Comprar um novo dispositivo tecnológico está a tornar-se cada vez mais caro devido à escassez de memória provocada pela corrida à inteligência artificial, uma tendência que poderá manter-se durante vários anos. Perante este cenário, os especialistas recomendam antecipar a compra ou considerar alternativas como equipamentos recondicionados
Está a pensar comprar um novo portátil ou uma consola de videojogos em breve? Prepare-se para pagar mais.
A culpa é do boom da inteligência artificial. Os centros de dados provocaram um aumento da procura por memória, um componente essencial do hardware informático necessário para processar informação rapidamente.
Embora isso seja uma boa notícia para fabricantes de memória como a Micron, a Samsung e a SK Hynix, é uma má notícia para os consumidores.
Os fabricantes de chips não conseguem produzir memória suficiente para abastecer simultaneamente os centros de dados e os dispositivos de consumo, originando uma escassez que fez subir os preços de produtos da Apple, Microsoft e Nintendo, entre outras empresas.
E os especialistas afirmam que não existe uma solução a curto prazo. Prevê-se que a escassez se mantenha pelo menos até 2028, enquanto os gigantes da memória constroem novas fábricas. Mesmo depois disso, alguns analistas não esperam que os preços regressem aos níveis anteriores à escassez.
Asha Sharma, diretora-executiva da divisão Xbox da Microsoft, classificou recentemente a escassez de memória como “a crise de hardware mais grave da história”, num e-mail enviado aos funcionários a anunciar despedimentos e alterações estruturais.
O que está a ficar mais caro?
Os aumentos de preços parecem estar a afetar sobretudo as consolas de videojogos, os tablets e os computadores portáteis. A PlayStation 5, a Nintendo Switch 2, a Valve Steam Deck e vários produtos da Apple - incluindo modelos de iPad e MacBook - ficaram mais caros nos últimos meses. A Microsoft afirmou que tenciona aumentar os preços da Xbox em agosto.
E isso deverá pesar fortemente nas vendas de smartphones e computadores portáteis, dizem os analistas. Prevê-se que as remessas globais de PCs caiam 11,3% em 2026, enquanto a indústria dos smartphones deverá registar a maior quebra anual de sempre, segundo a International Data Corporation (IDC).
No entanto, nem todos os produtos tecnológicos deverão ser afetados; dispositivos como smartwatches e auriculares sem fios não necessitam de tanta memória.
Quanto a outros produtos de maior valor, as perspetivas são mistas: os preços continuarão a subir, mas os maiores aumentos poderão estar prestes a ficar para trás.
“Esse maior salto já aconteceu”, afirma Jitesh Ubrani, diretor de investigação de dispositivos de consumo da IDC. “Os preços vão continuar a subir, mas a um ritmo mais lento. Ainda assim, continuam a subir.”
O que deve fazer?
Alguns analistas sugerem comprar já, antes que os preços aumentem ainda mais. Mesmo que os preços dos componentes de memória baixem, será provavelmente necessário esperar pelo menos um ano até que essas reduções cheguem aos consumidores, segundo Mike Howard, vice-presidente responsável pela cobertura do mercado de memória na empresa de investigação TechInsights.
Mas também depende do produto, uma vez que muitas empresas tecnológicas costumam lançar novos dispositivos no outono, antes da época das compras de Natal. Por exemplo, não faria sentido pagar mais por um iPad se a Apple estiver prestes a lançar um novo modelo.
As empresas tecnológicas costumam lançar novos dispositivos aproximadamente na mesma altura todos os anos.
- Produtos Apple: iPhones em setembro, iPads e Macs em março ou outubro
- Smartphones Samsung Galaxy: primeiro trimestre do ano
- Smartphones Google Pixel: agosto
- Portáteis de várias marcas: janeiro ou junho
A Apple ainda não aumentou os preços do iPhone, mas Howard estima que a empresa teria de aumentar o preço dos seus smartphones em cerca de 250 a 300 dólares para manter as suas margens.
“Devemos começar a pensar num iPhone de 1.500 dólares em vez de um de 1.000 ou 1.200 dólares”, afirma.
Quem quiser evitar os aumentos de preços atuais pode também recorrer ao mercado de segunda mão. A Amazon, a Apple, a Samsung e outros retalhistas de tecnologia dispõem de programas de produtos certificados recondicionados ou renovados, que vendem equipamentos usados com desconto. Segundo as empresas, os produtos são inspecionados e testados antes de serem novamente colocados à venda.
“Na maioria dos casos, estes são artigos praticamente novos que foram devolvidos”, explica Gadjo Sevilla, analista especializado em tecnologia e inteligência artificial na eMarketer. Acrescenta que o desempenho dos equipamentos recondicionados muitas vezes não difere significativamente do dos produtos novos.
No entanto, os consumidores devem ter cuidado ao comprar um dispositivo usado com várias gerações de antiguidade, para evitar ter de voltar a fazer um upgrade num futuro próximo.
Normalmente, existe uma boa oferta de dispositivos relativamente recentes através dos programas de recondicionados, uma vez que os retalhistas e as operadoras incentivam os consumidores a entregar os seus equipamentos antigos em troca de descontos na compra de modelos mais recentes.
Os consumidores podem também considerar comprar mais armazenamento na cloud ou substituir a bateria, em vez de adquirir um novo telemóvel.
Ainda não é claro quando a escassez de memória será resolvida, sobretudo porque colocar novas fábricas de semicondutores em funcionamento é um processo complexo e extremamente exigente que demora anos.
E, segundo Howard, a indústria já está a avançar à maior velocidade possível.
“Não é um processo simples. Acho que toda a gente percebe isso agora”, afirma. “É extremamente complicado. Trata-se do processo de fabrico mais complexo do planeta.”
