Durante três meses, Tarek Al-Farra dormiu todas as noites com o telemóvel debaixo da almofada. Cada vibração podia ser a mensagem que lhe permitiria sair vivo da Faixa de Gaza - ou a confirmação de que continuaria preso num território sob bombardeamentos constantes. Essa mensagem nunca chegou de Portugal, o país onde tinha sido aceite para estudar. Chegou de Itália. Hoje, Tarek vive em Turim, frequenta um mestrado numa universidade italiana e anda pelas ruas sem olhar constantemente para o céu à procura de drones. A vida que imaginara em Lisboa nunca aconteceu. Não por falta de mérito académico, nem por ausência de documentação, mas porque, quando o tempo era a diferença entre a vida e a morte, o Estado português não agiu
Em julho de 2025, no meio da destruição e do cerco em Gaza, Tarek Al-Farra recebeu uma notícia que lhe devolveu esperança: tinha sido aceite no mestrado em Estudos Ingleses e Norte-Americanos da Universidade Nova de Lisboa. Para garantir a vaga, pagou metade da propina anual, no valor de 1.800 euros, recorrendo a donativos angariados online, enquanto vivia deslocado numa tenda em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza.
O plano era simples e dependia apenas de conseguir sair de Gaza e obter um visto de estudante. O pedido de apoio ao Governo português foi feito de imediato, mas a resposta inicial deixou-o "chocado", conta à CNN Portugal.
"As autoridades portuguesas deram-me uma semana para ir a Ramallah tratar do visto. Fiquei realmente chocado com esse pedido, porque toda a gente no mundo sabe que os palestinianos de Gaza não têm liberdade de circulação".
À data, Gaza encontrava-se sob bloqueio total. A saída de civis dependia de coordenação direta com Israel e era limitada, quase exclusivamente, a evacuações médicas ou a processos de reunificação familiar. Viajar até Ramallah, na Cisjordânia, não era apenas burocraticamente impossível, era fisicamente inviável e extremamente perigoso.
"Foi um pedido estranho. Parecia que estavam completamente desligados da realidade", recorda.
Apesar disso, Tarek insistiu. Enviou dezenas de emails, tentou contactos com a embaixada e com o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Amigos, ativistas e organizações de apoio reforçaram a pressão, mas durante semanas, não obteve qualquer resposta. E, enquanto isso, a vida em Gaza continuava a degradar-se.
"Sabia que a situação não ia melhorar. Cada dia que passava aumentava o risco de morrer ou de ficar ferido. Eu e vários amigos enviávamos dezenas de emails por dia ao Ministério, a explicar a minha situação".
O medo não era apenas da morte. "Pensava constantemente que algo de mau me poderia acontecer antes de sair de Gaza, como ficar ferido, perder a capacidade de andar ou sofrer uma deficiência física. Isso parecia-me ainda pior do que a morte".
A espera teve um impacto psicológico profundo no jovem de 23 anos. Durante três meses, Tarek viveu num estado permanente de ansiedade.
"Dormia todos os dias com o telemóvel debaixo da almofada, à espera de um sinal para sair de Gaza e sobreviver, juntamente com o meu irmão ferido. Esperava por uma mensagem que não sabia se ia chegar. Parecia uma miragem".
A ansiedade transformou-se em desgaste emocional. "Sentia-me vazio, irritável. Já não conseguia suportar nada do ambiente à minha volta. Não conseguia fazer nada de novo, nem voltar a ser o que era antes. Estava suspenso entre viver e sobreviver".
A resposta portuguesa que chegou tarde
O primeiro contacto formal por parte das autoridades portuguesas ocorreu apenas a 18 de setembro, já depois do início oficial do ano letivo em Lisboa.
"Houve um momento em que acreditei que iam ajudar", admite Tarek. "No início, não. Mas depois de meses de pressão, através das redes sociais, de alguns protestos pacíficos e da presença em canais de televisão, acabaram por me contactar. Pediram-me informações, disseram que estavam a tentar encontrar um caminho".
A solução apresentada criou, no entanto, um novo obstáculo: Portugal exigia que fosse o próprio estudante a suportar todos os custos da retirada - estadia na Jordânia, viagens para um país terceiro para emissão do visto e, por fim, o voo para Lisboa. Um valor que, segundo Tarek, ultrapassava os 1.200 dólares.
