"A Europa paga pela eletricidade quase o dobro do que se paga nos EUA e o triplo do que se paga na China. Isto é fatal"

13 mar, 07:00
As torres de arrefecimento três (à esquerda) e quatro são vistas na instalação do reator nuclear da Central Termoelétrica de Alvin W. Vogtle, na sexta-feira, 31 de maio de 2024, em Waynesboro, Geórgia, EUA. (Mike Stewart, arquivo/AP)

ENTREVISTA || Os europeus estão finalmente a "pôr em cima da mesa uma alternativa de baixo carbono, eletricidade fiável 24 horas por dia, 7 dias por semana, e que precisa de combustível que a Europa até tem bastante capacidade de produzir". É o que defende Luís Guimarãis, doutorado em fusão nuclear pelo Instituto Superior Técnico, numa entrevista a propósito da cimeira de energia nuclear que teve lugar em Paris esta semana, na segunda semana da guerra no Irão, que fez disparar os preços do crude

Esta cimeira acontece no contexto do fecho do Estreito de Ormuz, que fez disparar os preços do crude, depois de uma primeira edição no rescaldo da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, que expôs a extrema dependência europeia do petróleo e gás russos. E a juntar à muito invocada questão de soberania energética, também temos agora centros de dados de Inteligência Artificial sedentos de energia. Qual a importância desta cimeira?

Este encontro é um bocado um eco do choque petrolífero de 1973, os sintomas são exatamente os mesmos, e são mesmas as dificuldades em aceder a combustíveis fósseis. Na altura, o que vimos foi França a apostar no seu próprio programa nuclear, construiu 56 reatores em cerca de 15, 20 anos, e é hoje o maior exportador de eletricidade, e a espinha dorsal do sistema elétrico europeu.

O que também vemos aqui é que é engraçado termos Emmanuel Macron e Ursula Von der Leyen à frente desta cimeira.

Em que sentido?

Von der Leyen porque foi adepta do encerramento das centrais, creio que era ministra da Defesa à data dessa decisão. E Macron começa a sua primeira campanha para o primeiro mandato presidencial [2017] a prometer que ia encerrar uma porção do parque nuclear francês – aliás, chegou a encerrar dois reatores sem necessidade nenhuma, porque cumpriam os padrões de segurança e de rentabilidade económica, na altura sob pressão alemã – e agora é o maior e mais acérrimo defensor do nuclear.

Como, aliás, já se tinha visto na semana passada, com o anúncio de uma nova era de "dissuasão avançada" na Europa e uma renovada aposta em armas nucleares…

Exato, agora faz promessas, tanto quanto a armas como quanto a energia, vemos Macron a tentar invocar o espírito de Charles de Gaulle e a ideia de que “não temos petróleo mas temos ideias”. A Europa paga pela eletricidade quase o dobro do que se paga nos Estados Unidos e o triplo do que se paga na China. Como fator de competitividade, isto é fatal.

A partir da base militar de Île Longue, que alberga os submarinos nucleares de França, Macron anunciou na semana passada o início de uma nova era de "dissuasão avançada" na Europa, porque "para sermos livres, temos de ser temidos e, para sermos temidos, temos de ser poderosos", disse o presidente francês. (Yoan Valat/Pool photo via AP)

O que vejo finalmente é a Europa a pôr em cima da mesa uma alternativa de baixo carbono, eletricidade fiável 24 horas por dia, 7 dias por semana, e que precisa de combustível que a Europa até tem bastante capacidade de produzir, tem o minério para fazer combustível, sendo que não é preciso assim tanto. O urânio é um dos recursos endógenos do continente europeu. Espanha e Chéquia têm reservas de urânio consideráveis – e o Canadá e o Cazaquistão são os nossos maiores parceiros, sendo que o Canadá é um parceiro muito fiável.

A presidente Von der Leyen disse, no arranque da cimeira, que foi um "erro estratégico" abandonar o nuclear; não mencionou a Alemanha, mas Berlim é o caso mais óbvio disso – o país ficou para trás? 

Vivi na Alemanha durante alguns anos, e a cultura deles é incrível. A Alemanha vive desde os anos 70 uma cultura de antinuclearismo primário, o Plano Nacional de Leitura inclui obras que as crianças leem baseadas em falsidades que lhes incutem este temor pela tecnologia desde jovens. 

Os reatores nucleares alemães eram dos melhores do mundo, e os últimos três a serem encerrados [em 2023] eram topo de gama. Os alemães eram proficientes na tecnologia e, mesmo hoje em dia, pode-se utilizar urânio no país para produzir calor mas não eletricidade. Há uma central não desativada que serve para produzir água quente – é esquizofrenia cultural. 

O chanceler alemão, Friedrich Merz, abandonou a sua oposição à retoma do nuclear a nível europeu, mas não tem planos para reabrir qualquer das centrais alemãs.

