Nuno Markl já veio criticar um "jogo manhoso cujo objetivo é, exclusivamente, abusar do máximo de personagens femininas"
Assim que se tenta aceder ao jogo aparece um aviso: "O conteúdo deste produto pode não ser apropriado para todas as idades ou para ser visto no local de trabalho". O jogo de que falamos está disponível na maior plataforma de videojogos do mundo, a Steam, onde constam jogos como o EAFC, The Last of Us, Football Manager, Sims,Counter-Strike: Global Offensive e Call Of Dutty. A crítica ao novo título não se fez esperar - com mais de 100 tópicos, alguns deles com mais de 100 comentários - já que o propósito do jogo é abusar de personagens femininas.
"No Mercy" tem como lema "torna-te o pior pesadelo das mulheres" e, nos Estados Unidos, o Centro Nacional de Exploração Sexual já condenou e instou a Steam a retirar o jogo da plataforma, uma vez que o mesmo "promove a violência sexual gráfica, o incesto, a chantagem e a dominação masculina, encorajando explicitamente os jogadores a envolverem-se em atos não consensuais e comportamentos misóginos e é descrito como tal".
"O Centro Nacional de Exploração Sexual (NCOSE) condena veementemente o videojogo 'No Mercy', disponível na plataforma Steam, pelos seus temas profundamente perturbadores e nocivos, e insta a Steam a retirar o jogo da sua plataforma", lê-se no comunicado.
Thanks to @CollectiveShout’s advocacy, “No Mercy” was geo-blocked in Australia.
But the game remains globally accessible—including to minors.@Steam must take leadership and implement global safeguards.
We won’t stay silent while platforms profit from rape culture.
Take…
— National Center on Sexual Exploitation (@NCOSE) April 9, 2025
Mas os EUA não foram os únicos a reagir à divulgação do jogo - que ficou disponível na plataforma a 22 de março. Enquanto a Austrália e o Canadá já indisponibilizaram o jogo para download, o Reino Unido também condenou a disponibilidade de um jogo "em que o protagonista se envolve em contacto sexual não consensual, violência sexual, violação e incesto".
“Esperamos que cada uma dessas empresas [de tecnologia] remova o conteúdo o mais rápido possível depois de tomar conhecimento dele”, afirmou o secretário britânico para a Ciência, Inovação e Tecnologia, Peter Kyle, à LBC. “É o que a lei exige, é o que eu exijo como secretário de Estado, e é certamente o que esperamos que as plataformas que operam e têm o privilégio de aceder à sociedade britânica e à economia britânica façam”.
Em Portugal, o jogo está disponível na plataforma para maiores de 18 anos - sendo que basta um simples clique para aceder à página do videojogo onde são apresentadas várias imagens pornográficas - em inglês e tem um custo de 11,79 euros.
Nuno Markl, apresentador e geek confesso, criticou a plataforma por aceitar "vender um jogo independente manhoso, grotesco, cujo objetivo é, exclusivamente, abusar do máximo de personagens femininas - percebemos uma vez mais o quão desigual é este braço de ferro que temos de fazer com o mundo para que os miúdos não se tornem psicopatas".
"Juro-vos: nunca pensei viver para ver este estado de coisas. Machismo e misoginia sempre houve. Mas agora é trendy, comercializável, nem que acabe em violência e morte. Isto é uma distopia criada por homens de merda para formar novos homens de merda. Rapazes, querem ser Homens a sério? Sejam contra isto. Ser a favor disto é ser mais fraco que um inseto", escreveu.
Também a organização sem fins lucrativos "Women in Games" condenou a existência do jogo .
“O facto de um jogo como este estar disponível no Steam - uma das maiores plataformas de jogos do mundo - é totalmente inaceitável. Envia uma mensagem clara e angustiante: a de que a violência contra as mulheres não só é tolerável, como pode ser jogada. Esta mensagem não tem lugar na nossa indústria, nas nossas comunidades ou na nossa sociedade. Apelamos à Valve Corporation, os proprietários da Steam, para que atuem com urgência. Este jogo tem de ser removido. Tens de implementar políticas de moderação de conteúdos mais fortes. Tens de aplicar uma postura de tolerância zero em relação à misognia e ao ódio. As mulheres e as raparigas merecem mais desta indústria. Convidamos todos os aliados a juntarem-se a nós - para falarem, agirem e apoiarem o futuro de um mundo de jogos seguro e inclusivo", afirmou Marie-Claire Isaaman, CEO da organização.
Esta não é a primeira vez que a Steam está envolvida em polémica por permitir jogos deste género - e não só. Em 2019, a plataforma foi obrigada a remover o jogo "Rape Day" - onde os utilizadores podiam "assediar, matar e violar mulheres" - após uma petição ter reunido mais de oito mil assinaturas. Mas, apesar dos jogos removidos, uma pesquisa rápida no Google dá conta de que ainda há vários jogos que promovem o incesto e a violência contra as mulheres.