"É engraçado" ver Macron e von der Leyen a defenderem a energia nuclear: "Não temos petróleo mas temos ideias"

11 mar, 08:00
Cimeira energia nuclear em Paris Ursula Von der Leyen e Emmanuel Macron (Abdul Saboor/Pool Photo via AP)

Macron e von der Leyen foram os anfitriões de uma cimeira de energia nuclear em Paris, esta terça-feira, para tentar relançar a aposta e os investimentos nessa fonte energética. No dia em que se marcam os 15 anos do desastre de Fukushima, até o Japão está a voltar ao nuclear - e os europeus não querem ficar para trás nem "repetir o erro alemão"

Quando se trata de energia nuclear, estamos de volta aos anos 1970. Como diz Luís Guimarãis, físico nuclear doutorado pelo Instituto Superior Técnico, o encontro desta terça-feira em Paris ecoa “o choque petrolífero de 1973”, com outras roupagens mas as mesmas características.

“Os sintomas são exatamente os mesmos, as dificuldades em aceder a combustíveis fósseis são as mesmas", refere à CNN Portugal, "e o que vimos na altura foi França a apostar no seu próprio programa nuclear – construiu 56 reatores em cerca de 15, 20 anos, e hoje continua a ser o maior exportador de eletricidade e a espinha dorsal do sistema elétrico europeu”.

Depois de uma primeira edição em Bruxelas após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, que pôs a descoberto a extrema dependência europeia do petróleo e gás russos, não é por acaso que tenha sido a capital francesa a albergar a nova cimeira, na semana em que o mundo inteiro volta a estar a braços com subidas abruptas nos preços do crude por causa da guerra que os EUA e Israel decidiram lançar contra o Irão – que, em retaliação, fechou o Estreito de Ormuz, com impacto direto na circulação comercial da matéria-prima.

A abrir a cimeira estiveram Emmanuel Macron, presidente de França, e Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, o que não deixa de ser “engraçado”, ressalta Guimarãis, considerando o papel desempenhado por um e por outro na desaceleração da energia nuclear ao longo das últimas décadas. 

“Von der Leyen foi adepta do encerramento das centrais alemãs, creio que à data era ministra da Defesa da Alemanha, e Macron arrancou a sua primeira campanha para o primeiro mandato [em 2017] a prometer que ia encerrar uma porção do parque nuclear francês – e chegou, aliás, a encerrar dois reatores sem necessidade nenhuma, porque ambos cumpriam os padrões de segurança e rentabilidade, uma decisão tomada sob pressão alemã.”

Quase uma década depois dessa campanha, três anos desde o encerramento dos últimos reatores nucleares alemães, Macron e von der Leyen surgem numa frente unida pró-nuclear, com o chefe de Estado a francês a prometer uma aposta ainda maior em energia nuclear, em parte para alimentar os sedentos centros de dados de inteligência artificial – um Macron a invocar o espírito de Charles de Gaulle e a ideia de que “não temos petróleo mas temos ideias”, o slogan da França do choque petrolífero de 73.

O anúncio feito no arranque da cimeira nuclear surgiu na esteira de um outro, quando na semana passada o presidente francês, também num eco de Charles de Gaulle, proclamou o início de uma nova era nuclear europeia de “dissuasão avançada”, que foi aceite por Berlim, ainda que a contragosto. “A questão é que França precisa realmente de mais energia por causa dos parques de IA, necessidades que claramente não estão a ser atendidas”, destaca Julien Hoez, analista de geopolítica e editor do French Dispatch – que, como Guimarãis, também sublinha a ironia de von der Leyen ter integrado o governo que desmantelou o parque nuclear alemão.

Mas não se trata apenas disso, acrescenta o analista francês. “Quando as pessoas pensam em energia nuclear, associam a energia ao armamento e é um facto que ambas estão inerentemente ligadas; para França, esta também é uma maneira importante de garantir que podemos atender não só às nossas necessidades energéticas, mas também às dos nossos vizinhos e aliados, o que efetivamente constitui um forte tipo de influência geopolítica.”

Portugal fora da corrida

Coincidência ou não, a cimeira nuclear de Paris aconteceu na véspera dos 15 anos do acidente nuclear na central de Fukushima, na sequência de um tsunami devastador que atingiu a costa nipónica a 11 de março de 2011. Esse acidente marcou o início de uma nova crise nuclear, reavivando os receios e assombros que o desastre de Chernobyl em 1986 tinha feito erguer a nível mundial.

Décadas volvidas, os dois países diretamente afetados por acidentes nucleares, Japão e Ucrânia, têm planos para retomar o nuclear, embora no caso de Kiev o acordo de construção de novos reatores esteja em pausa forçada no contexto da guerra – sendo que a central nuclear de Zaporizhzhia é um dos grandes pontos de contenda nas negociações em curso para tentar pôr fim ao conflito. 

