Tribunais, uma doação de 800 euros e um empreendimento de luxo. Como o abate de um ninho de cegonhas está a gerar polémica em Gondomar

Agência Lusa , HCL
4 mar, 20:34
Faz 20 anos no dia 9 de maio que uma cegonha provocou um apagão, durante mais de duas horas, na região sul do país. Lisboa também foi afetada

O caso do ninho de cegonhas abatido em Valbom, Gondomar, no ano passado continua a ter desenvolvimentos. Sabe-se agora que o ICNF autorizou a sua destruição em outubro de 2025 e até houve quem estivesse disposto a dar 800 euros do seu bolso para erguer uma torre

O ninho de cegonha abatido em Valbom, concelho de Gondomar, denunciado em outubro de 2025 por uma responsável do PAN, foi autorizado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), revelou a empresa Honest Trone.

No documento emitido pelo ICNF e divulgado pela empresa de capital israelita responsável pela construção de um empreendimento de luxo no local, a remoção do ninho foi autorizada a 7 de setembro de 2025.

No documento lê-se que a “remoção do ninho só poderá ser realizada a partir da data da sua emissão e até de 30 de novembro de 2025 e apenas se este se encontrar desocupado”.

“A Honest Throne, Lda, com sede na Rua Marechal Saldanha, nº 697 3.1, 4150-658 Porto, está autorizada a proceder à remoção de (01) um ninho de cegonha-branca, localizado na Rua Dr. Joaquim Manuel Costa, 1379, 420-436, em Valbom, por motivo do local onde está implementado ter de ser demolido para cumprimento de projeto de loteamento licenciado”, lê-se ainda.

O documento está assinado pela diretora regional da Conservação da Natureza e Florestas do Norte, Sandra Sarmento.

Contactada pela Lusa, a autora da denúncia, a comissária do bem-estar animal do distrito do Porto do PAN, Manuela Carneiro, lamentou “que a construção do empreendimento não tenha tido em conta a presença das cegonhas e não ter adaptado um local para que se pudesse fazer a recolocação do ninho”.

Considerando que o assunto poderia ter sido resolvido com “bom senso”, acrescentou que “se o ICNF não acautela o preservar da natureza, é claro que estes empreendimentos e estes arquitetos também não o vão ter em conta”.

A situação foi também denunciada à Brigada de Proteção Ambiental (BRIPA) da PSP que, entretanto, fez seguir o processo para o Tribunal de Gondomar, onde foi investigado pelo Ministério Público e aguarda despacho do procurador, revelou na terça-feira à Lusa fonte judicial.

Cegonhas de ninho abatido em 2025 voltaram a Gondomar

Entretanto, um habitante de Valbom disponibilizou 800 euros para instalar uma torre perto do ninho de cegonha abatido em outubro, mas a Câmara de Gondomar não respondeu em tempo útil e as aves instalaram-se numa árvore junto a um jardim-de-infância.

Em outubro, a comissária do bem-estar animal do distrito do Porto do PAN, Manuela Carneiro, denunciou o abate de uma palmeira que servia o, até então, único ninho de cegonha conhecido na margem norte do rio Douro, em Gondomar.

Segundo a responsável do PAN, o abate da palmeira onde estava o ninho ocorreu devido à construção de um empreendimento de luxo por uma empresa de capital israelita.

A situação foi também denunciada à Brigada de Proteção Ambiental (BRIPA) da PSP que, entretanto, fez seguir o processo para o Tribunal de Gondomar, onde foi investigado pelo Ministério Público e aguarda despacho do procurador, revelou hoje à Lusa fonte judicial.

Neste meio tempo, um cidadão de Valbom, Vladimiro Viana, quis passar das palavras – fez também a denúncia da situação – aos atos e propôs à Câmara de Gondomar e à União de Freguesias de São Cosme, Valbom e Jovim a construção de um ninho alternativo, uma torre alternativa” onde as aves pudessem continuar a nidificar.

“Há cerca de um mês e meio decidi oferecer 800 euros para a construção de uma torre de 20 metros, com um suporte de dois metros, a ser instalada no espaço onde elas passam mais tempo, junto ao campo de futebol”, contou à Lusa, detalhando que, dessa forma, ficaria, também, perto do ninho abatido em 2025.

Segundo Vladimiro Viana, a única resposta recebida foi do presidente da União de Freguesias, António Braz, informando que “tinha falado com o vereador Fernando Moreira e que este não sabia como resolver a situação”.

Pedido esclarecimento, a autarquia respondeu à Lusa afirmando que “as cegonhas estabeleceram um novo ninho em local próximo, deixando de se justificar qualquer intervenção adicional neste momento”.

O novo ninho, feito numa árvore situado num terreno particular, na Rua Dr. Barreto Costa, dista cerca de 150 metros da localização do anterior e está junto a um jardim-de-infância, situação que surpreendeu a diretora do Agrupamento de Escolas de Valbom, Cristina Varela,

Defendendo a instalação da torre, considerou-a “uma atitude muito educativa, até para a população, e principalmente para os jovens” e afirmou-se disponível para “o que puderem fazer, educar e sensibilizar as crianças relativamente a esse movimento e, se for necessário, propor à autarquia a instalação da plataforma adequada para acolher as cegonhas”.

Para a dirigente do PAN, Manuela Carneiro a torre era bem recebida, assinalando que “tinha o compromisso e a ajuda da câmara para a fazer, caso fosse necessário”.

Questionada se tinha recebido essa informação do município, a responsável do PAN explicou ter contactado “o assessor do vereador [Fernando Moreira] e ele disse que sim, que poderiam procurar um lugar onde fosse possível colocar o ninho das cegonhas”.

Uma vez que as cegonhas voltaram e já estão instaladas, a dirigente do partido ambientalista descarta, agora, a necessidade da instalação da torre, explicando que por estar em curso o período de nidificação “não é possível mexer no ninho”.

Entretanto, o casal de cegonhas deixou de ser o único naquela cidade do concelho de Gondomar, havendo outro, em cima de um poste de iluminação, na rua Vasco da Gama, revelou à Lusa Vladimiro Viana.

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