Reatores de nova geração são o rosto de um renascimento nuclear americano. Alguns especialistas estão a fazer soar os alarmes

CNN , Laura Paddison
15 fev, 22:00
Central nuclear de Palisades na margem do Lago Michigan, perto de Chicago, EUA (Jim West/UCG/Universal Images Group via Getty Images)

Há uma expectativa a crescer rapidamente à volta desta tecnologia que apresenta um ponto de atração claro: energia abundante e limpa a funcionar 24 horas por dia

Nas margens arenosas do Lago Michigan, tendo como pano de fundo uma densa floresta, um edifício de cimento cinzento com ângulos agudos pode ser o símbolo de um renascimento nuclear americano.

A central nuclear de Palisades, a cerca de duas horas de carro de Chicago, foi desativada em 2022, considerada anti-económica num mundo com gás americano barato. Mas a empresa Holtec, com sede na Flórida, está a revitalizá-la. Isto marcará não apenas a primeira reinicialização de uma central nuclear desativada nos EUA, mas, se tudo correr conforme o planeado, Palisades também será o berço de um avanço nuclear: os primeiros "pequenos reatores modulares" comerciais dos Estados Unidos.

Estes reatores nucleares avançados, conhecidos como SMRs, são como mini reatores nucleares, embora anunciados como sendo mais baratos, mais seguros, mais rápidos de construir e mais fáceis de financiar do que os seus equivalentes convencionais — e a expectativa em torno deles está a crescer rapidamente.

O seu ponto de atração é claro: a perspetiva de energia abundante e limpa que pode funcionar 24 horas por dia, 7 dias por semana. Isto é irresistível para empresas de tecnologia que buscam fontes de energia confiáveis ​​para saciar a incrível sede dos seus data centers, que deverá aumentar exponencialmente com o crescimento da Inteligência Artificial (IA). O dinheiro está a jorrar das grandes empresas de tecnologia e do governo Trump.

Os SMRs estão num momento muito favorável agora, diz Michael Craig, professor associado de sistemas de energia e clima da Universidade do Michigan. "Estão neste terreno perfeito, onde há muitas ideias excelentes... e têm muita promessa e potencial", adianta à CNN.

A realidade, como sempre, provavelmente será mais complexa e os especialistas estão a fazer soar os alarmes. O custo total dos SMRs pode ser menor do que o dos reatores convencionais, mas eles ainda são muito caros, o que significa que o preço da eletricidade que produzem será muito mais elevado do que o da energia eólica, solar ou a gás, alertam os especialistas.

Para além disso, também levam muito tempo a entrar em operação. Existem apenas três SMRs operacionais em todo o mundo, e nenhum está nos EUA. Um está numa barcaça russa na costa da Sibéria e os outros dois na China.

Se o alarde em torno dos SMRs é justificado, isso só ficará claro quando forem construídos — e a corrida nesse sentido já começou.

Uma representação de como a central nuclear de Palisades poderá ficar após a sua reativação e a instalação dos pequenos reatores nucleares. foto Holtec International

A energia nuclear avançada é "uma história do tipo 'Regresso ao Futuro'", diz Nick Touran, engenheiro nuclear e consultor independente. Nas décadas de 1950 e 60, os EUA tinham dezenas de pequenos reatores, "e todos operavam de forma anti-económica", explica à CNN. Então, em busca de economias de escala para reduzir custos e o preço da eletricidade, a indústria expandiu os seus negócios.

A energia nuclear, no entanto, é uma tecnologia inerentemente complexa e a construção de megaprojetos personalizados provou-se difícil. Os cronogramas foram atrasados, os custos dispararam e a energia nuclear estagnou nos EUA, incapaz de competir com o gás de xisto barato.

Agora, a escala pequena está novamente em voga. As empresas estão a dizer: "Temos novas tecnologias, temos novos materiais e, desta vez, será mais barato", destaca Touran, embora "isso definitivamente ainda esteja para se ver", acrescenta.

O apelo duradouro dos SMRs (Reatores Modulares Pequenos) está no seu nome. Primeiro, tem a ver com tamanho. Grandes reatores nucleares convencionais são incrivelmente caros, chegando por vezes a atingir as dezenas de milhares de milhões de dólares. Reatores menores simplesmente custam menos para construir. São "uma solução tecnológica para um problema financeiro", indica Touran. "Nenhum investidor de risco pode dizer: 'Ah, claro, vamos construir uma central de 30 mil milhões de dólares’ [25,3 mil milhões de euros]. Já se o custo for de centenas de milhões, talvez possam fazer isso."