Atualmente, a energia nuclear corresponde a cerca de 9% da eletricidade produzida a nível mundial, existindo cerca de 440 reatores em cerca de 30 países, de acordo com dados da Associação Nuclear Mundial. A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), copatrocinadora do evento em Paris, calcula que a produção de energia nuclear poderá duplicar até 2050, esperando-se que a China acrescente 29 novos reatores aos 57 que já tem a operar. De acordo com Rafael Grossi, secretário-geral da AIEA, outros 40 países já começaram a construir ou estão interessados em construir reatores nucleares.

Rafael Mariano Grossi, secretário-geral da AIEA foto Lisa Leutner/Associated Press

Da lista constam países com uma dimensão semelhante à de Portugal, como é o caso da Grécia ou de Itália, sendo que no caso grego, aponta Luís Guimarãis, a realidade é que o país “já tem uma espécie de central emprestada às escondidas, paga um acordo especial para importar eletricidade nuclear da Bulgária”. E a questão não é nem pode ser a dimensão de cada país, adianta.

“Quando fazemos o planeamento de um sistema, não podemos pensar no que temos agora, temos de pensar no que vamos ter e no que vamos precisar daqui a 20, 30, 50 anos. E, neste caso, vamos começar por precisar de infraestruturas em larga escala. Os 200 milhões de euros anunciados por von der Leyen na cimeira são um bom começo, mas o investimento necessário será muito maior – estamos a falar de infraestrutura crítica a nível do continente europeu.”

Neste contexto, deve Portugal embalar nesta onda? Essa é uma ideia que já tinha sido aflorada por Paulo Carmona, diretor-geral de Energia e Geologia, no rescaldo do “apagão” que deixou Portugal e Espanha às escuras durante entre 10 e 20 horas há quase um ano, no que peritos da Rede Europeia de Operadores de Redes de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E) classificaram como o evento mais severo das últimas duas décadas na Europa, na sequência de uma “cascata de sobretensões” que se propagou rapidamente pela Península Ibérica.

Ouvido na comissão de Ambiente e Energia do Parlamento, Carmona disse que “Portugal não tem necessidade de ter um nuclear nesta altura”, mas que essa hipótese “não se deve descartar pela questão da soberania energética no futuro” – sublinhando que essa é e será sempre uma decisão política, nunca apenas técnica. Mas "em termos de investimentos", aponta Luís Guimarãis", "temos de o ver de uma maneira técnica, como dizia Paulo Carmona, da DGEG [Direção-Geral de Energia e Geologia], que agora até está em processo de extinção – temos de planear para o consumo que esperamos ter com base no trilema das emissões, custo, abastecimento e segurança do abastecimento”.

O físico nuclear invoca igualmente a importância do estudo sobre os custos totais do sistema associados a diferentes tecnologias energéticas que o secretário de Estado da Energia, Jean Barroca, anunciou no final do ano passado. “Vai permitir perceber qual a mistura certa de eletricidade que é mais fiável, mais barata e mais descarbonizada. E repare, nós dizemos que nem usamos [energia nuclear], mas temos sete reatores aqui ao lado, em Espanha, e 7% do consumo nacional chega a ser do nuclear espanhol. Só que agora Espanha vai desativar os reatores por questões políticas, vai insistir no erro alemão – quando agora é a hora de pôr todas as cartas em cima da mesa.”

Jean Barroca, secretário de Estado da Energia, anunciou em outubro que Portugal vai fazer um estudo sobre os custos totais do sistema associados a diferentes tecnologias energéticas. Para já, nada indica que o nuclear venha a fazer parte do mix de energia produzida pelo país foto José Sena Goulão/Lusa

Novas tecnologias no mix energético

Na mesma intervenção de Carmona na comissão parlamentar, a DGEG assumiu ter dúvidas quanto à escala do país para acolher grandes centrais nucleares, elevando a possibilidade de Lisboa recorrer a novas tecnologias de produção de energia atómica - por exemplo, os chamados Pequenos Reatores Modulares (SMR, na sigla em inglês), nos quais países como Itália e os EUA já estão a apostar.

Aqui, como em tantas outras questões em torno do nuclear, Luís Guimarãis considera que existe muita desinformação, em particular quanto aos custos de produção de SMR. “Alguns desses reatores são mais caros por unidade de eletricidade produzida, para o tamanho que têm consomem mais material”, refere o especialista português, que apesar de tudo reconhece algumas vantagens dos SMR. 

