Da descoberta que revolucionou o mundo tecnológico para o Governo. Elvira Fortunato, a nova ministra que é uma apaixonada pela Ciência

25 mar, 13:35
Ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior: Elvira Maria Correia Fortunato (Universidade Nova de Lisboa)

A investigadora Elvira Fortunato estreia-se na governação como ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior no XXIII Governo. Pioneira na eletrónica sustentável e transparente, a cientista chegou a ser apontada com uma forte candidata ao Prémio Nobel da Física

Aos 57 anos, a investigadora Elvira Fortunato soma prémios e distinções nacionais e internacionais pelas suas descobertas na área da Engenharia de Materiais. Pioneira na eletrónica sustentável e transparente, a cientista portuguesa trabalhou ao lado de Carlos Moedas em Bruxelas para orientar as políticas europeias na Ciência e, em 2020, chegou mesmo a ser apontada como uma forte candidata ao Prémio Nobel da Física.

“As coisas na minha vida aconteceram todas de uma forma muito natural. Nunca fiz nada de especial para chegar onde cheguei”, dizia Elvira, em entrevista à RTP, em 2017. Mas o seu percurso mostra o contrário. Em 2008, revolucionou o mundo com a descoberta do transístor de papel, que transforma o papel num material de eletrónica.

Esta tecnologia, que desenvolveu com a equipa do Centro de Investigação de Materiais (Cenimat), onde também estava o marido, Rodrigo Martins, partiu de ‘chips’ baseados em nanotecnologia que substituem o silício por materiais orgânicos. O que antes parecia uma ideia impossível, acabou por se materializar nas mãos da investigadora, que é descrita por alunos e colegas como uma pessoa determinada, que não vê “impasses nem barreiras” quanto o objetivo é concretizar uma boa ideia.

"Quando [Elvira] tinha uma ideia e queria desenvolvê-la, mobilizava a equipa com determinação, de uma forma assertiva, para atingir esse fim. Foi assim, por exemplo, com a questão do transístor de papel. Havia a ideia de que aquilo que não iria funcionar e depois, com a equipa, conseguiu demonstrar que realmente funcionava", conta Luís Pereira, engenheiro especialista em micro-eletrónica e optoeletrónica, à semelhança de Elvira Fortunato, com quem trabalha há 22 anos – inicialmente como aluno de Mestrado e agora como colega no Cenimat.

A investigadora Elvira Fortunato, pioneira na eletrónica sustentável e transparente

Mais recentemente, a investigadora fez uma nova descoberta que promete revolucionar o mundo tecnológico como o conhecemos, com o desenvolvimento do primeiro ecrã totalmente transparente, a partir da utilização de óxido de zinco, um material de baixo custo e não degradável – o que lhe valeu mais um prémio, o "Horizon Impact Award 2020" atribuído pela União Europeia. Esta tecnologia, patenteada pelo Centro de Investigação de Materiais (CENIMAT) e pela Samsung, permite a visualização de informação através de um ecrã transparente, como o vidro de um automóvel, por exemplo, sendo aplicável a telemóveis, televisores, computadores ou tablets.

Pioneira na eletrónica transparente, esta tecnologia tem a particularidade de recorrer a “tecnologias amigas do ambiente”, que não desperdiçam energia. Na verdade, Elvira Fortunato tem sempre o cuidado de utilizar, nas suas investigações, materiais sustentáveis e tecnologias amigas do ambiente, uma preocupação que a acompanha desde muito jovem, razão pela qual tencionava seguir Engenharia do Ambiente. A vida acabou por a levar para o curso de Engenharia Física e dos Materiais, na Faculdade de Ciência e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa. Numa entrevista ao Observador, admitiu que, no início, não sabia bem do que se tratava, mas logo percebeu que era essa a sua paixão.

Em 1995, nove anos depois de terminar a licenciatura, doutorou-se em Micro-eletrónica na mesma instituição, onde passou depois a dar aulas, a par da investigação. Em 2017, foi nomeada Vice-Reitora da Universidade de Lisboa e, desde então, divide o seu tempo entre a produção e a gestão científica.

O percurso na Comissão Europeia, ao lado de Moedas

Em 2015, integrou o grupo de conselheiros científicos da Comissão Europeia na altura em que Carlos Moedas era comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação. Elvira Fortunato foi o único rosto português entre sete cientistas que tinham como missão orientar as políticas europeias em matéria de ciência e investigação.

Carlos Moedas reconhece que a investigadora portuguesa foi nomeada entre tantos investigadores europeus “por mérito”, considerando-a “uma das melhores cientistas portuguesas”, que, além do vasto conhecimento científico, também “percebe de políticas públicas”.

“É muito respeitada na Europa toda, conhece todos os ministros europeus nesta área e conhece muito bem a Comissão Europeia. E muito do trabalho de um ministro da Ciência é também conseguir fundos para Portugal através do grande programa da ciência europeia”, salienta Carlos Moedas, em declarações à CNN Portugal.

Por tudo isto, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa considera que o cargo de ministra da Ciência “é um lugar mais do que merecido” para Elvira Fortunato. “Acho que há pouca gente em Portugal que tenha um currículo como o dela.”

As "ideias revolucionárias e disruptivas" que a prendem ao laboratório

Apesar das responsabilidades acrescidas, Elvira Fortunato "nunca deixou o laboratório e nunca deixou a atividade científica", conta o engenheiro José Manuel Mendonça, que trabalha com Elvira Fortunato no Conselho Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação.

É essa paixão pela ciência que caracteriza a investigadora e que faz questão de passar aos seus alunos. Elvira Fortunato foi orientadora da tese de Mestrado de Luís Pereira, que hoje é professor associado do Departamento de Ciências Materiais da FCT. Destes anos recorda "a dedicação e o empenho do trabalho científico" da professora Elvira, que aparecia nas aulas "sempre com ideias revolucionárias ou disruptivas", envolvendo os alunos nos seus "projetos de ponta", o que acabava por motivar muito os alunos.

Além de acompanhar diariamente os trabalhos dos alunos, Elvira Fortunato tinha o hábito de reunir a equipa no laboratório para "discutir algumas ideias", num brainstorming que durava "a tarde inteira", recorda. "Lembro-me de isso acontecer várias vezes. Quando era necessário, era capaz de se fechar no laboratório com a equipa e estar ali a discutir os problemas e definir a melhor estratégia para os resolver."

Ao longo dos mais de 20 anos de carreira, Elvira Fortunato conquistou diversos prémios, nacionais e internacionais, incluindo a Medalha Blaise Pascal da Academia Europeia de Ciências, em 2016, o Prémio Pessoa, em 2020, e o Prémio Mundial de Engenharia WFEO GREE Award Women, da Federação Internacional de Engenharia.

Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, entrega o Prémio Pessoa 2020 à cientista a Elvira Fortunato

Em 2020, chegou a ser apontada como uma forte candidata ao Prémio Nobel da Física. Na altura, questionada sobre essa possibilidade, a investigadora foi categórica: "Eu não trabalho para prémios. Acima de tudo, gosto de trabalhar."

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