As cidades secretas onde a bomba atómica foi construída

CNN , Jacopo Prisco (artigo originalmente publicado em junho de 2018)
16 jul, 09:00

16 de julho de 1945 é uma data muito importante para a era nuclear: foi quando ocorreu a primeira explosão nuclear, durante o teste Trinity, nos Estados Unidos. Fez parte do Projeto Manhattan, que recordamos neste artigo

Quantas pessoas são necessárias para construir uma bomba atómica? Cerca de 125.000, se contarmos os habitantes de três cidades inteiras dos Estados Unidos que foram construídas em 1943, como parte do Projeto Manhattan.

As cidades, que também serviram de campo de ensaio para novos princípios arquitectónicos, foram Los Alamos no Novo México, Oak Ridge no Tennessee e Hanford/Richland no estado de Washington.

Tudo isto foi feito em segredo. As cidades não estavam em nenhum mapa, e quase nenhum dos residentes sabia que estava a trabalhar num novo tipo de bomba, apenas que estavam ajudar com algo relacionado à guerra. Para um observador casual, estas cidades eram lugares normais, com a ocasional estranheza: todos os bebés nascidos em Los Alamos, por exemplo, tinham uma caixa de correio em Santa Fé registada como o seu local de nascimento.

Mas a 6 de agosto de 1945, quando a bomba apelidada de “Little Boy” foi lançada sobre a cidade japonesa de Hiroshima, a verdadeira natureza destas cidades foi revelada ao mundo e às pessoas que nelas viviam.

Terra de Ninguém

Estas cidades foram concebidas para albergar as instalações enormes necessárias para refinar o material radioativo e construir as armas. Para as alojar, o governo dos EUA iniciou discretamente a aquisição de terrenos no outono de 1942.

“O secretismo foi impressionante”, disse Martin Moeller, curador da exposição de Washington D.C.: “Cidades secretas: A arquitetura e planeamento do projeto de Manhattan”, numa entrevista telefónica. “A existência destas cidades nunca foi reconhecida pelo governo durante a guerra”.

A escolha dos locais não foi de modo algum aleatória. Eram áreas pouco povoadas, o que facilitava a segurança do terreno e mantinha os despejos a um nível mínimo. E estavam perto, mas não demasiado perto, de um centro de transportes.

Uma vista aérea da estrada para Los Alamos. Os locais selecionados tiraram partido de barreiras naturais para aumentar a segurança e o sigilo. Créditos: Cortesia do Arquivo Laboratorial Nacional de Los Alamos

“Todos eles estavam a cerca de 40 a 56 quilómetros da população existente, longe o suficiente para que, nos anos 40, se pudesse estar longe dos olhares mais curiosos, mas não tão longe que não se conseguisse levar as pessoas a estações de comboio a uma distância relativamente próxima”, disse Moeller.

A razão oficial dada para a deslocação foi a construção de um campo de demolição, de forma a encorajar as pessoas a partir por medo de que as suas casas fossem danificadas. Assim que as cidades e instalações foram construídas, circularam vários outros rumores falsos, incluindo um que atribuía os desenvolvimentos à produção de munições.

Moeller supõe que apenas algumas centenas de pessoas no país sabiam da bomba antes de esta ser lançada. Nada foi explicado às dezenas de milhares que viviam e trabalhavam nas cidades que as produziam, trabalhavam como “toupeiras no escuro”, conforme a revista Life escreveu em 1945.

“Obviamente as pessoas sabiam que algo se passava, mas não sabiam realmente o que era”, disse Moeller.

“E mesmo que estivessem a trabalhar com urânio, nunca ninguém tinha visto ou ouvido falar de uma arma nuclear. Mas é difícil colocarmo-nos na mentalidade da década de 1940. Na altura, a maioria das pessoas não questionava nada que fosse em nome do esforço de guerra”.

Legado arquitectónico

Embora tenham sido construídas rapidamente, as três cidades revelaram-se hospitaleiras. Poucos dos alojamentos se assemelhavam a quartéis militares ou alojamentos temporários.

“Os líderes do Projeto Manhattan sentiram que, para que as coisas decorressem sem problemas, os trabalhadores e, especialmente, os cientistas e engenheiros precisavam de se sentir em casa”, disse Moeller.

