Helena Carreiras, a primeira mulher ministra da Defesa que está a "romper barreiras" em Portugal

25 mar, 22:00
Ministra da Defesa Nacional: Maria Helena Chaves Carreiras (Fonte: ISCTE)

Especializada em sociologia militar, a investigadora Helena Carreiras é descrita como a pessoa que está "mais bem preparada" para assumir a pasta da Defesa em Portugal

Dedicou grande parte da sua vida à investigação do papel das mulheres nas Forças Armadas, foi a primeira mulher a assumir a Direção do Instituto de Defesa Nacional (IDN) e prepara-se agora para ser a primeira mulher a exercer o cargo de ministra da Defesa Nacional. Helena Carreiras dá assim mais um passo para "romper barreias" na sociedade e na política, mas quem a conhece salienta que, "comparativamente com os seus antecessores, está de longe muito mais bem preparada" para o cargo.

"Eu não valorizo muito a questão de ser mulher ou não. Eu acho que o mais importante é, independentemente do género, termos pessoas capazes, com pensamento e conhecimento do portefólio de que vão tratar, e sobre isso eu não tenho dúvidas de que, comparativamente com os seus antecessores, ela está de longe muito mais bem preparada", defende o major-general Carlos Branco, que conhece Helena Carreiras desde 1997, ano em que ambos iniciaram os estudos no Instituto Universitário Europeu, em Florença.

À CNN Portugal, Carlos Branco diz mesmo que "Helena Carreiras foi a pessoa que, nos últimos anos, mais teve contacto com questões da Defesa", não só pelos seus trabalhos de investigação nas Forças Armadas, mas também pelo seu período à frente do IDN, ao contrário dos anteriores ministros da Defesa: "Eram indivíduos que nunca tinham tido nenhum contacto com o mundo militar e ela teve-o, por várias vias."

Nuno Severiano Teixeira, por seu lado, afirma à CNN Portugal que "estava mais do que na altura de termos uma mulher ministra da Defesa" em Portugal, reconhecendo a Helena Carreiras a "capacidade política, o conhecimento e a experiência" necessárias para o cargo: "A sociedade portuguesa está mais do que preparada para ter uma mulher ministra da Defesa. Hoje em dia há mulheres nas Forças Armadas, há oficiais mulheres, há generais mulheres. Porque não poderemos ter uma mulher ministra da Defesa?"

O que dizem os militares?

Para o general Garcia Leandro, antigo vice-chefe do Estado-Maior do Exército e antigo diretor do Instituto de Defesa Nacional (IDN), "não é importante que seja uma mulher, o importante é que seja competente". E, no seu entender, a nomeação de Helena Carreiras faz todo o sentido. "Eu estou convencido de que tem não só preparação, como também tem bom senso", diz, à CNN Portugal.

Também o presidente da Associação Nacional de Sargentos, o sargento-mor António Lima Coelho, salienta o conhecimento e a experiência de Helena Carreiras na área da Defesa, independentemente de ser mulher ou não: "É uma pessoa informada sobre a matéria e sobretudo das dificuldades com que se confrontam as Forças Armadas. A nossa posição é independente do nome ou do género da pessoa para o cargo, o importante é saber que condições e que meios é que o Governo lhe irá proporcionar para o desempenho cabal da função."

O presidente da Associação Nacional de Praças, cabo-mor Paulo Amaral, também defende, em declarações à CNN Portugal, que "o facto de ser mulher não é nenhum obstáculo" para cumprir com a função e diz não ter dúvidas de que "o percurso” de Helena Carreiras na área da defesa “augura alguma coisa de bom". 

O currículo da nova ministra

Helena Carreiras é uma pessoa "fundamentalmente académica", tendo publicado, ao longo das últimas décadas, várias publicações científicas sobre as questões de género nas Forças Militares, nomeadamente o papel das mulheres nas Forças Armadas. Só no último ano, publicou seis obras: A Igualdade de Género nas Forças Armadas, O impacto da Pesquisa Social nos Militares, Género e os Militares nas Democracias Ocidentais, A NATO e a Agenda Mulheres, Paz e Segurança e a Articulação Conhecimento-Política no Estudo das Forças Armadas Portuguesas.

Depois de concluir uma licenciatura e um mestrado em Sociologia, fez um doutoramento em Ciências Sociais e Políticas, no Instituto Universitário Europeu (Florença), que terminou com a apresentação de uma tese sobre políticas de integração de género nas Forças Armadas dos países da NATO.​ Foi também em Florença que conheceu o marido, o também académico Andrés Malamud.

O interesse pela defesa parece ter surgido naturalmente, dando continuidade à obra de Maria Carrilho, que abriu caminho para o estudo da sociologia militar em Portugal. Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa na área da segurança, defesa e relações internacionais, e antigo diretor do IDN, lembra que Helena Carreiras utilizou o trabalho de Maria Carilho - que analisava a opinião da sociedade portuguesa sobre as Forças Armadas - como ponto de partida para analisar as Forças Armadas de forma interna, isto é, "perceber a moral das tropas e as suas preocupações".

É esta preocupação com o lado mais humano e social das Forças Armadas que distingue o trabalho e percurso de Helena Carreiras na defesa nacional. Além do trabalho de investigação e docência nas áreas da Sociologia e Políticas Públicas, foi presidente da Associação Europeia ERGOMAS (European Research Group on Military and Society), entre 2017 e 2019. Antes, foi sub-diretora do IDN, para onde voltou em 2019 - dessa vez, para assumir a direção. 

"Ter uma mulher a dirigir, pela primeira vez, uma instituição como o IDN tem um significado e esse significado é o de que as mulheres podem, de facto, estar nestes lugares de decisão e podem romper algumas barreiras, sobretudo em áreas como esta da defesa, que tem sido um bastião muito masculino. É importante passar esta mensagem à sociedade porque é um exemplo que pode ser importante para as próximas gerações. Gostava que a minha presença enquanto mulher no IDN pudesse inspirar as mulheres e os homens empenhados na construção de uma sociedade mais justa e igualitária", disse, na altura, numa entrevista ao Diário de Notícias.

Mulheres na Defesa lá fora

Há cada vez mais mulheres a assumir a pasta da Defesa em vários países da Europa, um facto que não passa despercebido aos líderes mundiais. Em 2017, no final de uma reunião dos ministros de Defesa dos países da NATO, o secretário-geral da aliança atlântica fez questão de registar um "momento histórico". Pela primeira vez, "um quarto" dos 28 ministros presentes eram mulheres. "É mais um passo na direção certa", escreveu, na altura, numa publicação no Twitter.

Anos antes, em abril de 2008, Carmen Chacón, na altura com 37 anos, foi ainda mais longe no rompimento de barreiras sociais e políticas, ao assumir a pasta da Defesa no Governo espanhol grávida de sete meses. Cinco dias depois de assumir o cargo, a socialista viajou para o Afeganistão numa visita oficial. O vídeo seguinte recordou esse momento marcante, na altura da sua morte, em 2017:

“Grávida ou não, era claro para mim que a minha primeira obrigação era visitar aqueles que são capazes de pôr a sua vida em risco por valores superiores: a liberdade de outros. Uma grávida não é uma doente", disse Chacón, numa entrevista ao El Pais

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