Também se trata de modularidade. A ideia é que estes pequenos reatores sejam produzidos em massa em fábricas centralizadas e entregues nos locais, tornando-os mais baratos e mais flexíveis do que os grandes reatores nucleares.

A Holtec quer comprovar o conceito em Palisades, em Covert Township, Michigan. Além de colocar em funcionamento o reator convencional de 800 megawatts, a empresa planeia instalar dois SMRs de 300 megawatts, que serão construídos na sua fábrica em Camden, no estado de Nova Jérsia.

A empresa iniciou o processo formal de licenciamento junto da Comissão Reguladora Nuclear no mês passado e espera ter tudo aprovado até 2029, com os SMRs a entrar em operação até 2031, indica um porta-voz da Holtec.

O seu objetivo a longo prazo, em parceria com a Hyundai Engineering & Construction, é construir uma frota de SMRs na América do Norte na década de 2030.

Alguns especialistas questionam os prazos ambiciosos, especialmente para uma empresa que nunca operou um reator nuclear antes — a Holtec começou no ramo de resíduos nucleares antes de comprar e desativar centrais nucleares fechadas. Contudo, a Holtec afirma que a sua equipa tem centenas de anos de experiência operacional nuclear coletiva e que a sua tecnologia tem provas dadas, com base em reatores nucleares convencionais refrigerados a água.

Usar essa tecnologia é “uma abordagem muito sensata”, pois deve facilitar o processo de licenciamento e da cadeia de abastecimento, ressalta Brendan Kochunas, professor associado de Engenharia Nuclear e Ciências Radiológicas da Universidade do Michigan.

Mas na corrida para colocar o primeiro SMR (Reator Modular Pequeno) da América em operação, a Holtec enfrenta concorrência.

Em 2024, a Kairos Power, com sede na Califórnia, iniciou a construção de um reator de demonstração em Oak Ridge, Tennessee, com o objetivo de iniciar as operações em 2028. O próximo passo será um reator em escala comercial que, segundo a empresa, produzirá eletricidade na rede até 2030. Ela optou por uma tecnologia diferente da da Holtec, usando sal de fluoreto fundido como refrigerante em vez de água.

A Kairos é interessante porque é uma das poucas empresas nos EUA que está realmente a construir agora, diz Allison Macfarlane, diretora da Escola de Políticas Públicas e Assuntos Globais da Universidade da Columbia Britânica e ex-presidente da Comissão Reguladora Nuclear.

O seu processo de construção, teste, aprendizagem e nova construção pode levar mais tempo do que o de empresas que apenas projetam e constroem um reator final, mas pode proporcionar lições inestimáveis. "É preciso demonstrar a tecnologia antes de poder vendê-la a alguém", diz Macfarlane à CNN. "Se ela será bem-sucedida é outra história."

Grandes empresas de tecnologia estão a apostar que sim. Em 2024, a Kairos assinou um acordo com a Google para implantar uma frota de reatores totalizando 500 megawatts — o suficiente para abastecer cerca de 300 mil residências — com o primeiro previsto para iniciar as operações em 2030. A Kairos não confirma o valor do acordo, mas diz que este a ajudará a construir linhas de produção de fábrica e "acelerar a curva de aprendizagem, tornando cada unidade mais barata e mais rápida de implantar".

Outras empresas de tecnologia também estão a investir na área em peso. A Amazon investiu na X-Energy, com sede em Maryland, que usa um projeto refrigerado a gás e está a planear instalar até 12 SMRs numa nova central no estado de Washington.

No início deste mês, a Meta anunciou um acordo com a startup de SMRs Oklo para pré-pagar energia e ajudar a construir um campus no Condado de Pike, no Ohio, para dar suporte aos data centers da Meta na região. A Oklo não divulgou o valor do acordo, mas um porta-voz disse à CNN que "a construção completa do projeto corresponderia a um projeto de infraestrutura de milhares de milhões de dólares".

Há também muito dinheiro público envolvido. Em dezembro, o Departamento de Energia aprovou 800 milhões de dólares (674,6 milhões de euros) para o desenvolvimento de SMRs, com 4 milhões de dólares (3,37 milhões de euros) para a Holtec – e há mais dinheiro a caminho.

"A implantação de reatores avançados é uma prioridade para o governo Trump", diz Rian Bahran, subsecretário adjunto para reatores nucleares. "Fundos adicionais serão investidos na investigação, desenvolvimento e implantação dessas tecnologias."

Instalação do vaso de pressão do reator da unidade de teste de engenharia 3.0 da Kairos em Oak Ridge, no Tennessee. foto Kairos Power

À medida que a expectativa aumenta, alguns especialistas estão a soar o alarme.

