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Comentador da CNN Portugal

Sarkozy, o pequeno Napoleão

21 out 2025, 08:30

“O homem que quis ser o “Napoleão da modernidade” acaba, como o outro, aprisionado pela sua própria ambição. Napoleão caiu por querer dominar a Europa; Sarkozy, por acreditar que podia dominar o sistema.”

Há em Nicolas Sarkozy qualquer coisa de napoleónica — não apenas na estatura, mas sobretudo na ambição. Tal como Napoleão Bonaparte, vindo da Córsega e das margens da nobreza menor, também Sarkozy nasceu fora do establishment político francês, carregando um nome estrangeiro e uma biografia improvável. Filho de um aristocrata húngaro exilado e de uma mãe franco-grega-judaica, cresceu em Paris, longe dos colégios da elite republicana, e desde cedo percebeu que, em França, o poder não se herda: conquista-se.

A analogia com Napoleão não é mero artifício. Ambos são produtos de uma França fascinada pela ideia de ascensão individual — e obcecada, ao mesmo tempo, com a queda. O general corso coroou-se imperador e acabou em preso e exilado em Santa Helena; Sarkozy chegou ao Eliseu e termina agora em uma cela. A glória de um e a desgraça do outro são capítulos de um mesmo romance francês: o da ambição que confunde o destino pessoal com o destino da pátria.

A carreira de Sarkozy foi uma corrida em alta velocidade. Formou-se em Direito, tornou-se advogado, e aos 28 anos já era presidente da câmara de Neuilly-sur-Seine — um subúrbio rico de Paris, onde se moveu entre milionários, ministros e magnatas. Foi deputado, ministro do Orçamento, do Interior e, finalmente, líder do partido que herdou o gaullismo — a Union pour un Mouvement Populaire (UMP). Tinha verbo fácil, energia inesgotável e um estilo que contrastava com a lentidão cerimonial da política francesa.

Mas Sarkozy não era um gaullista clássico. O gaullismo de De Gaulle fundava-se num Estado forte, soberano, paternalista e interventor — herdeiro direto da Resistência e da reconstrução do pós-guerra. Sarkozy reinterpretou essa herança à luz do século XXI: quis um Estado menos pesado, uma economia mais aberta, uma França mais competitiva e menos complacente. Falava de modernização, de cortes fiscais, de dinamismo e de reforma — palavras que, no coração da França, soavam a provocação. Era o “rupturador” num país que teme a ruptura.

Em 2007, ao suceder a Jacques Chirac — o gaullista tranquilo, homem de compromissos e de silêncios — Sarkozy apareceu como o símbolo de uma viragem. O seu triunfo, com 53 % dos votos, parecia inaugurar uma nova época: a da França moderna, atlântica, digital, capaz de reconciliar o liberalismo económico com o orgulho nacional. Falava-se de um novo estilo de liderança — enérgico, decidido, hiperativo. Paris tinha, enfim, um presidente que telefonava aos ministros de madrugada e respondia aos jornalistas com a impetuosidade de um pugilista.

Mas a velocidade com que chegou ao poder foi a mesma com que começou a perder o controlo. A França, habituada a reformas por decreto e a revoluções por emoção, não acompanhou o ritmo. As promessas de crescimento chocaram com a crise financeira de 2008; as reformas laborais esbarraram na rua; a retórica de autoridade transformou-se em cansaço popular. Em 2012, Sarkozy não foi reeleito. Como Napoleão depois de Leipzig, viu-se forçado a abandonar o trono antes de tempo.

A partir daí, o mito começou a desfazer-se. O homem que se apresentara como o reformador implacável revelou-se o centro de uma teia de processos judiciais, suspeitas de corrupção e financiamentos obscuros. O caso mais grave — e aquele que agora o leva à prisão — diz respeito à campanha de 2007, alegadamente financiada com dinheiro do regime de Muammar Gaddafi. A justiça francesa condenou-o a cinco anos de prisão por associação criminosa. É a primeira vez que um ex-presidente da Quinta República cumprirá pena efetiva.

A ironia é perfeita — e profundamente trágica. A prisão de Sarkozy não é apenas o castigo de um homem; é o retrato de uma época. Durante décadas, a política francesa viveu entre a nostalgia de De Gaulle e a sedução do espetáculo mediático. Sarkozy representou essa transição: o poder transformado em performance, a autoridade em marketing, a proximidade com o dinheiro em sinal de modernidade. No entanto, essa mistura tóxica entre política e negócios acabou por corroer a credibilidade do sistema que o fez nascer.

A França que o elegeu esperava um reformador; a que o condena procura um “bode expiatório”. Mas no fundo, ambas são faces do mesmo país — dividido entre a fidelidade às suas instituições e o fascínio pelos que as desafiam. Sarkozy, como Napoleão, acreditou que bastava a vontade para comandar o destino; esqueceu-se de que, na França republicana, o destino tem sempre uma segunda volta.

Hoje, a sua prisão é menos um escândalo do que um espelho. Mostra o cansaço de uma democracia onde o prestígio substituiu a substância, onde o poder se mede em visibilidade e o carisma suplanta a coerência. Mostra também o enfraquecimento do ideal público: a política deixou de ser serviço e passou a ser palco, mistura de negócios, influência e imagem. O resultado é um país que já não acredita nos seus líderes, mas continua a elegê-los como personagens de uma tragédia que se repete.

Daí que a queda de Sarkozy não seja uma anomalia, mas um sintoma. A Quinta República, tal como ele a encarnou, vive entre o impulso reformista e a paralisia estrutural; entre a necessidade de modernizar e o medo de perder o que resta da grandeza francesa. Cada tentativa de ruptura acaba em frustração — e cada promessa de estabilidade termina em escândalo. O percurso de Sarkozy, com o seu brilho inicial e o seu desfecho judicial, é apenas a versão mais nítida desse ciclo.

Há em tudo isto uma dimensão quase literária. O homem que quis ser o “Napoleão da modernidade” acaba, como o outro, aprisionado pela sua própria ambição. Napoleão caiu por querer dominar a Europa; Sarkozy, por acreditar que podia dominar o sistema. Ambos confundiram o poder com a impunidade — e descobriram, demasiado tarde, que em França o poder é sempre temporário, e a glória, sempre suspeita.

Hoje, quando Sarkozy iniciar a sua pena, não se encerrará apenas uma biografia política; fecha-se um capítulo da própria França. Um país que continua à procura do equilíbrio entre grandeza e sobriedade, entre o passado imperial e a modéstia republicana. Se aprender com o erro, talvez reencontre o sentido de Estado. Se não, continuará a produzir Napoleões — destinados, como sempre, a cair. 

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