“A grande vantagem é que podem produzir mais do que eletricidade, há designs que permitem operar a temperaturas mais elevadas do que os reatores grandes, o que possibilita muitas aplicações interessantes para centrais de dessalinização, geração de vapor para a indústria têxtil e do papel – isto quando operados com geração de eletricidade e produção de calor industrial e produzidos a uma escala suficiente para baixar e otimizar os custos, como acontece numa linha de montagem.”

Podem então os SMR ser uma opção para a Europa e em particular para Portugal? Guimarãis concede que sim, sempre enquanto parte de uma equação alargada com fontes energéticas diversificadas. “Diria que a Europa deve apostar num ou dois designs de SMR para centros industriais e, mais importante do que isso, num organismo regulador a nível europeu que possibilite fazer a instalação e a monitorização o mais depressa possível; em Portugal falta um regulador nuclear, que é obrigatório, e isso monta-se em dois anos – mas ter um organismo europeu seria uma mais-valia.”

O facto, adianta o físico português, “é que, se olharmos de uma maneira desapaixonada para isto, vemos que o nuclear é uma excelente alternativa, uma componente do mix elétrico juntamente com renováveis como a hídrica, a solar, a eólica…”. “O nuclear é a fonte mais segura que existe. Olhando para estatísticas vemos que é ligeiramente mais segura que o solar – e, no final do dia, o objetivo é esse, ter o nuclear como um dos componentes do mix elétrico.”

Render de um Pequeno Reator Modular (SMR, na sigla inglesa), mais pequeno que uma central nuclear tradicional e que tem a vantagem de operar a temperaturas mais elevadas do que os reatores maiores foto Cortesia de NuScale

"Finalmente a Europa põe na mesa uma alternativa fiável e de baixo carbono"

Na cimeira nuclear de Paris, von der Leyen foi a primeira a assumir a desnuclearização como “um erro estratégico” – e ainda que não tenha feito referência à Alemanha, esse é, de longe, o exemplo mais gritante desse erro. “Esse é um ponto muito interessante, essa reação alemã ao nuclear, no sentido em que uma porção significativa da população continua a apoiar os Verdes e a sua postura agressiva antinuclear, trazendo muitos políticos a bordo”, destaca o analista Julien Hoez. 

Luís Guimarãis, que viveu muitos anos na Alemanha, concorda em absoluto e destaca a “cultura de antinuclearismo primário” que vigora desde a crise do petróleo nos anos 70 e que é alimentada até pelo Plano Nacional de Leitura que guia as escolas alemãs. “Os reatores nucleares alemães eram dos melhores do mundo, os últimos três a serem encerrados eram topo de gama, os alemães eram proficientes na tecnologia e mesmo hoje em dia pode utilizar-se urânio no país para produzir calor mas não eletricidade. Há uma central que não foi desativada que produz água quente com recurso a urânio – é esquizofrenia cultural.” 

O atual chanceler, Friedrich Merz, é favorável a um regresso ao nuclear, mas Guimarãis diz compreender a sua relutância em reabrir esse debate, “até porque seria preciso mudar a componente legal, muito blindada”, de Berlim. Facto é que, se em tempos a Alemanha era exportadora de eletricidade, hoje é o maior importador de energia, estando dependente do parque nuclear francês, da Eslováquia, da Chéquia e até do carvão da Polónia.

A Alemanha encerrou os seus últimos reatores nucleares em 2023, mas mantém uma central por desativar em que o urânio é enriquecido para aquecer água mas não para produzir eletricidade foto Daniel Peter/AFP via Getty Images

“Temos uma Alemanha a que chamávamos o motor industrial da Europa, mas o motor está completamente gripado, com eletricidade caríssima. O país apostou as cartas todas no gás russo e, em 2022, de repente viu que afinal o seu trunfo não era um ás de copas. O modelo económico alemão implodiu, acabou-se o gás russo e o mercado automóvel chinês está a fazer colapsar o alemão. A Alemanha jogou todas as cartas e foram as cartadas erradas.”

E é precisamente para não repetir o erro alemão, nesta era que parece ecoar os anos 1970 mas de olhos postos no futuro, que podemos estar a assistir ao renascimento do nuclear. “A Europa paga pela eletricidade quase o dobro do que se paga nos Estados Unidos e o triplo do que se paga na China – como fator de competitividade, isto é fatal”, sublinha Luís Guimarãis, quando na verdade a Europa já tem uma grande vantagem.

"Nós temos o minério necessário para fazer combustível para as centrais, sendo que não é preciso assim tanto”, acrescenta o físico. “O urânio é um dos minérios endógenos do continente europeu; Espanha e Chéquia têm reservas consideráveis de urânio – e temos grandes parceiros no Canadá e no Cazaquistão. O que finalmente vejo é a Europa a pôr na mesa uma alternativa de baixo carbono e eletricidade fiável 24 horas por dia, sete dias por semana.”

Europa

Mais Europa

Mais Lidas