Merz é favorável, mas compreendo que não queira reabrir o debate, até porque seria preciso mudar uma componente legal que é muito blindada. A Alemanha embirrou num erro e mantém-se nesse erro. Nós [físicos nucleares] tentámos demovê-los de fecharem as centrais, até fizemos uma manifestação em frente ao Instituto Goethe, aqui em Lisboa, mas não há volta a dar. E se dantes o país era exportador de eletricidade, hoje é o maior importador, está dependente do parque nuclear francês, da Eslováquia, da Chéquia, até do carvão da Polónia. 

Temos uma Alemanha a que chamávamos o motor industrial da Europa, mas o motor está completamente gripado, com eletricidade caríssima. O país apostou as cartas todas no gás russo e, em 2022, de repente viu que, afinal, o seu trunfo não era um ás de copas. O modelo económico alemão implodiu – acabou-se o gás russo e o mercado automóvel chinês está a fazer colapsar o alemão. A Alemanha jogou todas as cartas e foram as cartadas erradas.

A atual presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, era ministra do governo de Angela Merkel quando Berlim tomou a decisão de fechar todos os seus reatores nucleares - algo que, na cimeira de energia nuclear de Paris, Von der Leyen assumiu ter sido "um erro estratégico". (AP)

Trump dizia no ano passado, comentando precisamente a situação da Alemanha, que "tudo verde é tudo falido", mas as energias renováveis têm sido a grande aposta de Portugal e de Espanha nas últimas décadas. No rescaldo do apagão de há um ano, o nosso diretor-geral de Energia e Geologia (DGEG) disse que não devemos descartar o nuclear no futuro, mas assumiu que essa é uma decisão puramente política. Devemos começar a olhar para o nuclear ou, dada a nossa pequena dimensão, não é imperativo e as renováveis bastam para garantir a nossa soberania energética? A Grécia, por exemplo, que tem mais ou menos o mesmo tamanho de Portugal, acaba de anunciar que vai começar a construir uma pequena central nuclear…

A Grécia às escondidas tem uma espécie de central emprestada, paga um acordo especial para importar eletricidade nuclear da Bulgária. Eu diria que o argumento da dimensão dos países não encontra sustento. Quando fazemos o planeamento de um sistema, não podemos pensar no que temos agora, temos de pensar no que vamos ter e no que vamos precisar daqui a 20, 30, 50 anos. E nisto vamos precisar de infraestruturas em larga escala.

Os 200 milhões de euros anunciados por Von der Leyen são um bom começo, mas o investimento necessário será muito maior. Estamos a falar de infraestrutura crítica a nível do continente. Em termos de investimentos temos de os ver de uma maneira técnica, como dizia Paulo Carmona, da DGEG – que agora até está em processo de extinção –, temos de planear para o consumo que esperamos ter com base no trilema das emissões: custo, abastecimento e segurança do abastecimento. 

O problema em Portugal é que o palco tem sido exclusivamente dado à desinformação antinuclear desde os anos 60. O debate nunca foi equilibrado e agora está tudo a bater de caras com a realidade. Nesse sentido, recebi com entusiasmo o anúncio do secretário de Estado da Energia de um estudo de total system costs [custos totais de sistema] para perceber qual a mistura de eletricidade que é mais fiável, mais barata e mais descarbonizada. E repare, nós dizemos que nem usamos [energia nuclear], mas temos sete reatores aqui ao lado em Espanha e 7% do consumo nacional chega a ser do nuclear espanhol. E agora Espanha vai desativar os reatores por questões políticas, vai insistir no erro alemão. Quando agora é a hora de pôr todas as cartas em cima da mesa.

Diria que esta movimentação europeia e mundial no sentido de retomar e fortalecer a produção de energia nuclear pode demover os espanhóis?

Ainda vivemos na sombra do apagão e vemos o governo de Pedro Sánchez a omitir dados fundamentais, como o áudio da sala de controlo da rede elétrica espanhola, o gestor da rede. Sánchez fez ponto de honra de encerrar Almaraz. [Mas] acho que estamos muito perto de ver uma reversão da posição de Madrid e uma extensão de três anos para a central.

Espanha tem planos para fechar a central nuclear de Almaraz, em Cáceres, mas Luís Guimarãis coloca a possibilidade de o governo de Pedro Sánchez reverter essa decisão perante a viragem europeia e mundial. (Carlos Criado/Europa Press via Getty Images)

Como olha para novas tecnologias como os chamados Pequenos Reatores Modulares (SMRs, na sigla inglesa), nos quais países como Itália e Estados Unidos têm estado a apostar? Sendo mais pequenos, são mais baratos de implantar e operar – no caso português, poderiam ser uma hipótese a explorar no futuro?

Novamente, há aqui desinformação quanto aos custos dos SMRs: alguns desses reatores são mais caros por unidade de eletricidade produzida, para o tamanho que têm consomem mais material. A sua grande vantagem é que podem produzir mais do que eletricidade, há designs que permitem operar a temperaturas mais elevadas do que os reatores grandes operam, possibilitando muitas aplicações interessantes em termos de calor industrial - centrais de dessalinização, geração de vapor para indústria têxtil e do papel…

Fazem sentido quando operados com geração de eletricidade e produção de calor industrial, e quando produzidos a uma escala suficiente para baixar e otimizar os custos, como numa linha de montagem. Portanto sim, diria que a Europa devia apostar num ou dois designs de SMR para centros industriais – e também, mais importante do que isso, num organismo regulador a nível europeu que possibilite fazer a instalação e a monitorização o mais depressa possível. Em Portugal falta um regulador nuclear, que é obrigatório, e isso monta-se em dois anos. Mas ter um organismo europeu seria uma mais-valia.

