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Nuno Crato não acredita no ensino personalizado: "Um miúdo que não consegue saber a diferença entre 15% de 100 e 5% de 20 não consegue ser um cidadão ativo"

11 mar 2025, 13:17

 

 

O antigo ministro da Educação, juntamente com outros dois antigos governantes, participou num painel de discussão sobre as desigualdades no sistema educativo e traçou um cenário “preocupante” do desempenho dos alunos

O antigo ministro da Educação, Nuno Crato, mostrou-se, esta terça-feira, crítico das reformas do sistema educativo que se fizeram em Portugal nos últimos anos. Nuno Crato esteve no Oeiras Education Forum, onde participou num painel de discussão sobre desigualdades do sistema educativo, juntamente com outros dois antigos ministros, David Justino e Maria de Lurdes Rodrigues.

Nuno Crato defende que “devíamos olhar para o PISA” e para os resultados que aquele estudo internacional sobre o desempenho dos alunos nos fornece: “Estes inquéritos internacionais são o melhor que temos para comparar os países e para ver dentro dos países o que temos.” Numa análise ao “preocupante” desempenho dos alunos, o antigo ministro da Educação diz que a pandemia ajudou a agravar este cenário, mas que a queda “vem detrás”. “O sistema de educação foi praticamente destruído desde 2016”, critica.  

Recuperando a intervenção de Yong Zhao, que abriu a conferência e que defendeu que o sistema educativo deve ir ao encontro de cada aluno, Nuno Crato sublinhou que “não podia estar mais em desacordo”, explicando que considera que há conteúdos fundamentais que é preciso transmitir: “Uma criança que não saiba matemática ou não saiba ler não será um cidadão ativo na nossa sociedade”.

Crato diz que, embora também defenda uma maior personalização do ensino, a matemática e a leitura são fundamentais. “Um miúdo que não consegue saber a diferença entre 15% de 100 e 5% de 20 não consegue ser um cidadão ativo na sociedade”, exemplifica.

“A criatividade depende da escolaridade. Os alunos de Singapura foram os mais criativos [no PISA]. Para se pensar fora da caixa é preciso ter alguma coisa na caixa. (…) Um quarto dos alunos portugueses com 15 anos têm graves problemas de leitura”, sublinha.

Nuno Crato defende que “as políticas públicas certamente têm um impacto”, mas aponta o dedo para o pós-2016, quando, no seu entender, o sistema de ensino se agravou à boleia da “redução da avaliação” e da “diluição do currículo”. “Acho que estes problemas são solúveis”, adianta.

As desigualdades sociais e "o papel da escola nelas"

David Justino no Oeiras Education Forum (Rodrigo Cabrita/CNN Portugal)

As declarações de Nuno Crato foram feitas numa conversa entre os três ministros e moderada pelo jornalista Anselmo Crespo, depois de David Justino ter apresentado alguns dados de um estudo sobre desigualdades escolares. Na apresentação, David Justino disse- se “mais preocupado com as desigualdades sociais” e do “papel da escola” no combate a essas desigualdades do que com as desigualdades escolares.

O também antigo ministro da Educação trouxe ao Oeiras Education Forum dados de um estudo que será publicado na nova edição do Atlas da Educação, em meados de abril. O professor destacou a “expansão assinalável da escolarização” ao longo dos últimos 30 anos em Portugal, sobretudo no que diz respeito às mulheres. “Nestes 30 anos foram as mulheres que contribuíram para o aumento da escolarização em Portugal”, vinca.

Numa análise à desigualdade geracional, com dados relativos ao Census 2021, David Justino destacou que, na geração mais idosa, os homens eram mais escolarizados do que as mulheres, mesmo não passando do primeiro ciclo. Um cenário que muda nas gerações anteriores, em que o nível de escolarização é maior e mais comum nas mulheres. “Há não só uma desigualdade de género, como uma desigualdade geracional”, sublinha.

David Justino destacou o grande desenvolvimento que o país travou neste aspeto, destacando mesmo que “não há nenhum país na Europa que, em tão pouco tempo, tenha registado uma redução no abandono escolar como nós registámos”. “O que me parece mais interessante é como nós conseguimos fazer isto em tão pouco tempo”, destaca.

Os dados permitem ao professor contextualizar a importância do ambiente familiar no desempenho dos alunos. “O que trazemos de casa para a escola é talvez o fator com maior peso explicativo da desigualdade”, observa. “Costumo dizer aos meus alunos: ‘Pensem na mochila e pensem que as mochilas que cada aluno leva para a escola não têm todas o mesmo conteúdo e não tem todas o mesmo peso.”

Sobre o papel da escola nas desigualdades, David Justino lamenta a falta de estudos, “mas que há um papel importante, há”, garante. Segundo o antigo ministro da Educação, “um aluno com o mesmo perfil social e socioeconómico tem resultados diferentes em escolas diferentes”, explicando que “há escolas que tendem a acrescentar e há escolas que podem diminuir valor” ao aluno.

David Justino trouxe ainda outro dado para a discussão e analisou a evolução do salário real médio por nível de ensino e idade no setor privado e mostra, com dados de 2012, que os baixos níveis de escolaridade podem resultar em salários até mil euros. “Se tiver o secundário completo já se nota a diferença mais cedo”, diz.

“O ganho salarial decorrente do capital escolar torna-se muitíssimo superior só a partir do ensino superior, a grande diferença está aqui”, remata. “De pouco vale à escola esforçar-se por garantir a igualdade da aprendizagem, se o mercado de trabalho e a economia se encarregarão de o desfazer.”

As "desigualdades territoriais"

Maria de Lurdes Rodrigues no Oeiras Education Forum (Rodrigo Cabrita/CNN Portugal)

Para a antiga ministra Maria de Lurdes Rodrigues, “a educação evoluiu e a sociedade também”. “O país todo evoluiu a par da evolução que tivemos na educação”, considera, sublinhando que temos, por exemplo, uma evolução do sistema de saúde, porque houve um desenvolvimento do sistema de educação.

Sobre os desafios para o futuro, diz que “quem ensina tem de garantir que ensina e que todos aprendem”, destacando o papel da “exigência” que deve ser atribuída aos professores, às escolas, aos políticos e às famílias.

“Há um problema central no nosso sistema de ensino que são as desigualdades dos territórios. (…) Quando a desigualdade territorial implica uma segregação, isso impede a escola e as famílias de cumprirem a sua missão na educação”, argumenta.

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