ANÁLISE || Em 2019, o mundo assistiu em terror enquanto a Catedral de Notre Dame de Paris, um dos monumentos mais famosos do mundo, sucumbia às chamas provocadas por um incêndio acidental
Cinco anos depois, a Notre Dame vai reabrir ao público “melhor e mais bonita do que nunca” como prometido pelo Presidente Emmanuel Macron, graças, em grande parte, a 846 milhões de euros angariados por 340 mil doadores de 150 países diferentes—uma angariação de fundos sem precedentes para reerguer um símbolo da Humanidade.
Outro símbolo da Humanidade, a Terra, também está em chamas, e neste caso a causa não é acidental. Angariar fundos para a salvar, no entanto, tem- se demonstrado uma tarefa bem mais difícil.
“No que diz respeito ao clima, os países têm de pagar ou será a Humanidade a pagar o preço”. Foram estas palavras do Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, que deram arranque a mais uma conferência climática da ONU, a COP29, no Azerbaijão em novembro, focada em financiamento climático.
Por outras palavras, no que diz respeito às alterações climáticas, quem paga, quanto, e como?
Durante duas semanas, quase 200 países tentaram responder a esta questão e alcançar um acordo para cumprir com a nova meta de financiamento climático, que deveria substituir a meta anual de 100 mil milhões de dólares definida há 15 anos.
Um desafio complexo, tornado ainda mais difícil num ano de profundas mudanças na liderança mundial, com a sombra da eleição de Donald Trump, que nega a crise climática, como presidente dos Estados Unidos da América, e o que significa para a ação climática por todo o mundo, a pairar sobre as negociações.
Segundo especialistas, os países em desenvolvimento deveriam receber, pelo menos, 1,3 biliões de dólares (1,2 biliões de euros) por ano em fundos até 2035 pagos pelos países mais ricos para os ajudar a combater o aquecimento global.
Este dinheiro ajuda os países mais vulneráveis aos efeitos da crise climática na transição para uma economia de emissões menores e a manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5ºC. Segundo os cientistas, para lá deste limite, definido no Acordo de Paris, o aquecimento global vai tornar- se mais perigoso e difícil de reverter.
Mas no final da cimeira, marcada por tensão e frustração, os países alcançaram uma acordo de 300 mil milhões de dólares, nem perto do valor defendido pelos países em desenvolvimento e por economistas independentes, que concordam que os países mais ricos, historicamente responsáveis pelo disparo nas emissões poluentes, não estão a fazer a sua parte.
Empresas privadas e credores internacionais como Banco Mundial vão cobrir centenas de milhares de milhões, enquanto o resto do dinheiro para salvar o planeta terá de vir de investidores privados e de novas potenciais fontes de dinheiro, que ainda terão de ser acordadas.
No final da COP29, representantes das nações mais vulneráveis chamaram ao acordo “uma traição das pessoas e do planeta por parte de países que dizem que levam as alterações climáticas a sério” e “um desastre do mundo desenvolvido”.
Algumas delegações mostraram-se mais otimistas, com esperança que mais dinheiro chegue no futuro.
Independentemente de se chegará ou não, uma coisa parece certa: apesar de ter demorado apenas cinco anos a reerguer a Notre Dame, reerguer o planeta e evitar o colapso ambiental é uma meta que ainda está muito longe de ser alcançada.