Há muito ativismo e críticas ao nuclear, a começar por riscos de segurança. Que argumentos usaria para rebater esse criticismo?

O nuclear é a fonte mais segura [de geração de energia] que existe – olhando para estatísticas, vemos que é ligeiramente mais segura do que a solar, diria que esse é um dos grandes argumentos. Quanto à segurança, esta semana marcam-se os 15 anos de Fukushima e o Japão está a voltar ao nuclear. E a Ucrânia [onde se deu o desastre de Chernobyl em 1986] está nas condições em que está, mas já tem um acordo para construir vários novos reatores.

Aqui em Portugal, se olharmos para a Zero, que é a maior associação ambiental portuguesa, vemos que o discurso foi mudando ao longo do tempo. Dantes era uma questão de segurança, agora é económica. Mas como se costuma dizer, a mentira dá a volta ao mundo ainda a verdade não calçou as botas.

É preciso muita paciência e a melhor informação possível para rebater os argumentos contra o nuclear. Muitas pessoas sentem-se enganadas pela desinformação que foi havendo sobre isto. Se olharmos para o nuclear de uma maneira desapaixonada, vemos que é uma excelente alternativa enquanto uma das componentes do mix elétrico, juntamente com as renováveis, como a energia hídrica, a solar, a eólica… No final do dia, o objetivo é esse, ter o nuclear como um dos componentes do mix elétrico.

Uma das grandes críticas ao nuclear é a questão do lixo produzido pelas centrais de enriquecimento de urânio e o que fazer com ele. O que responde a isto?

A questão dos resíduos é um problema resolvido. É engraçado que tenho colegas que descobrem isso e se sentem altamente enganados pelo que ouviram dizer. A verdade é que não há registo de feridos nem mortos a manusear resíduos nucleares. Primeiro, geram-se muito poucos resíduos. Depois, se visitar uma central espanhola, vê que não ocupam nem metade de um campo de futebol; os resíduos ficam ali, em contentores de cimento, sem danificar ninguém. Já temos soluções para isso – e, mais do que isso, temos desenhos de reatores que poderiam consumir os próprios resíduos, mas que foram politicamente enterrados na Europa durante os anos 1990.

Japoneses manifestam-se em Tóquio contra a retoma da produção de energia nuclear na central de Kashiwazaki-Kariwa, 15 anos depois do desastre nuclear de Fukushima. (Eugene Hoshiko/AP)

Quando falamos de energia nuclear, referimo-nos ao processo de fissão nuclear, mas há milhões a serem investidos há décadas na fusão nuclear, em que, em vez de recorrermos a material como o urânio, se produz energia a partir de materiais menos perigosos, como o hidrogénio. Parte do investimento anunciado por Von der Leyen e outros fundos que venham a ser anunciados no futuro devem ser canalizados para a fusão nuclear?

O meu doutoramento é nesta área. A fusão ainda está em fase experimental e, como tal, deve ser tratada como um projeto de investigação e não um projeto comercial. A fissão funciona e está disponível comercialmente, por isso, devemos apostar em ambas, na fissão do ponto de vista comercial e na fusão do ponto de vista científico, pois não sabemos quando estará disponível comercialmente.

Ter "nuclear" no nome "fusão nuclear" faz muita gente perder a racionalidade e exigir o impossível desta via de pesquisa. Não esperamos que o CERN ou a Estação Espacial Internacional deem retorno comercial direto, por exemplo. No entanto, as contribuições indiretas da fusão nuclear, com melhor e mais rápida eletrónica, melhores supercomputadores, melhores sistemas de criogenia, aplicações de plasmas, têm beneficiado a indústria mundial, a par de outras grandes contribuições da fusão nuclear, na robótica, tecnologia de vácuo, lasers de alta precisão, simulação computacional e sensores.

Quanto tempo diria que falta, em termos práticos, para podermos produzir eletricidade por via da fusão nuclear?

Isso é uma grande incógnita, mas quero acreditar que podemos ver uma prova de conceito até 2040.

Sendo o nuclear uma questão tão fraturante há tanto tempo, diria que Portugal deveria levar o tema a referendo, como já aconteceu, por exemplo, em Itália?

O referendo italiano, creio que levado a cabo em 1987, tem muito que se lhe diga, tinha uma pergunta duvidosa, foi uma coisa um bocado estranha. Mas em resposta à pergunta, diria que tratar isto de uma maneira especial não faz sentido, porque passa a ser uma questão de paixão e não uma questão técnica.

Nunca levámos o carvão ou outros combustíveis fósseis a referendo. E, portanto, não, não acho que o nuclear deva ir a referendo. Se depois quisermos instalar uma central num dado sítio e a população local for contra, aí é outra história. Mas à partida não concordo que haja um referendo.

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