Uma das casas mais comuns em Oak Ridge era o modelo B-1, conhecido como Flat Top. Créditos: Administração de Arquivos e Registos Nacionais

“Consequentemente, embarcaram num esforço para construir casas para famílias individuais, estradas sinuosas e comunidades com espaços verdes. Algumas das pessoas que lá viviam, mesmo durante a guerra, contam como foi um excelente local para crescer”.

Mas nem tudo era tão progressivo: A segregação racial foi incorporada no planeamento desde o início.

“(Acontecia) não só em Oak Ridge, que se situava no sul, mas também em Los Alamos e Hanford, partes muito diferentes do país, culturalmente”, contou Moeller. “Nos três casos, a suposição geral era que a segregação era garantida. Desta forma, sobretudo em Hanford, a segregação não acontecia só com os trabalhadores afro-americanos mas também com os trabalhadores latinos”.

Em Oak Ridge, muitos trabalhadores afro-americanos viviam em cabanas de contraplacado que eram bastante diferentes das confortáveis habitações construída para a maioria dos trabalhadores brancos. Créditos: Foto de Edward Westcott. Administração dos Arquivos e Registos Nacionais

Os princípios arquitetónicos utilizados para conceber as três cidades basearam-se em conceitos existentes, tais como os defendidos pelo movimento britânico Garden city e os defensores das habitações pré-fabricadas.

No entanto, as comunidades também serviram de campo de ensaio para ideias que surgissem.

Oak Ridge foi concebido por Skidmore, Owings & Merrill, que hoje em dia são uma grande empresa, mas na altura eram um pequeno grupo empresarial contratados para fazer trabalhos que outras firmas de arquitetura nunca tinham feito antes.

“Não se encarregaram apenas do planeamento geral da cidade, mas ainda desenvolveram a nomenclatura para as ruas, supervisionaram a engenharia civil da comunidade, e os designs gerais das casas pré-fabricadas que foram produzidas em quantidade”, disse Moeller. “Até ajudaram a delinear o currículo escolar.”

“O meu argumento é que foram ali lançadas as bases para a ascensão do moderno escritório de arquitetura multidisciplinar”.

Questões complicadas

A 16 de julho de 1945, a primeira detonação de armas nucleares teve lugar no deserto do Novo México, a cerca de 161 quilómetros de Los Alamos. Robert Oppenheimer, o físico que liderou o Projeto Manhattan, chamou-lhe o teste “Trinity” e utilizou-o para conferir a funcionalidade de um modelo de arma mais complexo a ser utilizado mais tarde na bomba lançada sobre Nagasaki.

A onda de choque foi sentida a centenas de quilómetros de distância, e a nuvem em forma de cogumelo escalou mais de sete quilómetros no céu. Os habitantes locais repararam, e por isso o exército emitiu uma declaração que dizia que “um carregador de munições localizado remotamente contendo uma quantidade considerável de explosivos e pirotecnia elevada tinha explodido”.

Um local da cidade de Hiroshima a cerca de 168 metros de onde a bomba atingiu. Créditos: Keystone/Getty Images

Menos de um mês depois, a 6 de agosto, a bomba foi lançada em combate e o segredo foi revelado.

“O Presidente Truman anunciou o propósito das três cidades secretas”, disse Moeller. “Entre os residentes, houve uma série de reações: inicialmente algumas pessoas ficaram entusiasmadas e incrivelmente orgulhosas por terem trabalhado nesta nova arma que acreditavam ter acabado com a guerra, embora, claro, isto seja discutível. Outros ficaram horrorizados ao descobrir que tinham feito parte dela”.

Nagasaki foi bombardeada três dias mais tarde, a 9 de agosto.

Moeller observa que a sua exposição suscita questões sobre a diferença ética inerente entre os diferentes tipos de armas. “Morreram mais pessoas no bombardeamento de Tóquio do que nos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki em conjunto”, disse ele. É difícil calcular o número preciso de mortes causadas pelas bombas devido aos efeitos duradouros das intoxicações radiativas. Porém, o United States Strategic Bombing Survey relata que 100.000 pessoas foram mortas instantaneamente pelas duas bombas atómicas, enquanto 185.000 pessoas morreram no bombardeamento de Tóquio a 9 de março de 1945.

“As armas nucleares criam um espectro de medo. Mas, eticamente, será isso uma questão diferente de bombardeamentos ou de tiroteios em massa?”

E.U.A.

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