem no quadro, não como respostas finais, mas como tentativas sucessivas de compreender a natureza. O Nuno Loureiro repetia este gesto muitas vezes. Diante de alunos fascinados com a descoberta de novos domínios do conhecimento, diante de colegas, diante de uma ideia que ainda não estava totalmente resolvida. Escrevia, explicava em voz alta o que estava a fazer, apagava, corrigia, concluía o raciocínio. Não havia encenação no processo, apenas uma clareza tranquila, uma forma de estar que tornava a física mais compreensível. A equação não era um ponto de chegada, mas um lugar de passagem, uma forma de compreender o mundo. No seu caso, o mundo dos plasmas, da fusão nuclear e da turbulência própria destes meios complexos.
No Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear, esse modo de trabalhar era reconhecível. Nos corredores, nos seminários, nas conversas. Assim como estava sempre presente o seu sentido de humor inteligente, afinado, entre outras coisas, pela sua passagem por Inglaterra. O Nuno pautava-se pelo rigor e pela exigência de excelência científica, mas devotava uma atenção genuína às ideias de quem com ele colaborava. Ao explicar, criava espaço para que novas ideias surgissem.
No Instituto Superior Técnico foi um professor estimado. No Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear assumiu responsabilidades científicas e estratégicas, ajudando a construir um programa doutoral de excelência e a definir o rumo da unidade. Fê-lo sempre com a preocupação de ajudar cada investigador a reconhecer e a valorizar o sentido específico do seu próprio contributo. Quem teve o privilégio de trocar com ele ideias relembra a sua assertividade, a capacidade de pensar mais além e de forma diferente, a curiosidade permanente e o desejo claro de contribuir para a excelência da unidade de investigação e para que a fusão nuclear se tornasse uma realidade.
Há vidas que não cabem no título de uma notícia. Não apenas porque foram extraordinárias no sentido grandioso do termo, mas porque são feitas de continuidade, de gestos repetidos, de uma presença que se constrói ao longo do tempo. Dizer apenas como alguém morreu é, muitas vezes, dizer muito pouco sobre como viveu. No caso do Nuno, seria quase não dizer nada. Ficaram por escrever as equações que ainda tinha para partilhar. A família, amigos e colegas foram privados prematuramente de uma vida de ideias que ainda tinha para partilhar. Perdeu-se também algo que pertencia a todos, os contributos científicos que ainda estavam em formação e as ideias que poderiam ter impacto no avanço do conhecimento.
Celebrar a sua vida é lembrar o quotidiano silencioso onde a ciência acontece de verdade. No quadro que se enche e se apaga, na pergunta bem colocada, no instante em que uma ideia ganha forma suficiente para ser partilhada. É reconhecer que o impacto de um investigador não se mede apenas em artigos ou projetos, mas na clareza que deixa nos outros, no conjunto de alunos, futuros engenheiros e investigadores, que ajuda a formar, na confiança que ajuda a construir e no gosto pelo pensamento que estimula.
No fim de uma aula, o quadro fica limpo, mas nunca completamente. Há sempre vestígios de giz, marcas quase invisíveis que denunciam o que ali esteve. Alguém volta a escrever por cima e o ciclo de aprendizagem continua. Mas o impacto do contributo que o Nuno deu à ciência e a futuras gerações de cientistas e engenheiros permanece indubitavelmente como um traço, discreto, preciso e indelével.