Em comunicado enviado à CNN Portugal, o Grupo de Apoio a Refugiados Palestinianos em Portugal, que acompanhou o caso de Tarek desde o primeiro dia, considerou que o pedido do Ministério revelou "uma completa falta de compreensão da situação humanitária" vivida pelo estudante. A organização classifica ainda como "impossível" a exigência de pagamento dos custos de retirada, sublinhando que se tratava de alguém sob cerco, sem rendimentos e a viver sob bombardeamentos constantes.
Ainda assim, Tarek respondeu afirmativamente - "por desespero", confessa. "Disse que tentaria arranjar o dinheiro. Não tinha alternativa".
A CNN Portugal tentou esclarecer junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros que obstáculos impediram a retirada de Tarek, que canais diplomáticos foram tentados, se existe algum protocolo específico para estudantes oriundos da Faixa de Gaza ou quantos se encontram atualmente a estudar em Portugal desde o início do conflito. Até à data de publicação deste artigo, não obteve qualquer resposta.
Enquanto Portugal hesitava, Itália avançou. Através do programa IUPALS - Italian Universities for Palestinian Students, integrado nos chamados "corredores universitários", o Governo italiano assegurou a retirada de Tarek e do irmão, Fares Al-Farra, cobrindo integralmente todos os custos e atribuindo-lhes bolsas de estudo.
"Recebi a carta de aceitação da Universidade de Turim, depois o visto, e disseram-me que o meu nome estava na lista de evacuação. Disseram-me que estava tudo garantido: uma bolsa totalmente financiada e um percurso seguro para me tirar de Gaza", conta.
Uma semana antes da saída, recebeu a confirmação final. "Ligaram-me da embaixada. Explicaram o ponto de encontro, a hora, todos os procedimentos". Esse, diz, foi o dia "da redenção". "Foi como um barco seguro para mim. Saí daquela prisão e senti que voltava ao mundo".
"Saber que há pessoas que se importam comigo, que salvaram a minha vida e me deram uma oportunidade de viver, estudar e voltar a sentir a vida, é algo extremamente generoso e humano".
À CNN Portugal, a Embaixada de Itália em Portugal confirma que mais de 100 estudantes e investigadores palestinianos já foram acolhidos através destes corredores universitários e que cerca de 1.350 palestinianos foram retirados para Itália em missões médicas e de reagrupamento familiar desde o início do conflito.
Hoje, Tarek frequenta o mestrado de Comparative Science in Law, Economics and Finance na Università degli Studi di Torino. O irmão estuda Ciência Política na Universidade de Bari. Ambos beneficiam de bolsas integrais, seguro de saúde, alojamento e apoio institucional.
"Sinto-me livre como um pássaro. Às vezes parece um sonho, como se alguém tivesse de me beliscar".
A liberdade, no entanto, não apaga tudo e a adaptação revela-se um verdadeiro desafio. "Nunca estamos 100% confortáveis. Há sempre algo em falta, especialmente a família que ficou para trás. E, depois de dois anos de sofrimento, tudo é novo: o clima, a língua, a cultura. Mas estou a reaprender a viver".
O que ficou por resolver em Portugal
A Universidade Nova de Lisboa confirmou, em comunicado, que, apesar da mobilização da comunidade académica, não foi possível trazer o estudante para Portugal. A instituição congratulou-se, no entanto, por Tarek estar agora em segurança e a retomar os estudos.
A NOVA confirmou ainda à CNN Portugal que aceitou reembolsar os 1.800 euros de propinas pagos antecipadamente pelo estudante.
Hoje, Tarek defende que as evacuações humanitárias não devem ser encaradas como atos de caridade, mas como responsabilidades legais e morais dos Estados europeus. Para quem vive em zonas de conflito, sublinha, o tempo é um fator decisivo: "é muitas vezes a diferença entre a vida e a morte".
O estudante considera que a Europa tem capacidade, instituições e valores para agir, mas critica a falta de consistência, coordenação e coragem política para colocar as vidas humanas acima da burocracia e da geopolítica.
Sobre a própria história, recusa que seja lida apenas como um relato de sofrimento ou sobrevivência. "Quero que seja uma história de dignidade, resiliência e do direito de sonhar, mesmo em condições impossíveis", afirma, lembrando que as pessoas de Gaza "não são apenas números", mas estudantes, pensadores e seres humanos que continuam a acreditar no poder da educação e no futuro.