Todos os argumentos a favor dos SMRs ignoram uma questão fundamental, sublinha Edwin Lyman, diretor de segurança de energia nuclear da Union of Concerned Scientists: eles são muito caros.

Apesar de todo o dinheiro a circular no setor, “ainda não é suficiente”, diz à CNN. A energia nuclear não consegue competir em custo com alternativas, tanto combustíveis fósseis quanto, cada vez mais, energias renováveis, adianta. “Um SMR ainda é um luxo e pode ser mais acessível em termos de preço inicial, mas isso não significa que produza eletricidade mais barata.”

Até ao momento, a NRC aprovou apenas um projeto de SMR, da empresa NuScale Power, mas um projeto para construí-los em Idaho foi cancelado em 2023, pois os custos dispararam e não houve adesão suficiente de concessionárias para comprar a eletricidade.

Nem a Kairos nem a Holtec confirmaram o custo dos seus SMRs, alegando sigilo comercial.

Alguns SMRs também têm problemas com o combustível. Os projetos mais não convencionais, aqueles refrigerados por sal ou gás, geralmente exigem um tipo especial de combustível chamado urânio de baixo enriquecimento de alta concentração, conhecido como HALEU (pronuncia-se "hai-lu"). As quantidades disponíveis são limitadas e a cadeia de abastecimento tem sido dominada pela Rússia, apesar dos esforços para construir um fornecimento doméstico.

É um risco importante, destaca Touran. O maior desafio da energia nuclear é competir com o gás natural, indica – um "combustível de luxo, super caro, pode não ser a melhor opção".

Ainda existe um estigma em torno do lixo nuclear. As empresas de SMR dizem que reatores menores significam menos lixo nuclear, mas uma investigação de 2022 da Universidade de Stanford sugere que alguns SMRs podem, na verdade, gerar mais lixo, em parte porque são menos eficientes em termos de combustível.

Perante a pressão para acelerar os SMRs, alguns especialistas dizem que a maior preocupação é a segurança. O governo Trump concentrou-se em acelerar os processos de licenciamento e flexibilizar os requisitos regulatórios, o que Lyman teme que não dê tempo suficiente para avaliar a segurança. “É o verdadeiro Velho Oeste”, diz.

Outros especialistas estão mais otimistas. "Eliminar regulamentações sem muita reflexão é perigoso", diz Kochunas, do Michigan. Mas, se isso for feito corretamente, "não acho que haja preocupações inerentes à segurança ao priorizar e acelerar os SMRs", refere à CNN.

O Departamento de Energia rejeita as alegações de que a segurança poderia ser comprometida. "O Departamento de Energia mantém os mais altos padrões de segurança no nosso trabalho com a indústria nuclear", garante Bahran.

Um protótipo do vaso de pressão do reator refrigerado a sal de fluoreto da Kairos é transportado após a conclusão de uma demonstração de hardware em janeiro de 2025. foto Kairos Power

Enquanto as empresas correm para provar que os SMRs podem corresponder às expectativas, os especialistas parecem estar divididos nas suas opiniões.

Para alguns, os SMRs são uma distração cara — e potencialmente perigosa —, com cronogramas que se estendem tão longe no futuro que não podem ser uma resposta genuína às crescentes necessidades de energia limpa da atualidade. Pode levar décadas até que estejam prontos, sublinha Macfarlane. "Essas empresas vão esperar até lá? A IA será relevante então?"

Lyman acredita que uma das principais forças por trás do esforço para colocar os SMRs em operação é o medo de que o tempo esteja a esgotar-se para competir com a energia eólica, solar e com as baterias. "Se eles não provarem o que estão a afirmar sobre como a energia nuclear vai salvar o mundo, então ela tornar-se-á obsoleta", sublinha.

Outros, no entanto, apontam que toda a tecnologia é cara no início e que os custos tendem a diminuir à medida que ela avança. Os SMRs poderiam significar que os data centers não sobrecarregariam a rede elétrica e aumentariam as contas de luz das pessoas; poderiam ser usados ​​em áreas remotas em vez de geradores a diesel ou até mesmo em fábricas industriais para fornecer calor, argumentam.

Investir em SMRs agora provará, de uma forma ou de outra, se eles podem vir a ser uma opção para complementar a energia eólica ou solar, diz Touran – "O progresso exige que as pessoas façam coisas."

“Vamos construir o reator. Vamos ligá-lo e ver se ele funciona bem”, sugere. “O grande debate, a grande corrida, é quem vai conseguir operá-lo de forma económica.”

Ella Nilsen da CNN contribuiu para esta reportagem.

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