Há coisas continuamente surpreendentes a acontecer nas profundezas do mar
Há uma “corrida contra o tempo” para explorar antes que desapareça navio de guerra com 300 anos que está no fundo do mar
por Lianne Kolirin, CNN
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Os arqueólogos enfrentam uma verdadeira “corrida contra o tempo” para explorar os destroços de um navio de guerra inglês que naufragou há mais de 300 anos durante uma violenta tempestade.
O Northumberland era um navio de guerra com 70 canhões, construído em Bristol, Inglaterra, em 1679, como parte da transformação da marinha inglesa levada a cabo por Samuel Pepys – hoje mais conhecido pelos seus diários –, que procurava converter uma marinha corrupta numa força militar respeitável.
O navio naufragou ao largo da costa de Kent, no sudeste de Inglaterra, a 26 de novembro de 1703, durante a devastadora Grande Tempestade, juntamente com outros três navios de guerra: Restoration, Stirling Castle e Mary. Relatos históricos indicam que cerca de 250 tripulantes morreram a bordo do Northumberland.
Os restos do navio foram descobertos em 1979, quando a rede de um pescador ficou presa.
Especialistas afirmam que os destroços, que ocupam uma vasta área do fundo marinho a uma profundidade de 15 a 20 metros estão extremamente bem preservados pela areia e pelos sedimentos que os cobriram ao longo de séculos.
Desde a sua descoberta, o Northumberland esteve parcialmente coberto por areia e sedimentos, o que dificultou a sua exploração. No entanto, no verão passado, cerca de dois terços da estrutura ficaram expostos, permitindo aos arqueólogos subaquáticos realizar uma exploração detalhada.
De acordo com um comunicado da Historic England, o levantamento revelou uma extensa estrutura do casco, múltiplos canhões de ferro, espadas, mosquetes, caldeirões de cobre e alguns baús selados, cujo conteúdo permanece desconhecido.
A organização alerta agora para uma “corrida contra o tempo” para registar todos os detalhes do Northumberland antes que os sedimentos móveis o voltem a enterrar. Os destroços enfrentam ainda ameaças adicionais como fortes correntes e organismos que se alimentam de madeira, podendo tornar-se instáveis e degradar-se rapidamente.
Hefin Meara, arqueólogo marítimo da Historic England e responsável pela missão, explica à CNN que a localização dos destroços é um fator decisivo tanto na sua descoberta como na sua vulnerabilidade atual.
“As Goodwin Sands, onde se encontra este navio, são extremamente dinâmicas”, diz. “Há enormes dunas de areia que se deslocam pela zona. Os destroços podem estar completamente expostos durante algum tempo e depois, de um momento para o outro, voltam a ser enterrado por cinco ou seis metros de areia, desaparecendo por décadas.”
Foi o que se acredita ter acontecido desde a primeira localização dos destroços, em 1979, até à redescoberta mais recente. Segundo Meara, o navio teria originalmente cerca de 46 metros de comprimento, mas até agora apenas cerca de 30 metros estão expostos.
“É um navio de guerra de grande importância”, sublinha. “Estamos a observar uma área exposta com cerca de 30 metros de comprimento, portanto ainda não temos acesso à totalidade dos destroços. Trata-se de um naufrágio que foi sucessivamente exposto e enterrado ao longo de três séculos, pelo que os restos estarão algo dispersos.”
Entre os artefactos bem preservados encontrados pelos mergulhadores contam-se mosquetes, canhões e cordas.
A equipa prevê realizar novos levantamentos geofísicos enquanto tenta aproveitar esta janela de oportunidade antes que os sedimentos voltem a cobrir o Northumberland ou que os materiais comecem a deteriorar-se devido à exposição ao oxigénio e a outros fatores ambientais.
“Pode perder-se tudo num único momento”, explica Meara. “Estes destroços são autênticas cápsulas do tempo da vida a bordo de um navio de guerra, com enormes possibilidades de aprendizagem sobre um período fascinante de expansão naval.”
Os destroços do Northumberland são tema de um novo documentário produzido pelo historiador Dan Snow para a sua plataforma de streaming "History Hit. No comunicado da Historic England, Snow comparou este naufrágio ao do Mary Rose – navio encomendado por Henrique VIII que se afundou em 1545 – e ao HMS Victory, o mais antigo navio de guerra comissionado ainda existente.
“O Northumberland é a peça que faltava”, afirma Snow. “Construído sensivelmente a meio caminho entre o Mary Rose e o HMS Victory, este navio pode preencher detalhes cruciais sobre a construção naval e a vida no mar num momento decisivo da nossa história. Temos o Mary Rose, a cápsula do tempo Tudor — agora temos a cápsula do tempo Stuart para lhe fazer companhia.”